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Liberdade, liberdade – por Orlando Fonseca   

Uma é a natural, vivida na natureza, outra é na vida urbana: o cronista explica

O Hino à Proclamação da República já trazia uma repetição que, no âmbito dos recursos poéticos, poderia significar tão somente uma reiteração, sem maiores implicações semânticas. No correr da história republicana, no entanto, algo profético se pode depreender dessa justaposição.

Aquele vocativo, na letra do hino, era um apelo ao sentido único que, até então, o termo apresentava; agora, já soa como uma espécie de lamentação, ou de indício de ambiguidade na sua abordagem, dependendo de onde vem a sua defesa. Como a dizer, parodiando a expressão: Liberdade, liberdade, negócios a parte.

No Brasil, assim como nas democracias ao redor do planeta, o conceito de liberdade tem se afastado daquele antigo princípio que os iluministas trouxeram à baila, no século XVIII. A revolução liberal transcorreu ao longo de uma mudança social dos regimes monárquicos, e com as transformações havidas com a revolução industrial; tornou-se aguda a relação entre burgueses endinheirados e o proletariado.

Já ao final do século passado (depois do Consenso de Washington, 1989), reativou-se o antigo conceito, ao que os estudiosos acrescentaram um sufixo modernizante: o “neoliberalismo”. Entre mazelas e virtudes, creio que estamos nos encaminhando para um outro patamar destas querelas todas entre capital e trabalho. Com esta crise no mundo dos conceitos, e com o advento da internet, a noção de liberdade foi-se desvirtuando para abarcar a terra de ninguém em que se transformaram as redes sociais.

Vai daí que a mais afetada é a liberdade de expressão. Com a decisão do ministro Luiz Fux, no recente processo contra o ex-presidente Bolsonaro, torna-se patente essa flutuação semântica, mesmo em se tratando de decisão no âmbito do STF. Como tenho repetido por aqui, para mim, o ponto de corte sobre esta questão é o estado democrático de direito, como vou expor na sequência.

O voto referido aconteceu na Primeira Turma do STF, quanto às medidas cautelares impostas a Jair Bolsonaro. O placar de 4 x 1 veio com a divergência de Luiz Fux, contra a decisão, em cuja explanação mostrou uma mudança de posição, considerando um outro caso de prisão e entrevista de ex-presidente.

Há sete anos, Fux adotou entendimento oposto sobre os limites da liberdade de imprensa e de expressão ao julgar pedidos envolvendo o presidente Lula da Silva. Trata-se de uma guinada no discurso do magistrado sobre direitos fundamentais assegurados pela Constituição.

Em 2018, atendendo a um pedido do Partido Novo, proibiu uma entrevista já autorizada pelo também ministro Lewandowski. Segundo suas palavras: “a liberdade de imprensa é um valor que deve ser relativizado, e não pode ser alçado a um patamar absoluto incompatível com a multiplicidade de vetores fundamentais estabelecidos na Constituição”.

A comparação com o caso de Lula seria indevida, pois não fora preso por algum deslize de expressão, mas por implicações enjambradas por Moro no processo da Lava Jato, anulado depois por razões que todos conhecem. O que acontece com Bolsonaro é que as restrições havidas com a decisão de Alexandre de Moraes se referem a manifestações, que estendem a acusação inicial de tentativa de golpe, principalmente por falar muito (eu diria, demais).

Então, uma vez que o que está em discussão é o estado democrático, e que as sanções se referem ao atentado contra este, nada mais legítimo do que suspender a liberdade de manifestação do indiciado – mesmo que provisoriamente – em liminar, para que se evitem estragos maiores.

Liberdade, de um modo geral, na vida em sociedade, é um mito. Uma coisa é a liberdade natural, vivida na natureza, outra é a liberdade na vida urbana, em que as regras de convivência precisam ser respeitadas. É o preço que se paga para viver em um lugar partilhado, para o bem de todos. Quando se trata do estado democrático, o ponto de corte da liberdade de expressão deve ser o que preserva a sua higidez; qualquer atentado deve ser rechaçado de pronto.

Não é necessário que um golpe seja efetivamente desferido, como diz a lei, basta a tentativa. Os movimentos fascistas pelo mundo estão abusando dos dispositivos democráticos, que lhes concedem liberdade, para vender aos descuidados a ideia de uma sociedade “melhor”, com mecanismos de ditadura (vide canetaços de alguns líderes mundiais).

