As eleições brasileiras na estratégia trumpista – por Leonardo da Rocha Botega
Só “três governos adotaram política de alinhamento automático com os EUA”

A partir do estudo da longa duração da História das relações entre Brasil e Estados Unidos se pode perceber que nunca houve propriamente uma convergência de interesses como algumas ideologias propõem. Desde a Independência, somente três governos brasileiros adotaram uma política de alinhamento automático com os Estados Unidos: Eurico Dutra (1946-1951), Castelo Branco (1964-1967) e Jair Bolsonaro (2018-2022).
No Século XIX, os governos monárquicos suspenderam por três vezes (1827, 1847 e 1869) as relações diplomáticas do Brasil com os Estados Unidos. Tais momentos de tensão se repetiram inúmeras vezes no Século XX. Alguns dos principais atritos ocorreram nos governos Getúlio Vargas (1930-1945 e 1951-1954), quando os Estados Unidos não aceitavam o projeto de industrialização brasileiro.
Até mesmo durante a Ditadura Civil-Militar ocorreram fortes atritos. No governo Ernesto Geisel, as tensões geradas pela assinatura do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha em 1976, culminaram no ano seguinte com a ruptura do Acordo Militar com os Estados Unidos. Os militares, ressabiados com o não cumprimento de muitos dos termos do acordo de participação do Brasil na Segunda Grande Guerra, buscavam novos parceiros.
Na passagem do Século XX para o Século XXI, Brasil e Estados Unidos estiveram mais uma vez em lados opostos no debate sobre a quebra das patentes de medicamentos. Na ocasião, o governo Fernando Henrique Cardoso, a partir de seu ministro da saúde José Serra, enfrentou o governo estadunidense e o lobby da indústria farmacêutica daquele país, buscando reduzir os preços dos remédios para o HIV/AIDS.
Em que pese esses atritos mais recentes, desde as tramas que culminaram no golpe civil-militar que depôs o presidente João Goulart em 1964, as tentativas de interferência do governo dos Estados Unidos no Brasil não eram tão evidentes como agora. O governo de Donald Trump não tem sequer escondido seu desejo em ter um aliado na presidência do Brasil, tomando inclusive duras medidas nesse sentido, como o novo tarifaço.
Os ataques que o presidente estadunidense tem feito contra a soberania brasileira demonstram que o Brasil é a cereja que falta no bolo da luta da extrema-direita global. O Brasil carrega o peso politico de ser um dos principais articuladores do Brics+ e da reação do Sul-Global contra a decadente hegemonia estadunidense. Trump precisa de um Brasil submisso para tentar barrar o processo de transferência de poder na ordem mundial.
No cenário interno brasileiro essa submissão tem nome é sobrenome: Flávio Bolsonaro. O candidato do clã golpista já demonstrou não ter nenhum pudor em cumprir o papel de fantoche do presidente estadunidense. A presença de Javier Milei, o fantoche argentino de Trump, e do genocida Benjamin Netanyahu, esse último por vídeo, na convenção do PL deixaram isso ainda mais evidente.
O governo de Donald Trump e seus asseclas da extrema-direita global são hoje os grandes cabos eleitorais de Flávio Bolsonaro. Afinal, Flávio Bolsonaro não possui nenhum compromisso com um projeto nacional de desenvolvimento que favoreça o conjunto do povo brasileiro. Seu único compromisso é com o autoritarismo global e com os ganhos pessoais das relações de poder. Nisso, ele é “Master”!
(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).





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