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Nada será como antes. O 1° de agosto se avizinha. O tarifaço de Trump é inevitável! – por José Renato Ferraz da Silveira

“Não há dúvida de que o tarifaço de (Donald) Trump não tem lógica econômica”

Quando o 1° de agosto chegar, o Brasil deverá estar preparado para combater as consequências nefastas da sobretaxa de 50% impostas pelos Estados Unidos ao Brasil.

Sabe-se que, pelo menos, 30 medidas compõem um plano de contingência. Dentre as medidas, estão previstas linhas de crédito para o socorro de determinados setores, além de compras governamentais de produtos que não puderem ser imediatamente redirecionados para outros mercados internacionais. Há, também, uma proposta de um fundo privado temporário para facilitar o acesso a crédito para empresas em setores afetados pelo tarifaço e, que porventura, estejam fora do radar da equipe econômica. 

De qualquer modo, será difícil calcular o tamanho do estrago previsto, porque, além dos efeitos diretos da tarifação, que são mais fáceis de medir em números, haverá impactos em toda cadeia de fornecimento de cada negócio.

Muito embora, apesar da oposição alegar que o governo não está negociando ou buscando soluções para o tarifaço. o governo Lula (PT) agiu com presteza.

Houve a carta de 16 de maio (antes do anúncio da sobretaxa de 50%, feito pelo presidente americano Donald Trump). Neste documento, o governo enviou uma minuta confidencial de proposta contendo áreas de negociação nas quais se poderia explorar mais a fundo soluções mutuamente acordadas. Nenhuma resposta!

E a carta enviada no dia 15 de julho. O documento cobrou retorno da primeira carta e manifestou indignação com o anúncio, feito em 9 de julho, da imposição de tarifas de importação de 50% sobre todos os produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos, a partir de 1° de agosto: “O Brasil permanece pronto para dialogar com as autoridades americanas e negociar uma solução mutuamente aceitável sobre os aspectos comerciais da agenda bilateral, com o objetivo de preservar e aprofundar o relacionamento histórico entre os dois países e mitigar os impactos negativos de elevação de tarifas em nosso comércio bilateral”.

Nenhum retorno!

Os canais de negociações entre os dois governos seguiram fechados e nós sabemos os motivos intervencionistas e intimidatórios dos Estados Unidos.

Vale destacar que o Brasil acumula com os Estados Unidos grandes déficits comerciais em bens e serviços, que somam, nos últimos 15 anos, quase US$ 410 bilhões, segundo dados do governo dos Estados Unidos.

Nesse sentido, não há dúvida de que o tarifaço de Trump não tem lógica econômica. “Obviamente não é uma negociação com racionalidade econômica nem comercial” (Beto Vasques).

O empresariado brasileiro chama essa tática do presidente dos EUA, Donald Trump na guerra comercial de “coerção tarifária”. O republicano impõe uma sobretaxa alta, sem lógica técnica, para depois fechar acordos que, de outra forma, nunca seriam alcançados. Os acordos bilaterais firmados pelos Estados Unidos deixam claro que o governo americano tem recorrido à ameaça de tarifas unilaterais elevadas como forma de pressionar países a firmar acordos em condições assimétricas, além de uma forte imposição de normas regulatórias.

O roteiro é envio de cartas notificando tarifas unilaterais, curto prazo para negociação e exigências regulatórias e comerciais profundas em troca de alívio tarifário.

Essa abordagem ficou evidenciada nas negociações acertadas com Indonésia, Japão, Tailândia e União Europeia. O caso japonês é ilustrativo. O Japão aceitou abrir seu mercado para carros e arroz americanos, entre outros produtos, e investirá mais US$ 500 bi nos Estados Unidos.

Outro exemplo, Estados Unidos e a União Europeia anunciaram neste domingo (27) um acordo comercial que impõe tarifas de 15% sobre a maioria dos produtos do bloco, mesma taxa do acordo que o presidente Donald Trump fechou com o Japão na semana passada.

Segundo o presidente dos EUA, a UE gastará US$ 750 bilhões adicionais em produtos do setor de energia dos EUA, investirá US$ 600 bilhões no país e comprará “uma enorme quantidade” de equipamentos militares americanos, no valor de “centenas de bilhões de dólares”, como parte do acordo.

Por fim, em relação ao Brasil, “os Estados Unidos acreditam que o governo brasileiro não se engajou seriamente nas negociações sobre o tarifaço do presidente Donald Trump e que não houve nenhuma oferta significativa para um acordo por parte do Brasil”, afirmou uma autoridade da Casa Branca. Balela. As propostas brasileiras não agradaram e o governo brasileiro não fará concessões relativas à parte política da carta em que o presidente justifica as tarifas. O presidente americano disse que vai aplicá-las, em parte, devido “a caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O que estamos presenciando é que o Brasil não abrirá mão da sua soberania e não cederá a chantagem e extorsões. Soberania é inegociável. De fato, “quando a soberania de uma nação está sendo ameaçada, não está em jogo apenas a posição de um país. Mas o que está em jogo é uma ordem mundial que seja democrática e que respeite o direito internacional”.

No próximo mês, os olhos do mundo estarão voltados ao Brasil.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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