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O Encontro de Uruguaiana, 60 anos depois – por Leonardo da Rocha Botega

Uma reflexão sobre seis décadas das relações entre o Brasil e a Argentina

A História das Relações entre Brasil e Argentina é marcada por distintos momentos. Ao longo do século XIX, após as disputas geopolíticas que culminaram nas Guerras do Prata, ambos os países estiveram juntos compondo a Triplica Aliança na Guerra do Paraguai. Em 1915, uma nova aproximação levou os dois países, juntamente com o Chile, a assinarem o Tratado do ABC.

Porém, durante a Segunda Grande Guerra, nem mesmo a proximidade ideológica entre os presidentes Getúlio Vargas e Juan Domingos Perón fez os países vizinhos tomarem os mesmos rumos. Enquanto o governo Vargas se somou desde 1942 à aliança contra o Eixo proposta pelos Estados Unidos, o governo Perón manteve a neutralidade até quase o final do conflito, quando também acabou rompendo relações com a Alemanha.

No período pós-guerra, em um momento de nova coincidência de Vargas e Perón no poder, a proposta de um novo Pacto ABC articulada pelo governo argentino foi vista com desconfianças pelo Brasil. Naquele contexto, em boa parte das Forças Armadas e da intelectualidade de ambos os países prevalecia a desconfiança em relação ao vizinho.

Uma desconfiança que começou a ser flexibilizada quando uma tese foi ganhando força na região: a de que nenhum país isolado, apostando na bondade dos países do capitalismo central, conseguiria desenvolver-se. Uma tese que ganhou corpo através da Comissão Econômica para América Latina e Caribe, a CEPAL, fundada em 1949, e que foi se consolidando, sobretudo, a partir das frustrações das experiências de buscar se tornar o aliado preferencial dos Estados Unidos.

Um ensinamento do pós-guerra para autoridades brasileiras e argentinas era: a fidelidade absoluta “ao grande irmão do norte” não recebia como contrapartida os investimentos necessários para a superação do subdesenvolvimento.

Foi assim, a partir deste novo diagnóstico, em um período onde a Guerra Fria dava sinais de distensão, que a partir de 1958, Brasil e Argentina iniciaram um processo de reaproximação inédita até então.

Um processo cujas bases foram lançadas no governo JK e que teve seu ápice nos dias 20, 21 e 22 de abril de 1961, quando os presidentes Arturo Frondizi e Jânio Quadros, os chanceleres Diógenes Taboada, da Argentina, e Afonso Arinos de Mello Franco, do Brasil, o embaixador argentino no Rio de Janeiro, Carlos Manuel Muñiz, e o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Aguinaldo Boulitreau Fragoso, reuniram-se em Uruguaiana, cidade onde em 12 de outubro de 1945 os presidentes Eurico Gaspar Dutra e Juan Domingos Perón inauguraram a Ponte Internacional Getúlio Vargas-Agustín Pedro Justo, interligando os dois países.

Apesar de todo simbolismo que carregou o evento, o Encontro de Uruguaiana não foi somente um episódio simbólico. Foi um momento que explicitou o desejo de deixar para trás anos de competição e rivalidade entre os países, um momento único para debater o desenvolvimento das relações bilaterais de Brasil e Argentina.

Mas não apenas isso, foi também um evento para definir a coordenação de uma ação internacional conjunta frente às grandes potências, nos organismos internacionais e instituições multilaterais de financiamento, a melhora no intercâmbio comercial entre os dois países, e um posicionamento comum diante da Questão Cubana e da Guerra Fria. Um encontro de muita intensidade e que deixou raízes importantes nas políticas externas, tanto do Brasil, como da Argentina.

A partir dos acordos firmados em Uruguaiana, Brasil e Argentina passaram a atuar conjuntamente nos fóruns internacionais. Ainda em 1961, ambos os países tiveram uma postura crítica e de desconfiança diante da Aliança para o Progresso, programa de apoio financeiro proposto pelo governo Kennedy como forma de contrabalançar os efeitos da Revolução Cubana sobre a América Latina.

Em janeiro de 1962, com o Brasil já governado por João Goulart, ambos os países definiram uma posição de respeito ao direito internacional e a autodeterminação dos povos, tomando a posição de abstenção na votação da proposta de expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos. Era a independência fazendo a união. Uma união que estava resultando no próprio aumento de intercâmbio entre os países e destes com novos mercados, bem como, na maior presença nos assuntos internacionais por parte de Brasil e Argentina.

Esta união acabaria, primeiramente, abalada com o golpe que depôs o presidente Frondizi em 28 de março de 1962, e, posteriormente, transformada em distanciamento dois anos depois com o golpe Civil-Militar no Brasil. Porém, apesar de tal distanciamento, o “espírito de Uruguaiana” nunca foi totalmente sufocado.

Foi esse espírito que, uma vez jogadas na lata de lixo da História as ditaduras argentina e brasileira, ressurgiu no processo de redemocratização que ambos os países viveram nos anos 1980, resultando no Mercado Comum do Sul, o Mercosul, que, entre trancos e barrancos, afirmações e boicotes, este ano completou 30 anos.

O “Espírito de Uruguaiana” é muito mais do que uma ponte, é a projeção de um futuro que, mesmo que ainda incompleto, nem mesmo os estúpidos desvaneios da atual política externa brasileira serão capazes de conter. A amizade entre os povos de Brasil e Argentina sempre irá prevalecer, apesar do tosco que hoje dirige o lado de cá do Rio Uruguai. Seguimos! Adelante!                         

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

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Um Comentário

  1. Mercosul é um delírio inviável de gente que ganha a vida esfregando a barriga na mesa. Nenhum motivo para alterações emocionais, é só cruzar os braços e esperar.

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