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Não é para amadores a terra onde o sobrenome de Airton Soligo foi substituído por Cascavel – por Carlos Wagner

Uma figura muito peculiar, ligada ao general Pazuello, vai à CPI. E daí que…

Qual é a história da parceria entre o Cascavel (direita) com o general Pazuello (esquerda), ex-ministro da Saúde? (Foto Reprodução)

Se não houver mudança na agenda da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado da Covid-19, a CPI da Covid, os senadores deverão ouvir nos próximos dias Airton Cascavel, 57 anos, assessor informal do ex-ministro da Saúde e general da ativa do Exército Eduardo Pazuello.

O sobrenome do personagem foi noticiado seguido de uma explicação para os leitores. Nos anos 80 ele usava o sobrenome de Soligo na sua cidade natal, Capanema (PR). Tornou-se funcionário da empresa de ônibus Cascavel e migrou para Boa Vista (RR). Lá ficou conhecido como Airton Cascavel e acabou incorporando o novo sobrenome e entrando na política.

Roraima tem a sua história oficial. E uma história não oficial que é muito interessante, na qual pessoas como o nosso personagem encontraram uma chance de ter um lugar ao sol, que por sinal é muito forte lá por estar na linha do Equador. Roraima foi a última fronteira agrícola do Brasil a ser povoada por agricultores, muitos gaúchos e seus descendentes do oeste de Santa Catarina e Paraná.

Lembro que em um final de tarde estava no meio da Floresta Amazônica, num posto da fronteira com a Venezuela conhecido como BV-8, que hoje virou a cidade de Pacaraima, quando vi um jovem caminhando com uma prancha de surfe. Esperava encontrar de tudo um pouco por ali. Mas jamais um surfista. Perguntei-lhe onde ele iria surfar. Respondeu que no Caribe.

De fato, dali onde estávamos o Mar do Caribe ficava mais próximo do que qualquer praia do litoral brasileiro. Tinha ido a Roraima para trabalhar no caso do massacre dos índios ianomâmis por garimpeiros, assunto que havia virado notícia internacional. E por conta disso comecei a vasculhar o território para entender como as coisas aconteciam por lá.

A formação da administração do Estado tinha uma forte influência gaúcha, levada pelos estudantes e professores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) que tinham lá um grupo do extinto Projeto Rondon – há matérias sobre o assunto na internet.

Nos anos 90, o ouro garimpado ilegalmente nas terras ianomâmis era vendido e comprado pelas ruas de Boa Vista, a capital do Estado. Estive em uma cidade chamada Bonfim, na fronteira com a Guiana. Lá se falavam dois idiomas: o inglês e uma língua indígena.

Claro, eu precisei de um tradutor para conseguir trabalhar. Bonfim fica nos arredores da Reserva Indígena Raposa do Sol, que foi desapropriada pelo governo federal e vários agricultores, muitos gaúchos, foram expulsos.

Fiz reportagens e livros sobre o povoamento das fronteiras agrícolas do Brasil pelos gaúchos e seus descendentes. Os agricultores foram levados para esses lugares por firmas colonizadoras, governo federal e empresas de ônibus, entre elas a Cascavel, que ajudou o povoar Rondônia e Roraima.

Na época os nomes das cidades surgiam de maneira estranha. Por exemplo, Sorriso, no norte do Mato Grosso. No início, só existia uma linha telefônica no local e quando os agricultores ligavam para os seus parentes no Rio Grande do Sul e eram perguntados sobre o que dava para plantar, eles respondiam: “Só riso” – riso, no caso, significa arroz em italiano.

A cidade foi batizada de Sorriso. Portanto, a mudança que Airton fez no seu sobrenome para Cascavel não tem nada a ver com a cobra. Mas com a empresa de ônibus fundada na cidade de Cascavel, no Paraná.

Em todos esses lugares desbravados e povoados pelos agricultores surgiram oportunidades legais e ilegais de enriquecimento. Homens como Airton Cascavel souberam aproveitá-las. Ele entrou na política no final dos anos 80 e foi prefeito da cidade de Mucajaí (RR). E daí para frente subiu na vida com uma velocidade espantosa até encontrar o general Pazuello, que coordenava a Operação Acolhida, organizando a chegada dos refugiados venezuelanos em Boa Vista.

Fiz o tema de casa. Pesquisei e li tudo o que encontrei sobre Airton Cascavel. Incluindo ligações para colegas de profissão, religiosos e empresários de Boa Vista. Pessoas que sempre consultei quando escrevi sobre os rolos de lá. Pelo que apurei, Cascavel se aproximou de Pazuello por ter visto nele uma boa oportunidade de ganhar prestígio político e fazer bons negócios.

Ele é considerado, até pelos seus adversários políticos, um bom negociador e um homem com aspirações políticas. Em todas elas surgiram oportunidade legais e ilegais de enriquecimento. Não tem como saber qual é a história que ele irá contar aos senadores da CPI da Covid. Mas certamente não dirá tudo o que sabe, a não ser que seja necessário para salvar a sua pele.

Até agora Airton Cascavel conseguiu sobreviver, ganhar prestígio político e dinheiro trabalhando em um distante canto do Brasil. Muito longe do centro do poder que é Brasília. Ainda mais ele, que é ligado ao general Pazuello, o homem acusado de ter tornado política de governo o negacionismo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) a respeito do poder de contágio e letalidade da Covid, um vírus que já matou 550 mil brasileiros.

A pergunta que os senadores farão é o que uma pessoa com o perfil de Cascavel esteve fazendo no meio das negociações das vacinas? O que se sabe é que por bom tempo ele operou sem sequer ser funcionário do governo. Tem que esperar o depoimento. Mas uma coisa podemos especular. Cascavel é conhecido pelo seu senso de saber detectar o perigo das situações e sair fora antes que tudo exploda.

Ele não percebeu a situação explosiva em que estava metido estando no centro da confusão causada pelo general Pazuello na Saúde? Ou acreditou que estava vivendo nos tempos da Ditadura Militar (1964 a 1985), quando os generais faziam o que bem entendiam no exercício do seu cargo no governo e não dava em nada? A conversa dos senadores com Cascavel promete.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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