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Felippe Portinho, o barão maragato – por Ricardo Ritzel

Com a liberdade como ideal, esteve em cinco revoluções, nos séculos XIX e XX

Liberdade como ideal de vida. Felippe Nery Portinho participou das revoluções de 1893, 1923, 1924, 1930 e 1932 e foi contra o Estado Novo de 1937

Está história começa na primavera de 1923, quando todo Rio Grande do Sul estava de arma em punho, convulsionado por mais uma revolução. Desta vez, entre os rebeldes maragatos liderados por Joaquim Francisco de Assis Brasil e os legalistas chimangos apoiadores do governador Borges de Medeiros.

Logo após a Batalha de Erebango, em 13 de setembro, o general maragato Felippe Portinho toma o rumo dos Aparados da Serra perseguido de muito perto pelas forças de Firmino Paim Filho. Sua escassez de munição não lhe permitia continuar em combate aberto com as forças legalistas, mesmo causando perdas materiais e humanas significativas no inimigo.

Mas, atacado de frente nas proximidades de Lagoa Vermelha por um destacamento de Paim Filho, promove um violento contra-ataque e impõe uma derrota avassaladora sobre a tropa borgista liderada pelo coronel Francisco Feijó.

Tão avassaladora que, além do número expressivo de governistas mortos e feridos, o próprio comandante foi internado já cumprimentando a morte no Hospital de Vacaria.

O coronel Feijó sobreviveu, mas além de sentir o gosto amargo da derrota em combate, sentia como ninguém a captura pelas forças rebeldes de um filho querido que atuava como tenente em sua tropa.

Afinal, todos sabiam que, nas lutas sulinas, nem um lado nem o outro faziam prisioneiros. Esses apenas aumentavam as lista de mortos, geralmente com uma faca na garganta.

Alguns dias depois, já acreditando na execução e morte do seu descendente pela total falta de notícias, o atormentado coronel, ainda convalescendo, presencia também a invasão de Vacaria por cerca de três mil maragatos. E, pior, vê com seus próprios olhos os seus algozes desmontarem fortemente armados bem na frente do hospital onde estava se recuperando de seus graves ferimentos.

Os líderes revolucionários de 1923 reunidos em Bagé para debater a paz com os chimangos liderados por Borges de Medeiros

Conforme o historiador Arthur Ferreira Filho, quando a porta da enfermaria abriu, entra sozinho “um homem alto, robusto, de fisionomia enérgica” e olha fixamente ao acamado coronel, que naquele momento também amargava seu futuro e destino.

Para surpresa do coronel Francisco Feijó, uma voz forte e timbrada, porém bondosa, se apresenta: “Coronel, soube de sua luta pela vida e, mesmo sendo inimigo nesta triste luta fratricida, e como sinal de minha amizade e admiração para um bravo guerreiro rio-grandense, trago junto o tenente Feijó para ajuda-lo nesta hora tão difícil”.

Era o general Felippe Nery Portinho em pessoa.

Quando o filho de Feijó entra no recinto, são, salvo e ileso, um até então reticente e orgulhoso coronel cai em lágrimas e, em um choro compulsivo, abraça com força o filho e, logo depois, com a mesma intensidade, o seu até então inimigo mortal.

Ferreira Filho conta em seu clássico livro “Revoluções e Caudilhos” que a cena emocionou, e muito, a todos que a assistiram, comovendo médicos, enfermeiras, assim como maragatos e chimangos que lá estavam.

Conta a lenda que se ouviram gritos de “viva o Rio Grande, viva a gente rio-grandense” e outros tão ou mais inusitados em meio a uma guerra irregular sangrenta e cheia de ódios políticos arraigados.

Conta a história que o general maragato resguardou de determinados “chefetes” rebeldes todos os prisioneiros do Combate de Lagoa Vermelha, sendo eles oficiais ou praças, sempre aos cuidados do médico de sua coluna, doutor João Mozart de Mello, a quem também forneceu uma reforçada escolta até entregá-los ao convalescente coronel em Vacaria.

E, assim como seu companheiro de armas, Honório Lemes, por toda revolução não permitiu de forma alguma atrocidades aos prisioneiros inimigos, alegando sempre que “o inimigo de hoje será o vizinho de amanhã. E que no futuro, “o Rio Grande necessitará de todos esses bravos guerreiros, juntos, pelo progresso e prosperidade desta terra”

Felippe Nery Portinho nasceu em Cruz Alta no ano de 1865, filho de José Gomes Portinho, o Barão de Cruz Alta, e de Benta Portinho. Seu pai, mesmo ostentando um título monárquico, aderiu em primeira hora à Revolução Farroupilha, seduzido pelos ideais republicanos de Souza Neto.

