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A verdade e a esperança têm a oportunidade de retornar às urnas em 2020 – por Paulo Pimenta

Um observador tarimbado das disputas eleitorais no Brasil desde 1989 concluiu com precisão e ironia: o Brasil conta com dois grandes partidos nacionais – o PT e a Rede Globo de Televisão. Diante do terremoto de 2018, que demoliu as estruturas partidárias convencionais do conservadorismo e, com elas as opções eleitorais da direita que submergiram sob a onda do neofascismo liderado pelo ex-capitão, é preciso incluir essa terceira força: o bolsonarismo.

Não se trata de um partido. Como ensina a história do fascismo na Itália dos anos 20, o bolsonarismo poderia ser melhor definido como um “movimento” para alcançar o poder. É só observar o que foi feito do PSL, a sigla que utilizou para eleger-se.

O tempo e o desgaste de governar um país, sem projeto definido que não seja a demolição do Estado anterior, assentado sobre a Constituição de 1988, vão modificando seu perfil inaugural: vai se convertendo numa “cultura” que se dissemina na sociedade. Uma cultura do ódio, da morte, do negacionismo da maior crise sanitária da história do país, do combate à ciência, do elogio da ignorância, da renúncia a qualquer veleidade de soberania nacional, da aceitação como fatalidade da condição de colônia.

Em seu combate permanente ao Partido dos Trabalhadores, sempre tratado como inimigo a ser aniquilado, a emissora da família Marinho exibiu no seu programa de maior audiência, do domingo, o “Fantástico”, uma reportagem sobre a crise econômica do país. Naturalmente para atribuí-la ao partido concorrente, o PT. Em particular à ex-presidenta Dilma, para responsabilizá-la pelo aumento da desigualdade social!

Habituada a martelar o que elege como do seu interesse até fazer dele uma verdade, aos olhos dos seus telespectadores, a Rede Globo de Televisão trabalha uma estratégia de apagar da história do Brasil todos os inquestionáveis avanços democráticos e sociais alcançados durante o período de 2003 a 2016, amplamente reconhecidos pelos organismos internacionais. 

A ex-presidenta Dilma Rousseff veio a público com uma nota para expressar sua legítima indignação:

“Atribuir, como nas primeiras frases da reportagem, a atual crise por que passa o Brasil a fatos ocorridos em 2015 e 2016 é uma manipulação da História. O Fantástico (…) omite cinco anos de governos Temer e Bolsonaro, em que o Executivo se dedicou a boicotar o crescimento do Brasil, a dilapidar o patrimônio da Nação e a eliminar os direitos dos trabalhadores, do que são exemplo a emenda constitucional do teto de gastos, as reformas trabalhista e previdenciária. São cinco anos de escolhas políticas, todas apoiadas pela Rede Globo, cujo principal resultado foi a volta da fome e a ampliação da pobreza e da desigualdade no Brasil”.

Apagar a memória

No seu combate ideológico ao Partido dos Trabalhadores, a Rede Globo teve sua noite de Trump: se empenhou em brigar com os números. Talvez para cumprir a máxima do Dr. Roberto Marinho: “a Globo não é a Globo pelo que informa, mas pelo que deixa de informar”.

“Os telespectadores mereciam saber, por exemplo, que a economia brasileira está hoje na 12ª posição no mundo, e caindo. Deveriam ser informados ainda que durante o meu governo estivemos sempre entre as oito maiores economias do mundo.”

“Toda a imprensa noticiou que a insegurança alimentar grave havia recuado de 8,2% da população em 2004 para 5,8% em 2009, segunda pesquisa do IBGE. Em 2013 a proporção havia cedido para 3,6%. A melhora tirou o Brasil do Mapa Mundial da Fome em 2014, segundo relatório global divulgado à época pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)” – diz a nota da ex-presidenta Dilma.

Hoje, depois do golpe que violou a Constituição e depôs uma Presidenta eleita e de cinco anos de governo Temer-Bolsonaro, o Brasil volta ao mapa da fome.

O hábito impune de recorrer à manipulação sistemática levou a emissora a silenciar de maneira maliciosa na reportagem do “Fantástico” do último domingo “(…) sobre a desastrosa política econômica de Paulo Guedes, a criminosa omissão do governo Bolsonaro diante da Covid-19, que transformou o Brasil no segundo país com maior número de mortes. Silenciou ainda sobre a inanição das políticas sociais e de saúde, silenciou sobre a política de abastecimento de alimentos do país, silenciou sobre o acesso à habitação. Enfim, calou-se sobre o aspecto multidimensional do combate à miséria e à pobreza”, denuncia a nota.  

Neste período prévio às eleições municipais assistimos a uma movimentação cercada de cuidados e de alguma ansiedade por parte do oligopólio de comunicação da família Marinho, que se atribui o papel de Partido orgânico da plutocracia brasileira.

Fustigado pelo governo de extrema-direita que ajudou a eleger, ensaia tratativas nos últimos meses para alinhavar hipóteses que unifiquem a direita para o pleito de 2022: Moro-Luciano Huck? Huck-Moro? Quem será a cabeça de chapa dessa dupla? Onde se encaixam as pretensões de João Dória?

Com o centro político institucional ocupado pelo “centrão”, isto é, pela direita parlamentar fisiológica que hoje organiza a sustentação do governo de extrema-direita, a Globo vai polindo o discurso do “não aos extremos…” para oferecer à sociedade um discurso que agregue a base eleitoral necessária para a continuidade do programa da extrema-direita.

O exercício de apagar da memória do país os avanços econômicos, sociais, políticos e culturais alcançados no período dos governos democráticos e populares liderados pelo Partido dos Trabalhadores, durante os mandatos de Lula e Dilma é parte constitutiva dessa estratégia de interdição das esquerdas no debate das alternativas de desenvolvimento do Brasil.

Mas temos avançado a partir dos esforços em direção a unificação das esquerdas brasileiras, que acena para um novo ciclo promissor a partir da chapa de Manuela D’Ávila (PCdoB) e Miguel Rossetto (PT) em Porto Alegre e com Benedita da Silva (PT)  tendo como vice a Enfermeira Rejane (PCdoB), contando com o  apoio destacado de Jandira Feghali (PCdoB) no Rio de Janeiro. As frentes eleitorais, inseparáveis das disputas políticas, são necessárias, mas a verdadeira unidade deve se dar nos movimentos sociais e populares, no tecido vivo de cada território, ofertando para as populações um projeto mais generoso de defesa plena da vida.

O debate programático em defesa da reconstrução e transformação do Brasil, deve se aproximar dos desafios mais sentidos pelas classes trabalhadoras, jovens, filhas da crise imposta pelo neoliberalismo ao país, mas ao mesmo tempo portadoras da esperança de superá-la com reconquistas democráticas, como assistimos nos processos em curso no Chile e na Bolívia. Só esta profunda unidade com o povo trabalhador poderá desencadear um ciclo de resistência democrática no país.

Diante deste cenário desafiador, participamos ativamente da disputa e da construção deste novo perfil de país que emergirá das eleições municipais de 15 de novembro de 2020.

Com certeza, os resultados serão bem diferentes de 2016, pois teremos uma multiplicidade de estrelas ocupando os Executivos e os parlamentos municipais, fazendo com que a esperança volte a ter presença nos corações e lares brasileiros!

Afinal, na hora do vamos ver, quem defende você é o PT!

(*) Paulo Pimenta é Jornalista e Deputado Federal, presidente estadual do PT/RS e escreve no site às quartas-feiras.

Observação do editor: a imagem (sem autoria determinada), que ilustra este artigo, é uma reprodução da internet.

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