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Cassiano: o Deus dos grilos – por Leonardo da Rocha Botega

Sobre a vida e a morte de um artista brasileiro nada periférico da periferia

Em entrevista concedida em 1995 aos jornalistas do Estadão, Marcio Gaspar e Lauro Lisboa Garcia, Tim Maia brincou que o CD que recentemente havia sido lançado com músicas suas, de Hyldon e de Cassiano, deveria ter sido chamado de “Os reis do grilo”.

Para o grande mestre do soul brasileiro, Hyldon (compositor de “Na Rua, na chuva e na fazenda”) era “o grilo”, ele era o “rei do grilo”, já Cassiano seria o “deus do grilo”. Para além da brincadeira, está era mais uma grande referência que o músico mais popular do trio fazia aquele que foi responsável por algumas das mais brilhantes composições que o elevaram a este status, como “Primavera (Faz chuva)” e “Eu amo você”.

Em uma outra ocasião, Tim Maia já havia declarado que “Deus existia e tinha a voz de Cassiano”. Tal era a admiração do “síndico” por aquele que juntamente com ele e Hyldon, elevaram a música brasileira a um outro patamar, fundando o soul brasileiro.

Genival Cassiano dos Santos, nasceu em Campina Grande na Paraíba, em 16 de setembro de 1943. Quando menino conheceu um grande amigo de seu pai: Jackson do Pandeiro, que posteriormente se tornaria um ícone da música brasileira. Mas assim como muitas famílias nordestinas, a sua foi buscar uma vida no Sudeste, longe da grande seca que atingiu a região no final da década de 1940.

No Rio de Janeiro, trabalhou como assistente de pedreiro, aprendeu a tocar bandolim e violão e mergulhou na cultura popular da Cidade Maravilhosa que nos anos 1950 passava a ganhar um novo aspecto com o emergir da Bossa Nova.

Mas o cenário da Bossa Nova não era para todos. Enquanto a classe média carioca se encantava com os muitos acordes de Roberto Menescal, Carlos Lyra, João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e se encantava com a voz de Nara Leão, a música da periferia ia se redesenhando, fundindo a malandragem do samba brasileiro com a soul music estadunidense.

Desdte redesenho surgiram o Bossa Trio e Os Diagonais, esse último formado por Cassiano, Camarão (seu irmão) e Amaro. A pegada black dos diagonais despertou a atenção de muitos músicos de uma emergente nova cena musical brasileira.

Um destes músicos, Tim Maia, descobriu em Cassiano um apaixonado, assim como ele, pela música negra estadunidense e um desejo comum em fazer “aquela parada”, emergida na luta contra a segregação racial e pelos direitos civis, ganhar uma cara brasileira.

Cassiano participou como compositor e guitarrista de quatro grandes sucessos do primeiro disco de Tim Maia em 1970. Um ano depois lançaria seu primeiro disco solo, “Imagem e som”. Em 1973, lançaria “Apresentamos nosso Cassiano”.

Nos anos seguintes, atingiria o auge da carreira emplacando duas músicas nas disputadas trilhas sonoras de novelas da Rede Globo. “A Lua e eu” e “Coleções” embalaram o sucesso de seu mais destacado álbum, “Cuban Soul”.   

Porém, paralelamente ao sucesso, Cassiano também foi conhecendo os meandros nada agradáveis do mercado cultural. A lógica da música-mercadoria que domina as grandes gravadoras fez a CBS barrar o lançamento de seu quarto álbum em 1978. Sua genialidade agora era considerada “pouco comerciável”.

Para aquele paraibano que cresceu nas vielas da malandragem do Rio de Janeiro, fã de Marvin Gaye e de Steve Wonder, aquela negativa foi um duro golpe. Para piorar a situação, graves problemas de saúde levaram o cantor a perder parte do pulmão. Considerado inadequado para os novos rumos da indústria musical e com a saúde abalada, Cassiano aos poucos foi sendo secundarizado.

Tentou retomar a carreira em 1984, mas percebeu que aquele mundo não era mais seu. Mesmo assim, em 1991, com a participação de muitos de músicos que eram seus fãs, como Sandra de Sá, Ed Motta, Djavan, Marisa Monte, Luiz Melodia e Claudio Zolli, lançou “Cedo ou Tarde”.

Mas nem mesmo essas parceiras de peso tiraram de Cassiano a conclusão de que a aura do soul brasileiro já não era mais a mesma. Após este último disco resolveu dar um basta em tudo e desejou ser esquecido. Não foi! No emergir do século XXI, Cassiano ressurgiu nas músicas do Racionais MCs. Era a nova música negra gritando que “Ouvindo Cassiano, os gambé não guenta”.

Seus acordes ousaram resistir pela música de resistência! Pela voz da mesma periferia que se reconhecia na sua voz, na sua roupa e no seu estilo “romântico com cara de mau”, em meio a violência que sempre a perseguiu. A periferia nunca esqueceu Cassiano!

O “Deus dos Grilos” morreu no último dia 7 de maio, mais uma vítima da Covid-19 e do descaso da política genocida em curso no Brasil. A mesma política que um dia antes chacinou quase três dezenas de negros e pobres na Favela de Jacarezinho. Talvez, Cassiano tivesse razão em querer ser esquecido. Afinal, os periféricos desde país só são lembrados para serem explorados ou mortos. Até quando?

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do Editor: a foto de Cassiano, que ilustra este artigo, é uma reprodução da Internet.

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Um Comentário

  1. Figura desconhecida.
    Texto utilizando o recurso habitual, uma introdução que serve para nada, afirmações provocativas para causar uma perda de tempo discutindo ideologia furada.
    Politica genocida? Chacina? Não tem problema nenhum, quem quiser pode achar o que quiser. Não tem nenhuma importância.

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