O general foi o único descendente farroupilha que lutou contra o governo de Julio de Castilhos e, depois, Borges de Medeiros. Participou da Revolução Federalista de 1893, no posto de tenente-coronel, atuando na região das Missões, junto a Prestes Guimarães e Dinarte Dorneles.

O Estado-Maior do General Felippe Portinho, durante a revolução de 1923

Curiosamente foi também amigo íntimo do senador Pinheiro Machado, apoiador máximo do governo castilhista e idealizador da temida Divisão do Norte, que deu combate implacável à Coluna de Gumersindo Saraiva.

Na Revolução de 1923, mesmo em idade avançada e não mais morando no Estado, é convocado por Assis Brasil e outros companheiros de armas de 1893, quando retorna para o Rio Grande do Sul e, rapidamente, cria uma tropa com cerca de 800 homens já veteranos de outras lutas e refregas.

Logo, sua fama de líder justo, dotado de astúcia em combate e serenidade de comando na guerra irregular se espalha e sua coluna recebe, ao natural, mais de dois mil voluntários.

Foi o mais capaz dos generais revolucionários gaúchos do século XX, ombreando com Honório Lemes e Flores da Cunha. Sua coluna nunca foi derrotada. Atuou durante toda a revolução de 23 no nordeste do Estado, com algumas incursões ao território de Santa Catarina, quando era perseguido de muito perto por forças superiores em todos os quesitos militares.

Ainda segundo o historiador Artur Ferreira Filho, após a assinatura do Tratado de Paz, o General Felippe Portinho retornou em definitivo ao Rio Grande para ganhar a vida como tropeiro. Sua fortuna pessoal foi transformada em cavalhada, armas, munição e carne gorda para seus soldados.

Participou também da Revolta de 1924 e da Revolução de 30. 

E era tão respeitado que, antes do primeiro tiro de 1930, já estava escalado para uma perigosa e importante missão: seguir, dominar e garantir o envio de armas e soldados pela estrada de ferro Rio Grande do Sul – São Paulo.

E foi no comando de uma das vanguardas revolucionárias que aprisionou na cidade de Marcelino Ramos – SC, o famoso general Rondon, considerado pelos rebeldes como o mais importante troféu de guerra da refrega que derrubou a República Café com Leite.

Conta a lenda que Portinho e Rondon se tornaram grandes amigos e chegaram a trocar cartas depois da ascensão de Vargas ao Poder.

E encerrada a revolução, seu amor pela liberdade continuou intacto, assim como seu espírito revolucionário. Tão logo Getúlio começa abandonar os objetivos que o levaram ao Poder, foi um apoiador e simpatizante dos protestos paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932.

E em 1937 já estava decidido a pegar novamente em armas para lutar a favor de Flores da Cunha quando Getúlio derruba o seu antigo aliado do governo gaúcho e impõe a Ditadura do Estado Novo. Só que os acontecimentos foram mais rápidos que sua oposição à tirania, como também a sua avançada idade. Foi desestimulado por familiares e amigos, que o convenceram que tal ato levaria a um derramamento de sangue inglório entre seus seguidores. Mesmo assim, Vargas não ousou prendê-lo, como fez com outros tantos que o desafiaram. Sabia que iria mexer em vespeiro. E com razão.

General Felippe Portinho faleceu em 1947 com a admiração dos maragatos, o respeito dos chimangos e a mais alta estima de todos brasileiros que lutaram (e lutam até hoje) pelas liberdades individuais e coletivas deste país.

Acampamento rebelde na Serra que, com a região nordeste do Estado, foram o palco do teatro de guerra do lendário general maragato

Bibliografia:

“Revoluções e Caudilhos”, de Arthur Ferreira Filho

“2º Regimento da Brigada Militar (2º RPMon) – O Heróico” – de  Ivo Caggiaani e texto de Gunter Axt.

Observação do Editor: as fotos que ilustram esse artigo são da biblioteca do autor.

(*) Ricardo Ritzel é jornalista e cineasta. Apaixonado pela história gaúcha é roteirista e diretor do curta-metragem “Gumersindo Saraiva – A última Batalha”. Também é diretor de duas outras obras audiovisuais históricas: “5665 – Destino Phillipson”, e “Bozzano – Tempos de Guerrra”. Ricardo Ritzel escreve neste site aos sábados.

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