Tudo como dantes no quartel de Abrantes – por Giorgio Forgiarini
“A sutileza ficou de lado. As ‘sugestões’ deram lugar à extorsão pura e simples”

É comum atribuir o atraso econômico e tecnológico do Brasil a uma suposta inferioridade do povo brasileiro. Não são poucos aqueles que se referem ao povo brasileiro na terceira pessoa do plural, normalmente com o diminutivo denotativo de desprezo: “esse povinho”.
Não adiro a essa hipótese. Prefiro pensar que boa parte de nosso atraso se deve à história. Com o objetivo de garantir controle absoluto sobe a colônia, portugueses adotaram para o Brasil uma estratégia baseada em três pressupostos: isolamento, sigilo e precariedade. A lógica era cruel, porém, eficiente: uma sociedade isolada do mundo, ignorante quanto a si mesma e desprovida de infraestrutura é, obviamente, muito mais fácil de ser controlada.
Justamente por isso, teve o Brasil, durante séculos, seu desenvolvimento francamente sabotado pela metrópole. Por cá, a expansão urbana sempre avançou no ritmo e nos moldes determinados por portugueses. Vilas e Arraiais eram artificialmente criados sem que sequer houvesse população para habitá-las. Poucas eram as urbanizações surgidas de maneira espontânea, atendendo a fatores geográficos ou conveniências logísticas. Primeiro vinha a instituição, depois o povo e o objetivo disso era justamente o de dificultar a interação entre diferentes povoações.
Mais do que isso. Por aqui era proibida a elaboração e publicação de mapas, portulanos ou estatísticas sociais e territoriais. A imprensa e a importação de livros eram desautorizadas. O primeiro jornal brasileiro, vejam só, era editado e publicado em Londres: o Correio Braziliense, do cisplatino Hipolito José da Costa, só chegava ao Brasil por escamoteio.
A instalação de indústrias também era restrita. Os poucos teares que insistiam em funcionar eram destruídos logo que flagrados. A navegação fluvial era reprimida, assim como a abertura de estradas. Os portos brasileiros também eram fechados a estrangeiros, naquilo que recebeu o nome de “exclusivo comercial metropolitano”.
Nenhuma dessas restrições surtiria qualquer efeito se não contasse a metrópole com a cumplicidade decisiva de brasileiros inseridos pela metrópole em postos-chave da burocracia colonial. Deu certo: durante séculos, o Impávido Colosso permaneceu submisso a uma nação diminuta, como um cavalo cabresteado por um domador inúmeras vezes mais fraco.
O Brasil já teve lampejos de desenvolvimento, alguns até robustos. Após 1808, no Século XIX, tivemos momentos de formidável prosperidade. Nos aproximamos de potências e tivemos até certo destaque no cenário internacional. Na Década de 1930, algo parecido se viu por aqui. Entre 1930 e 1939 a indústria nacional e o PIB cresceram cerca de 5,2% e 4,6% ao ano, em média. Fenômenos semelhantes, guardadas as peculiaridades e proporções, foram observados na década de 1950 e até na de 1970. Mais recentemente, nos anos 2000 observamos uma onda de otimismo notável, cantada e decantada até por quem hoje despreza aqueles que governavam na época.
Aparentemente tudo melhora, quando nos descolamos dos cabrestos externos, quando nos autonomizamos em relação aos colonizadores. O problema é que de quando em quando esses colonizadores, que já não são mais os mesmos de outrora, reclamam obediência.
Até algum tempo atrás eram mais sutis. Chegavam, escoltados por “especialistas”, “analistas de mercado” e de maneira sub-reptícia sugeriam privatizações, arrocho salarial, cortes em investimentos, etc. No mais das vezes, eram prontamente atendidos pelos burocratas aqui por eles inseridos.
A sutileza ficou de lado. As “sugestões” deram lugar à extorsão pura e simples. A desobediência é punida com tarifas e até insinuações militares. Até nossa moeda, cuja circulação é amplamente facilitada pelo PIX, foi colocada em risco. A ideia é subjugar, controlar…
Conseguirão? Não sei. Se sim, terá sido culpa da nova metrópole? Sim, mas só por conta da maldita cumplicidade que lhe emprestam os brasileiros por ela inseridos em postos-chave da burocracia nacional, exatamente como acontecia em tempos pretéritos.
Como se costumava dizer em Portugal da primeira década do Século XIX: “tudo como dantes, no quartel de Abrantes”.
