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A desigualdade pandêmica na América Latina – por Leonardo da Rocha Botega

Só 10,4% da população local está totalmente imunizada com 2 doses da vacina

O primeiro semestre de 2021 tem sido marcado pela publicação de inúmeros estudos que enfocam os efeitos do primeiro ano da Pandemia sobre as diversas regiões do globo. Segundo a Organização das Nações Unidas, ao longo de 2020, a Covid-19 afetou mais de 80 milhões de pessoas em 216 países e territórios, o que resultou em 1,7 milhões de óbitos. O continente mais afetado foi o das Américas, onde o vírus SARS-COV 2 infectou mais de 35 milhões de pessoas e causou 850 mil mortes nesse mesmo período.

Em relação à América Latina, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a Cepal, foram mais de 20 milhões de casos e mais de 635 mil mortos. Separada do restante do continente, a região é a segunda mais atingida, atrás apenas da Europa.

Um dado que salta aos olhos é o de que, apesar de terem 8,4% da população mundial, os países latino-americanos representaram, até março, 27,8% dos mortos pela Covid-19. Uma realidade que nos últimos meses tem se agravado ainda mais. Na última semana, os sete países com maior número de óbitos por milhão de habitantes no mundo estavam situados na América do Sul, onde somente 10,4% da população está totalmente imunizada com as duas doses da vacina (dado da Our World in Data de 15/06).

Tal realidade por si só já demonstra o verdadeiro drama que a região tem vivenciado. Um drama que se agrava ainda mais se observarmos os estudos que enfocam os efeitos sociais da Pandemia sobre a América Latina. Entre esses, dois chamaram muita atenção.

O primeiro, publicado pela Cepal em março, indicou que ao longo de 2020 a pobreza cresceu ao maior patamar em 12 anos na região. O ano de 2021 iniciou com a pobreza atingindo 37,7% da população latino-americana. Ou seja, 209 milhões de um total 654 milhões de habitantes da região são pobres. Desses, 78 milhões de pessoas são extremamente pobres.

O segundo estudo, realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e publicizado pela Revista Forbes em maio, chamou atenção para o fato de que, nesse mesmo período, o número de bilionários da região aumentou em 40%.

Em março de 2020, 76 latino-americanos possuíam 1 bilhão de dólares ou mais em ativos, somando um patrimônio conjunto de 284 bilhões de dólares. Um ano depois, em março de 2021, eram 105 bilionários latino-americanos com 448 bilhões de dólares acumulados. Em maio, esse número aumentou para 107 bilionários com um patrimônio total de 480 bilhões. Tudo isso em um cenário onde o PIB da região sofreu um decréscimo de 7,7%.

Em artigo publicado em março de 2020 na coletânea Sopa de Wuhan, o químico e filósofo espanhol Santiago López Petit destacou que as enfermidades de cada sociedade tenderiam a ser agravadas com a Pandemia. Alicia Bárcena, secretária-geral da Cepal, um ano depois, afirmou que a “pandemia evidenciou e exacerbou as grandes lacunas estruturais da região”. Entre essas, a principal lacuna estrutural é sem sombra de dúvidas a desigualdade social.

Os estudos da PNUD e da Cepal são taxativos: a Pandemia reatualizou e agravou a condição da América Latina como a região mais desigual do planeta. Uma condição que nem mesmo o chamado ciclo progressista foi capaz de superar. Por isso que hoje, mesmo em meio à tragédia e os perigos pandêmicos, no Chile, na Bolívia, na Colômbia, no Peru, no Brasil e em muitos outros rincões latino-americanos, milhares de pessoas tem saído às ruas exigindo uma nova perspectiva para as suas vidas, cada dia mais precarizadas, enquanto alguns enriquecem.

(*) Leonardo da Rocha Botegaque escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do Editor: A imagem que ilustra este artigo é uma reprodução obtida na internet.

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3 Comentários

  1. Há o aspecto ideológico. Não tenho vocação para teólogo, muito menos da religião dos outros. Para os vemelhinhos desigualdade é anátema. Para os racionais imoral é muita gente não ter o mínimo na vida. Afinal, bilhões são só um número num banco de dados. Depois da caixa com 6 alças, viram outros numeros.

  2. No Reino Unido falam em 100 mil imigrantes ilegais só da India. Pela Europa os numeros são parecidos. Nos EUA numeros não são pequenos. Problema? Não aparecem para tomar vacina por medo da extradição.
    O que traz o assunto dos numeros de volta. É o que ‘liquida’ o tecnocrata (economistas, estatisticos, etc). Olhando só os numeros e concluindo ‘aqui está bem’ ou ‘aqui está mal’ é uma arapuca. Uma das causas da derrocada do Império Soviético. E da falencia de muitas empresas no capitalismo.

  3. Primeiro um assunto que sempre volta a baila. Muitos numeros é espantalho de leitor (ou do ouvinte, ou telespectador). Não custa lembrar. Mais ou menos como microfone. Basta imaginar o dito cujo como uma lanterna ligada numa sala escura apontada para a fuça de quem está falando. Dizer algo fora do feixe de luz é comprometer a compreensão do outro lado.
    Problema todo é que se olha para os paises desenvolvidos e esquece-se de olhar para os que estão em pior situação. Os paises desenvolvidos olham para a Latino America e pensam ‘estão se virando, tem gente em pior situação’. Este debate já começou lá fora e a ‘desigualdade vacinal’ só não entrou na pauta por outros problemas.
    EUA viveram uma ‘onda de imunização’. Chegaram a vacinar 3,5 milhões de pessoas por dia, hoje menos da metade. Oklahoma vacinou em determinado periodo 25 mil pessoas por dia, caiu para 5500 na primeira metade do mes de maio. Tendencia de queda. Lote de vacinas da Johnson e Johnson teve recall por contaminação (ingredientes de vacina para outra coisa); mais lotes começam a chegar perto da data de vencimento (questão de meses, agosto por exemplo) e antes que isto aconteça vão fazer doações pelo mundo.

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