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Maio – por Orlando Fonseca

Se as coisas estivessem normais, nesta semana estaríamos em plena preparação para o aniversário de nossa cidade. Talvez, até o fim do ano, como muito otimismo, teremos muito “se” para condicionar nossos sentimentos, nossos afazeres e nossas circunstâncias. Se fossem outros os tempos, a Praça estaria festiva, com sua Feira do Livro, nosso maior evento cultural. Se tivéssemos vacinas para todos, e todos estivessem devidamente imunizados, estaríamos em êxtase celebrando os 163 de Santa Maria. Se o maio tivesse chegado de outro jeito, mas ele chegou assim, de mau jeito, para bagunçar nosso calendário pessoal e cívico, e temos mais a lamentar do que celebrar.

Há quem questione esta data em nossa cidade. Entre nós há os que querem essa comunidade mais madura, com um marco inicial que não o de sua emancipação, em 1858. Com efeito, se pensarmos no núcleo urbano inicial, teríamos de recuar até o ano de 1797, ocasião da segunda passagem da comissão demarcadora do Tratado de Santo Ildefonso por estas plagas. Militares portugueses e espanhóis estiveram nesta região, a primeira vez, em 1787, mas seguiram adiante em sua missão de dividir o território – que viria a ser o que conhecemos hoje por Rio Grande do Sul – entre as coroas de Portugal e Espanha. A bem da verdade, se vingasse aquele tratado, as terras espanholas começariam ali, depois de Boca do Monte. Mas a história dos governos e dos povos é dinâmica, e as mudanças aconteceram de modo que por aqui se desfez a comissão, e alguns dos militares, maioria paulista, resolveu permanecer neste lugar, firmando um acampamento que deu origem a tudo o que temos hoje como Centro Histórico de Santa Maria. Não se sabe ao certo o dia e o mês, mas o ano é aquele.

Já houve quem quisesse definir nosso nascimento urbano em 1814, com a criação de uma “capela curada” por aqui, já que daquele agrupamento inicial formou-se uma pequena povoação. Foi por esse motivo, então, que o primeiro século dessa comuna foi celebrado no que hoje se conhece como o “falso centenário”, em 1914 – houve festa, houve publicação de um álbum ilustrado para registrar o feito. No entanto, persistiu mesmo a ideia de que a cidade passou a existir de fato com a sua emancipação de Cachoeira do Sul, à qual pertencia, em 1858. Com a celebração festiva do centenário desta data, firmou-se que Santa Maria, àquele tempo já uma jovem, tinha o seu primeiro aniversário naquela data.

Nascemos de um acampamento militar, crescemos com a implantação de uma rede ferroviária, ganhamos maturidade com a primeira universidade federal no interior do país. Somos uma cidade de passagem. Mas somos também uma cidade acolhedora, por natureza, desde que os remanescentes daquele acampamento viram que este lugar no centro do Estado era promissor. Um dos efeitos colaterais de nossa história de marchas e contramarchas, é o descuido com a memória. Muitos dos prédios que testemunharam nossa formação já foram colocados abaixo. O Coletivo Memória Ativa está atento ao que vem ocorrendo com o prédio do Clube Caixeiral, e não é de agora. Mesmo com as restrições dos protocolos sanitários da pandemia, temos feito gestões no sentido de que se preserve aquele belo monumento histórico – está tombada a sua volumetria externa, o que significa que ele pode ser ocupado por iniciativas comerciais ou culturais, desde que mantenha a sua estrutura. Há uma biblioteca no seu interior, a qual também foi objeto de nossas articulações para que seja encaminhada ao Arquivo Municipal ou Biblioteca Pública, havendo ali obras de interesse geral.

Antes que as coisas voltem à normalidade, talvez não possamos cantar o parabéns para Santa Maria como queríamos. Então lembro de uma canção imortal da nossa MPB: “e eu que não creio, peço a Deus por minha gente”. Santa Maria, rogai por nós!

*Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

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3 Comentários

  1. Acampamento militar. Outro detalhe que nunca vi explorado. Demarcação pode ter sido feita por militares porque não havia alternativa. Engenharia, agrimensura, topografia no inicio era toda militar. Não haviam escolas civis. A engenharia civil só surgiu muito depois. Num dos romances de Jorge Amado existe uma referencia a isto, ciclo do cacau, até virou novela da Globo. Personagem, alás, era um picareta.
    Há que se cuidar para que o Caixeiral não vire um Centenário. Degradação até que não reste alternativa outra que a demolição total e a venda do terreno para construção de um espigão. Livros tem que ser avaliados no que diz respeito ao estado de conservação. Antiguidade somente não quer dizer valor.

  2. Fundação da aldeia não interessa muitos. Não se fala muito de São Martinho. Erico Verissimo menciona em “Ana Terra’ Rafael Pinto Bandeira. Já existia gente por estas plagas. Descida da serra pela BR-158, Pinhal só veio mais tarde com a ferrovia. Santa Maria era distrito de Cachoeira, São Martinho de Cruz Alta. Nas minhas pesquisas (superficiais) sei de gente que veio de Vacaria para São Martinho e andou pelo acampamento. Que obviamente deve ter um curso d’agua por perto. Alás, outro detalhe, São Paulo tem muitos cursos d’agua, cidades eram ‘fundadas’ perto do recurso imprescindível.

  3. As ‘coisas’ estão normais, não é ‘anormal’ a pandemia. Não é rotineira. Como a erupção de um vulcão.
    ‘Se’ está na moda, afirmações não falsificáveis. Falácias, o ‘se’ é sempre o caminho para o sucesso, tudo daria certo, o caminho alternativo nunca tem percalços e nem contratempos. Talvez resultado do modernismo enquanto concepção filosófica. Julio Cesar ao atravessar o Rubicão afirmou ‘a sorte está lançada’, uma compreensão melhor da realidade do que muitos contemporâneos nossos.
    Que mais pode ser dito a respeito? Um chavão, um lugar comum ou um ditado. Se tivesse duas rodas e um guidon seria uma bicicleta. Olhando no retrovisor todo mundo é um gênio.

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