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CIÊNCIA. Ana Paula Rovedder, docente da UFSM, receberá nesta quinta o prêmio “O Futuro da Terra’

Honraria à pesquisadora é entregue pelo Jornal do Comércio e pela Fapergs

Ana Paula Rovedder (na foto em trabalho de campo) receberá o prêmio na categoria “Preservação ambiental” (foto Arquivo Neprade)

Por Eduarda Paz / Da revista Arco/UFSM

O Prêmio “O Futuro da Terra”, promovido pelo Jornal do Comércio em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs), reconhece pesquisas e trabalhos que contribuem para o avanço tecnológico e ações sustentáveis no campo desde 1997. 

Nesta 25ª edição, a engenheira florestal e docente do Departamento de Ciências Florestais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Ana Paula Moreira Rovedder, recebeu o prêmio na categoria “Preservação Ambiental”. A cerimônia de premiação será realizada na Expointer, em Esteio, no dia 9 de setembro, às 15 horas, e será transmitida pelo YouTube do Jornal do Comércio.

Ana Paula é coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Recuperação de Áreas Degradadas (Neprade/UFSM), membro do Conselho da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE) e uma das fundadoras da Rede Sul de Restauração Ecológica. Além disso, pesquisa a relação entre grupos sociais e a restauração ecológica, com ênfase em assentamentos da reforma agrária e agricultura familiar. 

A Revista Arco conversou com a pesquisadora, que contou sobre sua trajetória acadêmica e a paixão pela sua área de estudo.

ARCO – Você poderia comentar sobre como surgiu o interesse pela área da Engenharia Florestal?

Bom, eu venho de uma origem urbano-rural em Santa Maria, mas o meu envolvimento com o rural não é aquele típico de produtores, de agricultores ou de pecuaristas. A minha experiência foi através de alguns tios que extraíam areia e, por isso, eu e os meus primos estávamos sempre na beira do Rio Vacacaí. Então, desenvolvi uma sintonia, uma afinidade muito grande com o rio. A partir dos meus 12 anos, percebi uma degradação muito grande de toda bacia: começou a desaparecer a fauna – animais – e o rio foi perdendo volume.

Além disso, a minha geração era influenciada pelo movimento ecologista da década de 1980, então tinha José Lutzenberger no Rio Grande do Sul; o mergulhador francês Jacques Cousteau que influenciou gerações de ecologistas; a luta do Chico Mendes com seringueiros. Todas as influências e aquela percepção dos 12 anos formaram a minha vida. Eu queria trabalhar em prol da natureza. Por isso, quando fui escolher o curso, fiquei entre Agronomia e Engenharia Florestal. Em 1995, optei pela área da Engenharia Florestal. 

ARCO – Sua trajetória acadêmica está, em boa parte, relacionada com o Neprade. Como surgiu o Grupo?

Eu realizei meu mestrado e doutorado na UFSM. Naquela época, não se falava em restauração ecológica no Rio Grande do Sul, mas sim em recuperação de áreas degradadas. Assim, no doutorado, trabalhei com uma proposta de projeto autoral minha e do meu orientador, professor Flávio Eltz. Consegui trabalhar com uma espécie nativa, o Lupinus albescens – conhecida popularmente como Tremoço – no sudoeste do Rio Grande do Sul. Ela serve para a recuperação dos areais.

A partir do doutorado, eu já era professora da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS); atuei durante seis anos e consegui trabalhar disciplinas, projetos, temáticas de recuperação dos solos e de conservação. Já em 2010, saiu um concurso para o Departamento de Ciências Florestais na UFSM e assumi como professora. 

Então, em abril de 2011, fundei o Neprade com o objetivo de catalisar e de reunir esforços em prol de um tema principal que é a restauração ecológica de ecossistemas, especialmente do bioma mata atlântica e do bioma pampa. O nosso trabalho iniciou com a participação de alunos voluntários de graduação da Engenharia Florestal e também de pesquisadores – tanto da UFSM, quanto de outras instituições – que são parceiros do projeto até hoje.

Depois, ainda haveria inclusão da disciplina de Recuperação de Áreas Degradadas na grade curricular do curso de Engenharia Florestal, no campus sede, proposta por mim e muito bem recebida pelo núcleo docente. Então, o prêmio é resultado da minha trajetória toda, mas também do Neprade e da UFSM. Através disso, conseguimos nos equiparar com as escolas de Engenharia Florestal do resto do Brasil e fortalecer a formação dos egressos do curso.

ARCO – O que é a restauração ecológica e qual sua relação com os grupos sociais?

É uma área da ciência que tem como alicerce a facilitação dos processos de restauração e de recomposição dos ecossistemas. Por que a facilitação? Nós, enquanto grupo humano, precisamos conceder uma ajuda, uma facilitação, para que os ecossistemas degradados consigam expressar os mecanismos próprios de auto restauração. Então, a restauração ecológica, enquanto área da ciência, quebra a visão antropocêntrica em que o ser humano se coloca como o grande ator: ele é apenas um coadjuvante.

O que nós, restauradores e restauradoras, fazemos é interpretar qual é o nível, de qual é a qualidade e qual é a saúde que esse sistema ainda apresenta, mesmo depois de recuperado. Eu sempre faço analogia, nas minhas aulas, com a saúde humana. Os restauradores fazem exames, um raio-X do ecossistema, e descobrem como está a saúde dele. Se estiver ruim, é preciso aplicar mais remédio. Se ele ainda possuir capacidade de resiliência, aplica-se ‘remedinhos’ mais fracos.

Utiliza-se o conceito da psicologia da resiliência: a capacidade do sistema natural de conseguir reagir, mesmo após sofrer um distúrbioTrabalhamos com mecanismos naturais e tentamos chegar o mais próximo possível do que era o ecossistema – na composição da fauna, da flora, na produção de água e na qualidade do solo. No entanto, temos consciência de que uma vez degradado, nunca mais será igual ao que era antes. 

Outro diferencial da restauração ecológica que também fez com que eu me apaixonasse é por ser inclusiva.No conceito internacional, é ciência, prática e arte. A restauração é ciência porque se produz informações técnicas e científicas. É prática porque inclui todo o conhecimento ancestral das comunidades, como os povos originários, que souberam durante milênios conviver com aqueles ecossistemas sem degradar. E é arte porque, através da conservação dos ecossistemas e da restauração, se permite a expressão cultural dos povos. 

Atualmente, em nível mundial, inclui a valorização do conhecimento ancestral dos povos originários, possui o debate de gênero – a questão das lideranças femininas rurais – e da comunidade LGBTQIAP+. Tudo isso é trabalhado nos congressos, nos fóruns internacionais e nacionais. 

No Neprade, trabalhamos com pequenos produtores e temos um projeto dentro das tecnologias sociais – as quais  são adaptadas à realidade de grupos sociais que não têm acesso ao desenvolvimento tecnológico convencional. Também promovemos a agrofloresta – uma alternativa que combina várias espécies, como frutíferas e madeireiras, para cultivo e, assim, reduz a dependência de insumos externos – com pequenos produtores em Faxinal Soturno, Agudo e Dona Francisca. Ainda, temos outro projeto em prática, desde 2017, com assentamentos da reforma agrária e com a agricultura familiar no bioma pampa.

ARCO – Em relação ao prêmio, poderia comentar sobre a importância dele para sua carreira?

Estou muito grata, pois não sabia sobre a indicação. Uma noite, recebi uma ligação da jornalista da Fapergs e não entendi o que estava acontecendo. Ela contou que o comitê faz a análise de nomes de empresas e de personalidades do Rio Grande do Sul para a premiação e, a partir disso, eles concluíram que eu cumpria todos os requisitos.

Então, ganhei na categoria “Preservação Ambiental”, e passou um ‘filmezinho’ na minha cabeça com a minha trajetória. Não tem como uma pesquisadora na área das Ciências Agrárias não ficar feliz – já que, nas edições anteriores, predominavam homens nas categorias. Além disso, se eu consegui atuar, é porque tive todas essas parcerias, todos os alunos do Neprade.

Quem trabalha com a questão ambiental e com a restauração ecológica atua porque tem paixão. E o prêmio é um reflexo desse esforço coletivo. Acima de tudo, quem ganha é a UFSM, pois permitiu dar vazão ao meu eu de 12 anos de idade. Precisamos valorizar as universidades públicas, são elas quem produzem a ciência no Brasil.

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