(*) Giorgio Forgiarini é advogado militante, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.





Resumo da opera. Da CF88 para cá o pais está na situação que os brasileiros colocaram. https://www.youtube.com/watch?v=X2iIUzupLjU
Cereja do bolo. Pautas ‘bomba’ no Congresso. Dividas de agricultores. Falam em 140 bilhões. Só não destacam que é em 10 anos. Recursos do Fundo Social do Pré-Sal. Outra cereja: em pleno ano eleitoral governo bloqueou 23,7 bilhões do orçamento. Quem perdeu? Defesa, Cidades e Educação. Mexeu na grana das universidades? Tem alguém reclamando?
Estadão de 09 de junho. Editorial. ‘Molusco quebra o Brasil para se reeleger’. https://www.estadao.com.br/opiniao/lula-quebra-o-brasil-para-se-reeleger/?srsltid=AfmBOooTIjd7OF3J5dIGP0QmZ2I_6f1JDTagIl5o27lisafoT3PTlloC
O Globo de 12 de junho. ‘‘Bondades’ de Lula chegam a R$ 215 bi no ano eleitoral: 96% ficam fora do arcabouço fiscal’. https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/06/12/bondades-de-lula-chegam-a-r-215-bi-no-ano-eleitoral-96percent-ficam-fora-do-arcabouco-fiscal.ghtml
‘Sim, mas só por conta da maldita cumplicidade que lhe emprestam os brasileiros por ela inseridos em postos-chave da burocracia nacional, exatamente como acontecia em tempos pretéritos.’ Culpa é de ‘terceiros indeterminados’ também, outro truquezinho antigo. Na mesma linha: ‘os bancos’, ‘os super-ricos’, ‘as elites’, ‘o sistema financeiro internacional’. Não é a oportunidade jogada fora no boom das commodities pelo Rato Rouco. Nem o desenvolvimentismo que já deu errado pelo menos tres vezes. Não é a gastança do Molusco com L., abstemio, honesto e famigerado dirigente petista.
‘A desobediência é punida com tarifas e até insinuações militares.’ Não existem ‘insinuações militares’. Tarifas tem causas, concorde-se ou não, num texto divulgado publicamente. Truquezinho: culpa antes era dos portugueses, agora a culpa é dos ianques.
‘Mais recentemente, nos anos 2000 observamos uma onda de otimismo notável, cantada e decantada até por quem hoje despreza aqueles que governavam na época.’ Devido ao boom das commodities e crescimento da economia chinesa ao redor de 12%, 14%. Foi algo externo. Problema que os proprios chineses sabiam que não era sustentavel.
Coreia do sul. 1985. PIB per capita: 2500 dolares. IDH calculado:0,697. Brasil. Mesmo ano. 1985. PIB per capita: 5400 dolares. IDH calculado: 0,68. Vamos combinar que não era muito diferente, Brasil até estava melhor no PIB. E em 2025? Coreia do Sul: PIB per capita de 36 mil dolares e IDH 0,937. Brasil? 2025. PIB per capita de 12,3 mil dolares e IDH de 0,786. Não é a picaretagem marketeira de IDHM que um bando de sem vergonhas tentou emplacar. Se estava igual perto da redemocratização e eles melhoraram a culpa é dos portugueses colonizadores?
‘Com o objetivo de garantir controle absoluto sobe a colônia, portugueses […]’. A culpa é sempre dos outros. Truquezinho. Ideologia Vermelha não para de pé. Nunca.
‘É comum atribuir o atraso econômico e tecnológico do Brasil a uma suposta inferioridade do povo brasileiro.’ Discordo em genero, numero e grau. Geralmente apontam-se multiplos fatores. Quanto a ‘inferioridade’ trata-se de truquezinho barato. Dá idéia de que como seres humanos os tupiniquins são inferiores a outros povos. Não é disto que se trata. Pais tem um sistema de ensino deficiente, logo o povo brasileiro é mais ignorante que os finlandeses. Tupiniquins tem menos cuidado com o que é publico, logo as ruas das cidades são muito mais sujas do que as brasileiras. Generalização leva a ‘narrativa’ para onde se quer.
Prazer ler textos assim, bem escritos, bem posicionados e contextualizados, como costumam ser os do Giorgio. Pena que talvez não tenham o alcance que deveriam ter (e não termos mais dessa qualidade por aí)…