De modo que, no meu entendimento, para o bem da República, a noção de liberdade se mantém tão igual quanto à que levou o poeta Medeiros e Albuquerque a fazer uma reiteração na letra do Hino, em 1890. A única opção de suprimi-la, no devido processo legal, é o atentado ao espírito democrático que ainda vige em nosso país. Caso contrário, nem discutir liberdade estará liberado.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.

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25 Comentários

  1. Resumo da opera III. Bonus demografico já está indo. Divida publica estourando. Previdencia indo para o saco. Como as coisas no Brasil tem que cairem de podre, gerarem crises que rendem beiradas, qual é ponto sem volta? Daqui para a frente é só para tras?

  2. Resumo da opera II. Politica não esta resolvendo nada, virou marketagem. Não significa que temos que acabar com a politica (nota de rodapé para os que tem uma marca de sorvete tatuada na testa). Teriamos que ‘consertar’ a politica. E o SUS. E as universidades. E tantas outras coisas. Nada disto está no horizonte.

  3. Resumo da opera. Brasil esta como o trairão que vai para a beirada do açude no inverno para aproveitar a agua mais quente. ‘Loco’ para levar um costado de faca na cabeça. Brasil é dependente das commodities. Agronegocio. Minério. Na Africa já se fala numa zona da livre comercio. Abriu uma mina de ferro que vai prejudicar o setor de mineração no pais. https://www.youtube.com/watch?v=YQr2TtvzQ-M

  4. Trago verdades. Planejamento de estado de sitio ocorreu. Planejamento de assassinatos por aloprados ocorreu. Inviabilizados por falta de adesão das FFAA. Chegaram no limiar. Atos preparatórios não são punidos. Ingenuidade foi as ‘quatro linhas’. Se fiaram de que estavam protegidos pelas regras do ‘Estado Democratico de Direito’. Não esperavam que os ‘garantidores do sistema’ iriam distorcer as regras para prejudica-los. O que foi ‘justificado’ como ‘circunstancias extraordinarias necessitam medidas extraordinarias’ (que a memoria seletiva de alguns esqueceu). Quebraram as regras do sistema, sem necessidade, para ‘proteger o sistema’. Virou uma campanha de aniquilação, sem juizo de valor, para um segmento politico. ‘Derrotamos o cavalismo’. ‘Perdeu mané’. Pergunta é qual o proximo segmento politico a ‘ir para guilhotina’.

  5. ‘[…] é o atentado ao espírito democrático que ainda vige em nosso país.’ Kuakuakuakuakuakuakua! Diz a criatura que acha que Cavalão esta falando demais! Kuakuakuakuakuakuakuakua!

  6. ‘[…] para o bem da República,[…]’. Que não existe, aqui é pais do patrimonialismo. Não adianta citar a teoria e afirmar que ‘tudo esta funcionando como deveria’ (o que alias é costume dos/das causidicos(as)).

  7. ‘ Os movimentos fascistas pelo mundo estão abusando dos dispositivos democráticos, que lhes concedem liberdade, para vender aos descuidados a ideia de uma sociedade “melhor”, com mecanismos de ditadura (vide canetaços de alguns líderes mundiais).’ Fascista é quem gosta do Estado intervindo na economia.

  8. Semana passada um deputado fez uma provocação. Acampou na Praça dos Tres Poderes. Protesto. Arrumou-se uma ‘provocação juridica’ do PGR. Xandão mandou tirar os deputados do local, inclusive um que não estava lá, estava no RJ. Citou o Regimento Interno do Tribunal. Meio da base do ‘pode haver um crime’. Se um deputado não pode protestar em BSB o que sobra para o afegão médio? Como isto é visto lá fora?

  9. ‘Quando se trata do estado democrático, o ponto de corte da liberdade de expressão deve ser o que preserva a sua higidez; qualquer atentado deve ser rechaçado de pronto.’ E quem define o que ameaça a higidez? O Xandão? E como fica a critica legitima?

  10. ‘Liberdade, de um modo geral, na vida em sociedade, é um mito. Uma coisa é a liberdade natural, vivida na natureza,[…]’. Se for citar Hobbes é bom citar o autor.

  11. ‘[…] nada mais legítimo do que suspender a liberdade de manifestação do indiciado – mesmo que provisoriamente – em liminar, para que se evitem estragos maiores.’ Quais? Cite cinco.

  12. ‘[…] principalmente por falar muito (eu diria, demais).’ Sim, os vermelhos e o stalinzinho interior que cada um traz. Basta não prestar atenção. Mas daí a ideologia fala, ‘o pôvú ignaro não consegue raciocinar sozinho, não é ‘iluminado’ como nós e vai ser ‘influenciado para o mal’.

  13. ‘O que acontece com Bolsonaro é que as restrições havidas com a decisão de Alexandre de Moraes se referem a manifestações, que estendem a acusação inicial de tentativa de golpe, principalmente por falar muito (eu diria, demais).’ CF88. ‘Não há crime sem lei que a defina’. Codigo Penal estatui: ‘Tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado Democrático de Direito,[…]’. Não diz ‘Planejar abolir’. Os suficientemente alfabetizados entenderão.

  14. ‘[…] pois não fora preso por algum deslize de expressão, mas por implicações enjambradas por Moro no processo da Lava Jato, anulado depois por razões que todos conhecem.’ O problema foi processual, não foi ‘inocentado’. Bom lembrar. Quando a sujeira começou a bater no tucanato um ministro geneticamente modificado ‘mudou de opinião’ e caiu a Lava a Jato.

  15. ‘“a liberdade de imprensa é um valor que deve ser relativizado, e não pode ser alçado a um patamar absoluto incompatível com a multiplicidade de vetores fundamentais estabelecidos na Constituição”. Guerra das Falklands. Segundo Batalhão do Regimento Paraquedista Britanico estava se deslocando para atacar Goose Green que estava sob controle argentino. No meio da marcha a BBC noticiou o que estava acontecendo. Avisou os argentinos.

  16. Bom lembrar que Cristiano Zanin, ex-causidico do Rato Rouco, ministro togado pelo mesmo, foi até a Comissão de Direitos Humanos da ONU para defender o cliente. Também foi a Inglaterra e conversou com os italianos. Alas, escreveu um livro sobre Lawfare e criou um instituto com o mesmo nome. Como isto é visto lá fora?

  17. ‘Há sete anos, Fux adotou entendimento oposto sobre os limites da liberdade de imprensa e de expressão ao julgar pedidos envolvendo o presidente Lula da Silva.’ Existem diferenças embora o objetivo seja o mesmo. Rato Rouco estava preso na Superintendencia da PF. Cavalão na teoria não está. Além disto iria perturbar o funcionamento da Superintendencia. Conjuntura também é outra.

  18. ‘O voto referido aconteceu na Primeira Turma do STF, quanto às medidas cautelares impostas a Jair Bolsonaro. O placar de 4 x 1 veio com a divergência de Luiz Fux, contra a decisão, em cuja explanação mostrou uma mudança de posição, […]’. É direito de Fux. Segundo, o STF é useiro e vezeiro de mudar de posição. Prisão após decisão em segunda instancia. Alcance do foro privilegiado. Decisões em materia tributaria para aumentar arrecadação beneficiando a União. No passado havia uma instituição, Ordem dos Advogados do Brasil, que estaria berrando contra a falta de segurança juridica. Diferença entre ter culhão e ser castrati.

  19. ‘[…] e com as transformações havidas com a revolução industrial; […]’. Coisa que deve acontecer com a expansão do uso da inteligencia artificial. Mundo não deve acabar, mas o Brasil com sua inercia e seu atraso não tem como não ficar para tras.

  20. Filosofia não parou no iluminismo. Ciencia também não parou naquela epoca, o ‘racionalismo’ ganhou algumas ‘pitadas de sal’.

  21. A grande maioria da população está c@g@ndo para o Hino. Maioria desconhece a existencia. Até porque o Brasil até hoje só foi republica no papel. Até porque foi proclamada com um desfile. População tocando a vida como a maioria gosta de fazer.

  22. Nenhum problema. Stalinistas de plantão acham que podem fazer como seu idolo, emitir opinião já com o rotulo contendo a importancia que tem. Não funciona assim.

  23. Há quem acompanhe a politica como uma novela. Há quem acompanhe as decisões judiciais, como a politica, como se fosse um jogo de futebol. Mesmo sem formação juridica.

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