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Por Carlos Wagner: jornalismo investigativo sabe quem são os organizadores das festas clandestinas?

Quando a pandemia se instalou, eles viram “uma oportunidade de negócios”

As festas clandestinas cresceram durante a pandemia. E não é coisa de “chinelo”, crime de menor gravidade (foto Reprodução)

Pela maneira como a imprensa vem noticiando as festas clandestinas parece que elas são a soma da falta de consciência, principalmente dos jovens, do poder de contágio e letalidade da Covid-19 com a ausência de comprometimento com a saúde pública por parte dos organizadores. Parece. Mas não são. As festas clandestinas no país, em especial nos estados do Sul, vêm se profissionalizando nos últimos 20 anos. E tiveram um significativo impulso com a tragédia da Boate Kiss, em 2013, em Santa Maria (RS), quando um incêndio matou 242 pessoas e feriu outras 680, a maioria jovens estudantes universitários.

Uma das consequências da tragédia da Kiss foi o endurecimento, pelas autoridades, na concessão de licenças para festas públicas. No início, pequenos grupos de comerciantes e jovens da periferia das cidades grandes se reuniam e alugavam salões, bares e até pequenas propriedades rurais para fazer festas nos fins de semanas, principalmente com adolescentes. Os organizadores colocavam um DJ, seguranças e bebidas para vender. O sucesso do empreendimento acabou atraindo a atenção dos traficantes varejistas, que se associaram aos organizadores.

O sistema de funcionamento das festas clandestinas é simples e eficiente. A estrutura é montada na noite do evento e no raiar do dia seguinte ela some. O dono do lugar alugado nunca sabe quem são os locatários, pelo menos é o que dizem quando acontecem os rolos. Como eu sei sobre o assunto? Nos meus plantões na redação nos fins de semana era raro não deparar com uma lambança que ocorrera em uma dessas festas clandestinas.

Geralmente eram brigas generalizadas, casos de adolescentes em coma alcoólica e roubo de aparelhos celulares, entre outras confusões. Claro que tudo acabava em uma pequena matéria de “pé de página”. Mesmo depois que saí da redação, em outubro de 2014, continuei me interessando pelo assunto. Por quê? Pela sua relevância.

As festas clandestinas dos estados do Sul do Brasil não são páreo em termos de imagem para os bailes funk das favelas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Mas não deixam nada a desejar em termos de faturamento. Vejam bem, os organizadores ganham com: ingresso, venda da bebida, comida, drogas e outros serviços.

Quando a pandemia causada pela Covid-19 se instalou, os organizadores dessas festas viram uma oportunidade de negócios. Nos oito primeiros meses de 2020, os brigadianos, como são chamados os policiais militares no Rio Grande do Sul, fecharam 270 festas clandestinas na Região Metropolitana de Porto Alegre.

O dia que a pandemia acabar, as festas clandestinas vão continuar. E mais embaladas do que nunca, porque seus organizadores estão ganhando muito dinheiro com a emergência sanitária. Mais ainda: esse tipo de crime só entrará no radar da Polícia Civil no dia que acontecer uma tragédia. Até lá segue sendo “coisa de chinelo”, com é descrito o delito de menor gravidade.

Aqui é o seguinte. As festas clandestinas podem estar fora do radar da polícia. Mas não podem ficar fora do nosso radar. Por quê? Nós jornalistas só nos demos por conta de que muitas casas noturnas eram ratoeiras depois da tragédia da Boate Kiss. Mesmo assim levamos duas semanas para entender o emaranhado de leis, regulamentos e portarias municipais, estaduais e federais que tratam do assunto.

Os organizadores das festas clandestinas são criminosos. A atividade deles é uma tragédia anunciada. Os repórteres que fazem a cobertura do dia a dia das redações não têm como se aprofundar na questão, por vários motivos, vou citar dois: cumprem três ou mais pautas diárias e fazem texto, áudio e vídeo. E o assunto exige uma investigação aprofundada, porque ainda é desconhecido. Tanto que os noticiários apenas mencionam que as festas são clandestinas, sem entrar em detalhes.

Esclarecer quem está por trás desses eventos e como a coisa funciona é um trabalho de fôlego, que exige investigação jornalística, porque o repórter precisará reunir todas as peças que fazem parte desse tabuleiro para entender a situação. Ou seja: o jornal terá de produzir conhecimento. Essa é a situação ideal. Mas, como todos sabemos, mesmo entre as grandes empresas de comunicação em atividade no Brasil, poucas têm dinheiro para investir no jornalismo investigativo, que é caro, demorado e nem sempre traz os resultados esperados. Mas é necessário para esclarecer o leitor. Qual é a saída?

Os policiais que trabalham no plantão das delegacias conhecem essa história. Não todos os detalhes. Mas o suficiente para nos dar segurança para escrever que as festas clandestinas não caem do céu. Elas são feitas por grupos organizados que ganham muito dinheiro com esses eventos. Mais ainda: os organizadores não estão lá na hora que a polícia chega para acabar com a festa. Precisamos mostrar ao nosso leitor que não sabemos tudo. Mas o suficiente para dizer que se trata de um crime. A nossa profissão de repórter vive dias estranhos. Muitas portas são fechadas diariamente com as demissões em massa das redações. Mas também muitas portas são abertas. Como a de formar uma pequena empresa, ou cooperativa, para vender aos grandes jornais matérias investigativas. Foi assim que os jornalistas demitidos durante a ditadura militar (1964 a 1985) sobreviveram, organizando a Imprensa Alternativa. Por que não?

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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