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Natal em branco – por Orlando Fonseca

Dentre as alegorias e cores que envolvem o período natalino, o componente das festas com maior potencial de sensibilidade, para mim, é o repertório musical. Gosto de panetone nesta época, a combinação feérica das cores vermelho, verde e dourado, os presentes, os encontros, mas o embalo ou a paz produzidos pelas canções é algo que me toca profundamente.

Uma das mais belas melodias de Natal chama-se “White Christmas”, do compositor americano Irving Berlin, que em uma tradução sem muitas considerações seria “Natal Branco”. Naturalmente, algo que remete ao fato de, no hemisfério norte, a festa se dar no inverno, com abundância de neve. Na voz de Bing Crosby, a música remete às reminiscências infantis, algo típico do Natal, seja em solo americano, seja em terras tropicais. 

Traduzida para a temporada 2020, em meio à pandemia na qual estamos vivendo, ocorre-me que a letra em português deveria ser adaptada para: “Natal em branco”. A cor da bandeira do Isolamento controlado no Estado é apenas vermelha, sem a companhia do verde ou do dourado.

E as regras são claras: estão cancelados os festejos natalinos – ao menos os que são tradicionalmente promovidos pelas prefeituras e empresas, em praça pública. Os eventos da Natividade estarão reduzidos aos formatos virtuais, a que já nos acostumamos. Mas eu me pergunto: as alegorias e as alegrias natalinas poderiam ser omitidas apenas por um decreto governamental? Mais ainda: poderia se dar o caso de o Natal passar em branco?

Os tempos são outros, e me questiono se uma canção como a de Irving Berlin não seria mais possível. Ela apareceu no filme de mesmo nome, em 1954, uma comédia musical estrelada por Bing Crosby e Danny Kaye. Na trilha do filme, a canção natalina é interpretada por Crosby, tornando-se um dos maiores sucessos da carreira do cantor, cujo single é o mais vendido de todos os tempos, tendo superado a marca de 100 milhões de cópias em todo o mundo.

Como se trata de um dos standards da efeméride, outras versões já venderam mais de 150 milhões de cópias. Para o compositor, “White Christmas é a melhor canção já escrita”. Não vou discordar do autor, mas tenho dúvidas, mesmo ouvindo apenas o repertório natalino. Contudo, fico a imaginar como seria um filme de Natal, um drama vivido sob os rigores dos protocolos pandêmicos da Covid-19.

Seria difícil filmar o Noel de máscara, não a já conhecida pela tradição, mas um EPI recomendado pela OMS; álcool gel na chaminé para o Bom Velhinho passar nas luvas de silicone e nada de abraços ou apertos de mão. Não seria bom, nesta temporada de isolamento social, algo como “Esqueceram de mim”. Melhor seria: Lembraram de mim, mas não vieram.

O Milagre da Rua 34 seria tão somente a chegada antecipada de um lote de vacinas em um posto de saúde. Mas não sei se a refilmagem desses clássicos daria uma boa trilha sonora, melhor deixar para lá, na expectativa de que o feliz ano novo chegue logo com a imunização definitiva e a erradicação definitiva do coronavírus. 

Uma coisa é certa, não há como prosperar um Natal em branco, a despeito das regras oficiais, e não falo em aglomerações nas ruas, praças, comércio ou bares e restaurantes. Falo do ambiente de casa, para o qual convergem todas as lembranças da data.

Muita literatura e muito filme já foram feitos com este cenário. E nele cabe o calor humano, momentos alegres, a fantasia, e mais, remete ao lugar que origina a celebração, no qual a simplicidade configura o sentido maior de sua representação.

Não é difícil emular o ambiente modesto do estábulo e sua manjedoura. Não é difícil recuperar o sentido da dádiva divina, e fazer a felicidade, ainda que por instantes, de alguém imerso nas cores neutras desse tempo obscuro, e assim recuperar a magia, o milagre das cores natalinas.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Observação do editor: a imagem que ilustra esta crônica é uma reprodução da internet.

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