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JORNALISMO. Kiss foi um “divisor de águas”, falam profissionais que atuaram na cobertura da tragédia

Entrevista com os experientes repórteres Carlos Wagner e Humberto Trezzi

Atividade no primeiro ano da tragédia, em 27 de janeiro de 2014. Hoje, sem ação presencial, por conta da Covid (foto Arquivo/Sedufsm)

Da Assessoria de Imprensa da Sedufsm / Por Fritz R. Nunes

Para quem estava em Santa Maria naquele 27 de janeiro de 2013, é difícil relembrar sem sentir um nó na garganta. Durante todo aquele domingo, a partir da madrugada do incêndio, o que se via era um cenário de guerra, com sirenes de ambulância soando por toda a cidade, com a população desnorteada diante de um fato tão tragicamente inesperado. Os dias foram se passando e na medida em que avançavam, o quadro apresentado apontava para a irresponsabilidade dos donos da boate e dos músicos, mas também para a negligência do poder público municipal e do estadual (Corpo de Bombeiros).

E um dos trabalhos importantes que contribuiu para desnudar a cadeia de (ir)responsabilidades que levou à tragédia foi o dos profissionais de jornalismo. De uma forma geral, todos os jornalistas da cidade se esmeraram em realizar uma cobertura responsável e detalhada da tragédia. No entanto, dois experientes repórteres gaúchos, com anos de estrada na investigação jornalística, foram fundamentais na publicação de documentos que trouxeram para a opinião pública a certeza de que as causas do incêndio não se restringiam a quem acendeu o artefato luminoso na madrugada de 27 de janeiro ou aos donos da boate.

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A situação era bem mais complexa, com a casa noturna funcionando sem ter todos os documentos necessários, e com uma fiscalização, tanto da prefeitura como dos bombeiros, agindo, no mínimo, de forma negligente. Carlos Wagner, 60 anos de idade e quase 40 de profissão, um dos mais premiados repórteres do país, especializado em conflitos de terra, criminalidade em fronteiras, aportou durante meses em Santa Maria. Ele foi acompanhado de outro colega da redação de Zero Hora, com cerca de 50 anos de idade e quase 30 de profissão, Humberto Trezzi, também ele, um profissional bastante curtido em trabalhos investigativos – integra o GDI, Grupo de Jornalismo Investigativo da RBS-, vencedor de diversos prêmios jornalísticos.

Sentimento pessoal e profissional

Perguntado sobre qual o sentimento profissional e pessoal ao fazer a cobertura dos dias posteriores à tragédia de Santa Maria, Carlos Wagner responde que, para ele, o caso Kiss representou “um divisor de águas”, tendo em vista que, ao realizar o trabalho, percebeu que não entendia nada sobre questões como licenciamento e documentação de uma casa noturna e, do ponto de vista pessoal, porque se deu conta que, tinha filhos (as) que frequentavam boates, mas que nunca se apercebera do quão inseguros esses locais podiam ser.

Para Humberto Trezzi, o trabalho jornalístico que realizou sobre a tragédia de Santa Maria foi o mais impressionante de sua carreira, mesmo considerando, segundo ele mesmo frisa, que já havia estado, inclusive, realizando cobertura de guerras civis em ao menos três países diferentes.

Papel do jornalismo

Respondendo sobre a importância do jornalismo na cobertura do caso Kiss, Carlos Wagner afirma que foi fundamental, pois foram esses profissionais, com seus trabalhos, que conseguiram manter o assunto em constantes manchetes ao longo de três meses a fio. Mesmo depois que o tema arrefeceu, Wagner lembra que um outro jornalista, estabelecido aqui em Santa Maria, Luiz Roese, procurou abastecer as redações de novidade sobre o caso.

Humberto Trezzi também vê o papel do jornalismo como fundamental, pois, segundo ele,  foi essa constante investigação que mostrou a falta de responsabilidade das autoridades em relação ao funcionamento da boate, possibilitando a criação de uma consciência na sociedade para que fatos semelhantes possam ser evitados no futuro.

Responsabilidade dos agentes públicos

Os familiares de vítimas e sobreviventes da tragédia da Kiss, ao longo dos anos, a partir de 2013, sempre cobraram que, além dos empresários e músicos, que os agentes públicos apontados em inquérito policial também sentassem no banco dos réus. Contudo, afora alguns bombeiros, até hoje nenhum servidor municipal sofreu uma acusação direta, apesar de tudo que foi levantado, que aponta para a negligência da prefeitura. Esse entendimento do Ministério Público levou, em alguns momentos, a um forte embate com os familiares e a Associação dos Familiares (AVTSM).

Questionados sobre o motivo de agentes públicos não terem sido responsabilizados, Trezzi diz que “isso é Brasil”, e segue argumentando que é defensor de leis mais rápidas e duras em relação a esse tipo de crime. Já para Wagner, os grandes culpados são os dois donos da boate, pois “foram eles que fizeram todas as manobras para manter o negócio aberto. Se não tivesse acontecido a tragédia, até hoje a boate estaria funcionando”, critica.

Há algo que o jornalismo ainda possa fazer?

Na ótica de Carlos Wagner, “o maior tributo que os jornalistas devem fazer para os parentes das vítimas é continuar pressionando até que os quatro indiciados como responsáveis pela tragédia sentem no banco dos réus”. Humberto Trezzi segue na mesma linha, mas de forma objetiva: “É preciso cobrar, cobrar. Todos os anos…”

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