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Protestos no Paraguai: a imprensa esqueceu que lá vivem 1,5 milhão de brasileiros – Por Carlos Wagner

Quatro empreendimentos (legais e/ou ilegais) atraíram milhares de brasileiros

Os paraguaios foram para as ruas protestar contra a omissão do governo daquele país no caso do novo coronavírus (Foto Reprodução)

A imprensa do Brasil vem tratado de maneira burocrática a luta dos paraguaios contra a política caótica do governo do presidente Mario Abdo Benitez no caso da pandemia causada pela Covid-19. Em nenhum outro país do mundo os brasileiros têm tantos interesses econômicos e políticos como no Paraguai.

Isso deve ser lembrado aos nossos leitores quando se noticia crises no país vizinho. É sobre isso que vou conversar com os meus colegas repórteres e leitores. Vamos aos fatos.

Mas antes uma explicação que julgo necessária. Conheço o Paraguai como a palma da minha mão. Desde 1984 até os dias atuais, de dois em dois anos ando pelas estradas paraguaias em busca de histórias para escrever. O maior medo que os nacionalistas paraguaios têm é que o Brasil tente fazer com o país o que fez com a Bolívia em 1903.

Na ocasião, o atual estado do Acre era território boliviano onde viviam centenas de famílias brasileiras de seringueiros. O Brasil acabou anexando o território na mão grande – a história está disponível na internet. Hoje existem, no Paraguai, departamentos (estados) em que a maioria da população é brasileira, como é o caso do Alto Paraná. Essa preocupação dos nacionalistas é conversa de boteco.

Voltamos a contar a história. O que existe na realidade é que quatro empreendimentos, dois oficiais e dois ilegais, acabaram levando milhares de imigrantes brasileiros para o Paraguai. Vamos aos empreendimentos legais.

O primeiro foi a construção, pelo Brasil e pelo Paraguai, da Usina Hidroelétrica de Itaipu, uma das maiores do mundo. A obra se estendeu de 1975 a 1982 e atraiu trabalhadores de todos os cantos dos territórios brasileiro e paraguaio para a região de Foz do Iguaçu (PR) e Ciudad del Este (Paraguai), na época chamada Puerto Stroessner, em homenagem ao então ditador paraguaio, o general Alfredo Stroessner (1954-1989). Terminada a obra, centenas de operários ficaram morando na região, nos dois lados da fronteira.

O segundo empreendimento foi final da década de 70, quando Stroessner resolveu povoar vastas regiões do país com agricultores brasileiros. Esses agricultores ficaram conhecidos como brasiguaios. Muitos deles morreram de doenças e em conflitos agrários. Os que sobreviveram se tornaram a classe média rural paraguaia e colocaram o país na galeria dos grandes produtores de grãos e carnes da América do Sul.

O sucesso dos empreendimentos ilegais também é significativo. O primeiro deles nasceu na época de Stroessner. As Forças Armadas do Paraguai, que garantiam o governo do ditador, tinham os seus negócios ilegais, como são descritos no livro Dossier Paraguay – Los Dueños de Grandes Fortunas, de Anibal Miranda, um grande pensador que conheci nos anos 80 em uma cidadezinha da região metropolitana de Assunção.

Um dos ramos dos negócios ilegais é o contrabando de mercadorias para o Brasil. Começou com cigarros, uísques e calças jeans dos Estados Unidos e evoluiu para os produtos, a maioria bugigangas e equipamentos eletrônicos, fabricados nos países da Ásia.

Na última década, um novo ramo de contrabando surgiu, cresceu e se transformou em dos mais lucrativos: a fabricação de cigarros piratas. Os depósitos, as fábricas e as lojinhas em cidades paraguaias como Ciudad del Este e Juan Pedro Caballero, na fronteira com o Brasil, geram centenas de empregos para brasileiros e paraguaios.

O segundo empreendimento ilegal floresceu em 2001, quando o traficante carioca Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, se refugiou na cidade paraguaia de Capitán Bado, dividida por uma avenida do município de Coronel Sapucaia, no oeste do Mato Grosso do Sul.

Com apenas um celular e uma lista de contatos dos maiores traficantes e varejistas de droga do Rio de Janeiro, Beira-Mar iniciou um empreendimento que cresceu e transformou o Paraguai em entreposto da cocaína vinda da Colômbia, do Peru e da Bolívia e vendida para os traficantes no Brasil.

Hoje essa droga também é exportada pelos aeroportos e portos brasileiros para os Estados Unidos e a Europa. Beira-Mar levou para o Paraguai o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e logo atrás foi o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo. Hoje, o CV e o PCC estão envolvidos com o envio de drogas, armas, munição e explosivos para as grandes quadrilhas no Brasil.

A atual população do Paraguai é de 7,2 milhões de habitantes. Destes, pelo menos 1,5 milhão são brasileiros e seus descendentes, muitos deles envolvidos na política e nos negócios legais e ilegais do Paraguai.

O sistema de saúde pública do país é pobre e desorganizado e se divide em dois: um é do Ministério da Saúde, e o outro é para quem trabalha e tem carteira assinada e desconta um percentual do salário mensal. A maioria dos brasiguaios prefere viajar até uma cidade na fronteira e utilizar o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro. Os mais abastados têm inclusive planos de saúde no Brasil.

Qual é o papel dos brasileiros que lá vivem nos protestos de rua pedindo a cabeça do presidente Benitez? Não sabemos. O que sabemos ao certo é que se houver uma ação de impeachment contra o presidente do Paraguai quem vai decidir o seu destino será Horácio Cartes, empresário e ex-presidente do país (2013 a 2018). É ele quem comanda a maioria dos parlamentares do maior partido do país, o Colorado, o mesmo de Stroessner (morto em 2006, em Brasília).

Cartes é o maior contrabandista de cigarros para o Brasil. E também é amigo e protetor do Dario Messer, o doleiro dos doleiros, preso na Operação Lava Jato pelo juiz federal do Rio de Janeiro Marcelo Bretas e condenado a 18 anos e 9 meses de cadeia.

Sou um velho repórter que aprendeu que os leitores valorizam o que publicamos sempre que se coloca uma dica no meio da matéria de que o assunto que tratamos não é apenas mais um. Mas tem ramificações em vários setores.

Claro que não podemos anexar a cada notícia um tratado de história. Mas podemos colocar uma palavra, no máximo uma frase, que mostre ao leitor o tamanho do “rolo”. Isso exige que o repórter tenha um vasto conhecimento do assunto.

Logo que comecei na profissão, em 1979, para se ter um conhecimento razoável sobre alguma coisa era preciso ler muitos livros e esvaziar muitas garrafas de cerveja nas conversas entre repórteres nos botecos. Hoje basta apertar um botão para ter acesso às informações básicas sobre qualquer assunto. As fronteiras entre os países vizinhos existem no papel. Na prática, a conversa é outra. As famílias vão se misturando. É por aí, colegas.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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