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Governo desmontou a PF e usa os escombros para servir à família Bolsonaro – por Carlos Wagner

“Como aconteceu o desmonte? E o tamanho da responsabilidade da imprensa”

Só falta o Presidente falar: “a minha Polícia Federal”. Ah, dos quadros faz parte seu filho, o deputado Eduardo (Foto Reprodução)

Sendo justo para com o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). Ele não começou o desmonte da Polícia Federal (PF). O seu governo apenas deu o tiro de misericórdia na instituição fundada em 1944, que foi um braço poderoso do aparelho de repressão política e cultural montado pela ditadura militar que governou o país de 1964 a 1985.

E que, na redemocratização, passou por uma transformação de qualificação e profissionalização dos seus quadros que deram à PF um lugar de destaque entre as polícias no mundo. Então, como aconteceu o desmonte? Qual é a consequência para o cotidiano dos brasileiros? E qual é o tamanho da responsabilidade da imprensa? É sobre isso que vamos conversar.

O desmonte da Polícia Federal começou na Operação Lava Jato. Na época, os heróis da imprensa eram o então juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal, em Curitiba (PR), e o procurador da República Deltan Dallagnol. O grande alvo da Lava Jato era colocar na cadeia o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), funcionários da Petrobras e executivos das grandes empreiteiras, como a Odebrecht e a OAS.

Os agentes da PF que faziam parte da força-tarefa eram tratados pela imprensa como figuras de decoração, tipo o “Japonês da Federal”, apelido colocado no agente Newton Ishi, que esteve presente na maioria das prisões. E a delegada Érika Mialik Marena, que no filme Polícia Federal – A lei é para todos era representada pela personagem Biá, uma policial linha-dura e comprometida com os fatos da investigação.

Uma vez ou outra, a delegada vazava para a imprensa trocas de desaforos entre os policiais federais e os procuradores da Lava Jato. “Disputa de beleza”, era a nossa interpretação. Na ocasião, existia entre os repórteres que lidavam com a cobertura policial uma discussão de que se os federais da força-tarefa soubessem de alguma “forçação de barra” entre os procuradores para “ajeitar” uma prova, eles exerceriam o poder de polícia e não concordariam.

Os federais não só concordaram com a “forçação de barra” como ajudaram. A situação veio a público na Operação Spoofing, quando a PF prendeu quatro hackers que haviam invadido os celulares dos procuradores da Lava Jato e do juiz Moro. E pegaram centenas de mensagens trocadas entre eles através do aplicativo Telegram – há centenas de matérias disponíveis na internet.

O segundo tombo no prestígio da PF foi dado pelo delegado Maurício Morcardi Grillo, na Operação Carne Fraca, em 2017. Foi cinematográfica a operação: 1,1 mil agentes cumpriram 309 mandados (prisão preventiva, temporária, condução coercitiva e busca e apreensão) em 30 empresas ligadas à manufatura de carnes para o mercado interno e externo.

As acusações eram de adulteração do produto com o uso de substâncias químicas, troca de etiquetas de validade, entre outras. No final foi provado que a operação tinha sido uma “montanha que pariu um rato”. Muito barulho, muita correria e no final um resultado pífio. Mas que conseguiu, claro, espalhar pânico no mercado nacional e internacional de carnes.

O terceiro tombo foi dado pela delegada Marena, depois que deixou a Lava Jato. Ela coordenou, em 2017, a Operação Ouvidos Moucos, que acusou o então reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier, de ter desviado R$ 80 milhões da instituição. Ele foi preso, e quando o liberam, se suicidou.

Uma equipe de jornalistas da Veja examinou as 817 páginas do inquérito da delegada e não encontrou nenhum fato relevante provando o volume desviado e muito menos a participação do reitor. Sem provas, a PF encerrou o inquérito. Até hoje (22/04/21), e durante muitos anos, essa investigação da delegada Marena será citada como exemplo de um trabalho policial precário que custou a vida do reitor Cancellier.

Ao assumir o governo em 2019, Bolsonaro empossou como seu ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, que abandonara a carreira de magistrado. Ele havia condenado à prisão – a pena foi confirmada na segunda instância – o ex-presidente Lula por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex de Guarujá, cidade do litoral de São Paulo.

Lula era o principal adversário de Bolsonaro nas eleições presidenciais. Moro levou para o ministério vários agentes da PF que haviam trabalhado na força-tarefa da Lava Jato. Entre eles, a delegada Marena, que assumiu um cargo na Secretaria Nacional de Justiça. Em abril de 2020, Moro rompeu com Bolsonaro e pediu demissão.

No centro da briga entre os dois estava a PF. Por quê? Moro não queria a intromissão do presidente na Federal. Na avaliação do presidente, Moro já tinha servido aos seus interesses quando tirou do caminho o seu maior adversário político, Lula. A família Bolsonaro tem os “seus dentro da Federal”. Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e deputado federal por São Paulo, é escrivão da PF. Portanto, sabe quem é quem na instituição.

Hoje, dentro da Polícia Federal, ser amigo de Eduardo Bolsonaro é a maior credencial para ocupar postos importantes na instituição. Um exemplo: o empresário e suplente de senador Paulo Marinho rompeu politicamente com os Bolsonaro.

Segundo ele, Flávio, outro filho do presidente que foi deputado estadual e atualmente é senador pelo Rio de Janeiro, foi avisado por um delegado da PF sobre a realização da Operação Furna da Onça – que denunciou vários deputados estaduais do Rio por lavagem de dinheiro. Entre os denunciados estaria o então chefe do gabinete de Flávio, Fabrício Queiroz, e a sua filha Nathalia. Os dois foram demitidos antes da operação – há matérias na internet.

Bolsonaro ocupa o cargo de presidente há 27 meses e algumas semanas. Nesse período, a PF já teve três diretores-gerais. O quarto, o delegado Paulo Maiurino, assumiu recentemente e já mostrou serviço. Demitiu o seu colega Alexandre Saraiva, então superintendente da PF do Amazonas. Saraiva foi afastado logo após ter feito uma queixa-crime ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, por apoiar madeireiros ilegais que estão derrubando a Floresta Amazônica.

Aqui é o seguinte, meus colegas. É do jogo os delegados e os agentes das polícias em qualquer país democrático do mundo formarem os seus grupos políticos dentro da repartição. O que existe hoje na PF é que há um desequilíbrio político entre esses grupos, causado por um somatório de fatores, alguns dos quais mencionei, como a força-tarefa da Lava Jato.

E graças a isso o grupo de Bolsonaro cresceu e está dando as cartas na Polícia Federal. É importante restabelecer o equilíbrio político entre os grupos dentro da PF. Como se faz isso. Primeiro, nós jornalistas precisamos saber o que está acontecendo entre as quatro paredes da PF. Por tudo que tenho lido, ouvido e visto na imprensa, nós não sabemos.

Antes de fechar a conversa. O “Japonês da Federal”, agente Newton Ishi, foi condenado em uma ação que respondia por contrabando. E Biá, a personagem do filme Polícia Federal – A lei é para todos, era só uma ficção inspirada no modo de agir da delegada Érika Mialik Marena.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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