Contos

Três tiros na escuridão da noite – por Vitor Biasoli

Dalva acordou com o barulho de três tiros. Acordou, ficou deitada na cama e só se levantou quanto ouviu o ruído das patas dos cavalos seguindo estrada afora. Ai então caminhou pelo interior da casa e entrou no bolicho pela porta que dava diretamente atrás do balcão. Viu o pai e dois homens arrastando um corpo que sangrava e gemia. O corpo foi deixado no chão, entre as mesas, e os homens ficaram ao redor, observando – e esperando a morte, ela soube depois.

“Vai embora daqui”, gritou o pai, quando a viu atrás do balcão. Dalva voltou para o quarto e não dormiu naquela noite. O morto era o Onofre, que andava devagarito insinuando namoro. Dalva tinha quinze anos e no outro dia foi colocada em cima de um cavalo e levada até a estação de Cacequi para pegar trem. Veio morar em Santa Maria, numa casinha de porta e janela, “para acompanhar a tia Josefina que acabara de enviuvar e estava um pouco perdida na vida”, mentia para os vizinhos.

“Isto ocorreu pouco antes do suicídio do doutor Getúlio”, ela contava para os filhos, muitos anos depois. Falava do bolicho do avô, dos entreveros que acontecia pelos motivos mais variados, isto é, jogo, política e mulher, e contava do tiroteio de mil novecentos e cinquenta e poucos. “Aí o pai achou que era demais e me despachou pra Santa Maria”, explicava. “O morto era filho de um figurão e o valentão que o liquidara era filho de outro fazendeiro importante. Uma coisa muito séria que mudou o destino da região”, arrematava ela, sem entrar em detalhes.

Dalva cuidou da tia, formou-se professora na Escola Normal Olavo Bilac. Casou-se com um ferroviário que nunca soube montar a cavalo e muito menos laçar. Às vezes achava estranho que houvesse homens assim, ignorantes das lidas da campanha, mas achava isto muito bom. Afinal, homens são sempre briguentos e até violentos em certas ocasiões e, desconhecendo o manejo com a faca e com as armas de fogo, é sempre uma garantia. Uma garantia de que as brigas não terminarão em sangue, invalidez ou morte.

O AUTOR

Nasceu em Pelotas, em 1955. Professor de História, formado pela UFRGS (1977), Veio para Santa Maria em 1991 e lecionou na UFSM. Vitor Biasoli, atualmente, está aposentado. Prepara o lançamento de um livro de poemas, Paisagem Marinha, e finaliza um romance, Os caminhos de Santa Teresa.

Este conto foi publicado com autorização do autor. Crédito da imagem no topo da página: Pixabay

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo