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Pós-alguma coisa – por Orlando Fonseca

“Algo que aparente ser verdade é mais importante que a própria verdade”

Quando em novembro de 2018, o ex-juiz e futuro ministro – depois ex-ministro – da Justiça, Sérgio Moro veio a público dizer que a manifestação do ex-candidato a deputado Ônix Lorenzoni – então futuro ministro – era suficiente para inocentá-lo de corrupção, passei a considerar que estava em marcha, no Brasil, uma nova modalidade de pós-verdade.

Bastava a alguém pôr em operação o expediente que com crianças funciona: “Se eu estou dizendo, é porque é”. E aquilo era apenas o começo do que estamos vendo na atual conjuntura do país.

O então deputado havia sido flagrado em investigação da PF sobre Caixa 2 na campanha eleitoral, na qual havia recebido um “por fora” da indigitada JBS. Sem escapatória, em uma coletiva, confessou o “valor não declarado”, na maior cara de pau, pedindo desculpa à Nação.

Se o citado ex-juiz Moro não tivesse comandado uma megaoperação, que a mídia consagrou como a “maior jornada contra a corrupção”, a frase inocentando Lorenzoni teria passado batido. Já a inocência desse está dada, como a de muita safadeza que tem passado com a boiada.

Embora o termo já tivesse um uso registrado desde 1992, foi em 2016 que a Oxford Dictionaries (Universidade de Oxford) consagrou o vocábulo “pós-verdade” como a palavra do ano na língua inglesa. Segundo o emprego dos sociólogos, trata-se de um neologismo “que descreve a situação na qual, na hora de criar e modelar a opinião pública, os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais.”

No debate político, os apelos emocionais, as opiniões e crenças pessoais têm valor de argumento, os fatos são ignorados, e “algo que aparente ser verdade é mais importante que a própria verdade”. Trata-se, em último caso, de um efeito colateral na proliferação das redes sociais, o mesmo que garante foros de veracidade a uma variante disso.

No atual cenário político brasileiro, narrativas que são dadas como justificativas, em outros tempos seriam tidas como tergiversação. E com isso vamos detectando os sintomas da doença que acomete o corpo social, em nossa claudicante democracia. Negacionismos de toda ordem são absolvidos pelas mais estapafúrdias histórias da carochinha para gente grande.

A CPI-Covid, no Senado, tem sido palco para muitas destas narrativas. O ex-ministro Pazuello, questionado sobre a recomendação de tratamento precoce com cloroquina ou outro medicamento, foi categórico: “Em hipótese alguma. O presidente nunca me deu ordens diretas para nada”. Ainda que todos conheçamos o vídeo que circulou nas redes sociais com a famosa frase: “É simples assim: um manda e outro obedece”.

A médica oncologista, Nise Yamaguchi, criou várias narrativas em seu depoimento à CPI. Entre essas, aquela em que afirma jamais ter tido um encontro privado com o Presidente. No entanto – o que é fácil de conferir – na agenda oficial de Bolsonaro, entre os dois houve uma reunião em 15 de maio do ano passado, além do registro de, ao menos, três reuniões com a presença de outras pessoas.

Já o virologista Paolo Zanotto negou ter sugerido a criação de um gabinete paralelo do ministério da Saúde, apesar de aparecer em vídeo de uma reunião com o Presidente sugerindo a criação de um “shadow board” (o tal do gabinete paralelo que todos tentam negar).

Na mesma ocasião argumentava contra a vacinação em massa dos brasileiros. A Capitã cloroquina, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde do Ministério da Saúde, negou que tenha visitado UBS de Manaus para recomendar o uso de medicamentos para prevenção e tratamento precoce do coronavírus.

Entretanto foi desmentida na própria CPI, através de vídeos que indicam que a especialista visitou, sim, e ainda trabalhou pela tese da imunidade de rebanho.

O Dicionário Oxford talvez não se dê ao trabalho de dar um nome a isso. Da famosa Universidade britânica, junto com o laboratório AstraZeneca, tivemos uma vacina contra a Covid-19. Talvez uma vacina contra a epidemia de ignorância, que vai tomando conta do país, fosse uma alternativa boa para a saúde da nossa democracia, com o nome de Verdade-Vac.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Nota do Editor: a foto (do depoimento da médica Nise Yamaguchi na CPI da Covid) que ilustra esta crônica é de Leopoldo Silva, da Agência Senado. Para conferi-la no original, clique AQUI.

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4 Comentários

  1. Epidemia de ignorancia não seria combatida com uma ‘Verdade-Vac’. Até porque mentira é, por definição, conhecer a verdade e falsea-la com intenção de enganar. Algo humano, não há como escapar, politicos de todas as cores e governos de todas as bandeiras mentem. Obviamente ‘é para o bem’ do ‘pôvú’.
    Vacina contra a ignorância? Os professores de todos os níveis devem encabeçar a lista dos grupos de risco. Seguidos dos politicos. E jornalistas. E causidicos que em todo lugar se metem. Todos portadores de ‘comorbidades’. Poderia acarretar alguma melhoria na situação de Terra Brasilis.

  2. Problemas da Capitã Cloroquina são dela. Hipocrisia é o KY Gel das relações sociais. Aqui na aldeia, por exemplo, servidores com salarios de 20, 30 mil, tem a cara de pau de falar em desigualdade e criticar as ‘zelites’. Há que se tomar cuidado, criticar agora é ‘ódio’, cômico apelo às emoções.

  3. Não sou médico para comentar fármacos. Parece que faltou orientação juridica para a oncologista. Nos paises de lingua inglesa frase bastante ouvida é ‘to the best of my recollection’ (algo como ‘se lembro bem’). Evita nova convocação e retratação. Sim, porque ninguém é obrigado a lembrar o que aconteceu um ano antes e falso testemunho dá cestas básicas. A menos que haja retratação, dai não dá nada. Caso do Batatinha é mais sutil, uma coisa é declaração a imprensa, outra seria uma portaria (acho que o instrumento é este) orientando alguma coisa. Alás, não perco tempo acompanhando, investigação é sobre declarações à imprensa?
    Alás, num determinado estado um major da PM estava escorado na Assembleia Legislativa. Eleito novo governador, um ‘intelectual’, foi promovido a coronel em ano e meio. Foi nomeado comandante da corporação. Na época da reeleição foi para a praça defender a boquinha, sacudir cartaz para o ‘patrão’. Deu ruim para o politico, o militar ganhou uma boquinha no tribunal militar. Punição é coisa da Globo. Alás, dizem por aí que houve arrependimento do governo Molusco com L. por não aparelhar as FFAA.

  4. Pelo que pude apurar Moro declarou que Onyx teria sua ‘confiança pessoal’ e não ‘é inocente’. Contexto era aprovação das 10 medidas contra a corrupção (que não saíram) e inicio de procedimento contra o veterinário por caixa 2. Este confessou, fez acordo e fim da história.
    Apelos emocionais, opiniões e crenças sempre fizeram parte da politica. Vide o pathos de Aristoteles, mais de dois mil anos. Alás, retórica não é mais ensinada, tenho a impressão, em quase lugar nenhum. Algum motivo há.
    CPI da Covid vem num contexto de ‘instituições estão funcionando’. Moda. Aqui na aldeia o Partido dos Herdeiros da Aldeia incorporou (dizem porque não assisto) no Sala Vermelha diversos secretários e edis. Nos dois casos tropeçam nas proprias pernas. Aqui colocam três vermelhinhos e alguém de centro direita para discutir o governo federal. Ou colocam quatro de centro direita e a pauta é o ‘dia mundial da árvore’. Por lá o presidente teve parentada citrica presa por desvios e o relator é Renan Calhordas, amigo incondicional da petezada.

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