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Mitos brasileiros – Por Orlando Fonseca

Mula sem cabeça é a tal. Mas tem a Salamanca, a Boiúna, Caipora, Saci...

Quando a Mula-sem-cabeça chegou à presidência da República, deu no rebuliço que podia dar. Como chegou lá não me perguntem como, mas o certo é que, há muitos e muitos anos, na Antiga República, ela chegou, pela via democrática, que como todos sabem, é uma estrada generosa, com muitas pistas.

É bem provável que a admiração pelas Mulas-sem-cabeça seja muito maior do que já imaginamos, desde a pesquisa de Câmara Cascudo, sobre mitos e lendas nacionais. Até mesmo aqui, em nosso estado, no qual João Simões Lopes Neto recolheu causos e havidos fantásticos, a Mula-sem-cabeça ganhou disparada da Salamanca do Jarau, do Tatu e da Boiúna.

Macunaíma também conviveu com muitas dessas personagens da infância de nossa História, ao menos na imaginação de Mário de Andrade. Não conseguiu chegar à presidência por pouco. Sendo um herói sem caráter, preferiu se deitar na rede, onde se encontra até hoje, curtindo sua preguiça. Talvez, ainda no final dos anos 20, do século passado, caráter fosse um requisito importante para o cargo da nossa claudicante República.

Vai daí que um gaúcho, uns dois anos depois, mandou seus capangas amarrar os cavalos no obelisco da antiga Capital Federal, escrevendo uma outra Constituição, mais a preceito. Vai saber.  Mas, porém, todavia, entretanto, a Mula-sem-cabeça, uma vez chegada, passou a viver solta, aprontando das suas pelas cercanias do Palácio.

Como é sabido dos brasileiros, a Mula em questão não apenas não tem cabeça, mas solta fogo pelas ventas. E já que não tinha muito o que fazer em seu gabinete, ou na verdade não tinha cabeça para saber o que fazer, passou a dar uma circulada pelo cerrado e pelo pantanal, onde algumas faíscas de suas ventas presidenciais se espalharam pela vegetação seca.

Há quem diga mesmo que até a Amazônia, com sua sabida umidade, foi vista botando fumaça por todo lado, que até mesmo os satélites da NASA (que ainda nem tinham sido inventados, vejam só) conseguiram captar. Vocês sabem, não é: – Onde há fumaça há fogo!

Ou seja, o país viveu um momento histórico no folclore brasileiro, coisa que nem o Gilberto Freire foi capaz de prever: uma Mula-sem-cabeça rompeu com todos os preconceitos – e por que não dizer, preceitos – e conseguiu galgar, a galope, diga-se, os mais altos postos republicanos.

Se fosse o caso de se escolher entre os mitos nacionais, a patuleia, o populacho, o povão teria à disposição uma pletora de entes fantásticos para dar sua preferência no voto. Sabemos todos, pelos registros históricos, que a rigor a boca de urna no Brasil costuma revelar coisas sem pé, nem cabeça.

Se fosse o caso de escolher a falta de um ou de outra, poderia eleger o Saci, ao qual resta ao menos um pé. O grande problema na polaridade ideológica, que já se estabelecia naquela época no Brasil, seria decidir se o pé é esquerdo ou direito. Contudo, entre sem cabeça ou sem pé, amigo leitor, seria preferível esse último, fosse a lateralidade que fosse, mas há controvérsias, tem quem prefira um sem-cabeça a um sem-pé.

Teria ainda o Caipora, com seus pés virados para trás, muito ao gosto de conservadores: ou seja, a criatura anda para a frente dando a impressão de estar dando ré. Nosso conterrâneo, Raul Bopp, nascido ali na Vila Pinhal, deu vida a um outro mito ao qual denominou Cobra Norato; se quisesse, teria à disposição a única narrativa genuinamente gaúcha, do Negrinho do Pastoreio. Mas, se estivesse na disputa pela presidência, o debate eleitoral seria muito complicado, ao trazer à tona a discussão de raça, etnia, ações afirmativas e cotas. E Cobra fica muito bem, quando se trata das disputas que ocorrem no campo político nacional.   

Uma mula sem cabeça é capaz de tudo, o que demonstra a sua capacidade heroica e sua identidade mítica. Só isso explica, por exemplo, o que aconteceu no país naqueles anos: falta de vacina, desvalorização do dinheiro nacional, flexibilização no porte de armas, mudanças na gestão da educação.

Uma coisa, no entanto, é de se ressaltar: o poder de liderança que uma Mula-sem-cabeça tem sobre o gado. Com medo de Sapo-barbudo, uma nação é capaz de fazer qualquer coisa.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Crédito da fotoSem autoria determinada, é uma reprodução da internet. Foi copiada deste link: AQUI

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4 Comentários

  1. Não é uma Brastemp. Ator principal é um Fabio Assunção do B. Filha dele tem uma atuação robótica, lembra o piá Anakin Skywalker no primeiro Star Wars. Parece que todo o elenco atuou com torcicolo. Ideologia ainda está lá, o rico malvado, perigo ecológico, homofobia, ganancia, etc., mas não compromete. Parece uma mistura de ‘American Gods’ de Neil Gaiman com ‘Grimm’, apesar do realismo fantástico não ser de hoje (vide Saramandaia de Dias Gomes). Série da Netflix, ‘Cidade Invisivel’ é diferente do padrão tupiniquim, bem assistível. Tem ganchos para a segunda temporada, aparece até um muiraquitã, o trabalho de pesquisa foi bem feito.

  2. Voltando ao objeto. Antigamente havia um maior contato da população com o folclore nacional. Monteiro Lobato era um grande difusor. Ziraldo tinha a ‘Turma do Perere’.
    Cinematografia americana adotou a estrutura de três atos do teatro. Vem do trabalho de Elio Donato, gramatico do século IV. Nos EUA popularizou-se através dos escritos de um sujeito chamado Syd Field. As vezes acrescentam uma pitada de Asia (onde quatro atos são mais utilizados com uma reviravolta no terceiro) para fazer bilheteria.
    Em Terra Brasilis a esquerda dominou o áudio visual. Resultado são narrativas superficiais para propagar a ideologia. As vezes um existencialismo tosco de almanaque. Conjunto feito a facão.

  3. Deixando de lado o que sai do nada e vai para lugar nenhum, coisas estranhas acontecem lá fora. O que se vive hoje não vai ter conserto em décadas. Biden quer um plano de 1.9 trilhão de dólares para estimular a economia. Numero de vendedor. Quer dois trilhões de dólares para investir na infraestrutura. Dobrar o salario minimo no canetaço. Vai rodar a maquininha. Por lá falam abertamente em grande aumento na inflação. Há um vídeo de Putin na web, ‘tira sarro’ dos americanos. Obama prometeu acabar com a prisão de Guantánamo. Desistiu? Segundo o russo não. No primeiro dia de mandato o presidente recebe o ‘sujeito da mala’ no gabinete. Este informa o presidente americano do que ‘vai rolar’ e o que ‘não vai rolar’.
    Enquanto isto no México, governo de esquerda, o numero de mortos ultrapassou o da India. Se tivesse a população brasileira teria algo como 310 mil mortos. Algo de certa forma previsível, o Estado perdeu grandes nacos de território para o narcotráfico.

  4. Obvio que Macunaíma chegou na PR. Personagem foi representado por Grande Otelo no cinema, grande ator brasileiro. Viveu grandes tragédias. Mãe alcoolatra. Esposa matou o filho e suicidou-se, por conta disto ele chegou a atuar bêbado.
    Macunaíma também tem seu gado, mas o rebanho encolhe a olhos vistos. Talvez abigeato, mas ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão.

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