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EDUCAÇÃO. Ser um professor na pandemia e o impacto que há na saúde mental dos profissionais

Projeto de Extensão desenvolve ações com foco na saúde mental dos docentes

Por Eduarda Paz (com Ilustração de Yasmin Faccin) / Da Revista Arco/UFSM

A jornada de trabalho de um professor não acaba junto ao término do expediente. Preparar materiais, corrigir provas e organizar os conteúdos das disciplinas são apenas alguns dos afazeres para além do espaço físico da sala de aula. Além disso, os baixos salários, os parcelamentos, a carga horária excessiva e os ataques referindo-se aos professores como ‘doutrinadores’ são questões que afetam tanto a vida pessoal, quanto a saúde mental dos profissionais.

A pandemia da Covid-19 somou-se aos desafios enfrentados pelos professores. Assim como para os alunos, a sala de aula teve de ser substituída pelo escritório, pelo quarto ou até mesmo pela cozinha dos docentes. Com o distanciamento social, as adversidades aumentaram: a falta de recursos para ministrar aulas remotas; a sobrecarga de trabalho – pela necessidade de auxiliar alunos nas redes sociais após o fim do expediente; o uso excessivo de telas e, em alguns casos, a dificuldade para utilizar as plataformas digitais. Tudo isso aliado, possivelmente, à preocupação de perder o emprego – como é o caso de docentes de escolas privadas – e também a problemas financeiros familiares decorrentes da pandemia.

Foi a partir desse contexto e das suas consequências na saúde mental dos profissionais da educação que a professora Naiana Dapieve Patias, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e Elenise Abreu Coelho, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSM, desenvolveram o projeto de extensão “Trabalho e saúde mental dos professores durante e após a pandemia de Covid-19”.

A iniciativa surgiu a partir das mudanças ocorridas no projeto de pesquisa da Elenise em decorrência da pandemia. A investigação agora consiste em avaliar as características de trabalho dos docentes relacionados à saúde mental – sobretudo, com a síndrome de burnout ou síndrome do esgotamento profissional, um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físicoA pesquisa foi desenvolvida por meio de uma coleta online em nível estadual com professores da rede básica – que engloba a educação infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio.

A mestranda comenta que, ao aprofundar-se no assunto, percebeu a necessidade de um espaço de escuta e de fala para os docentes. Diante disso, o projeto começou a realizar rodas de conversas de forma online, focado no tema “ser professor(a) durante a pandemia: desafios e possibilidades”, sendo uma forma de acolhimento para os profissionais.

Espaço de escuta e acolhimento

As ações, que seguem até hoje no formato remoto, começaram a ser colocadas em prática em dezembro de 2020. As atividades são desenvolvidas na plataforma Google Meet, com escolas que manifestem interesse em participar do projeto. Diante disso, duas instituições, uma da rede pública e outra da rede privada, de duas cidades da região central do estado do Rio Grande do Sul já participam das ações. Abrangendo 15 profissionais da educação infantil ao nono ano do fundamental, sendo 12 mulheres e 3 homens. 

O projeto possui duas fases: a primeira já está acontecendo por meio das rodas de conversa e a segunda consiste na realização de grupos com professores a partir de encontros temáticos estruturados com base nas principais demandas apresentadas. Elenise relata sobre a primeira roda de conversa e o quão importante foi escutar os docentes, “muitos deles comentaram sobre a questão da volta às aulas, como ninguém escutou a opinião deles. Então, a nossa ideia é justamente proporcionar esse espaço de escuta e de acolhimento”.

O artigo “Saúde mental docente e intervenções da Psicologia durante a pandemia” de autoria de Elenise e de Naiana, em conjunto com Ana Claudia Pinto da Silva e Tais Barcellos Pellegrini, apresenta diversas questões apontadas pelos docentes nas rodas de conversa, realizadas nessas duas escolas. Nesse sentido, aspectos como a adaptação às aulas remotas, a relação com a família dos alunos, a transformação do domicílio em espaço de trabalho e as implicações na saúde mental são alguns dos fatores destacados pelos profissionais.

Diante disso, vale ressaltar as diferentes demandas entre escolas públicas e privadas. Na rede pública, a sobrecarga dos docentes somou-se à preocupação e ao sentimento de impotência em relação às dificuldades de acesso dos estudantes às aulas online. A vulnerabilidade social já era existente, mas foi ainda mais exposta pela pandemia e não afetou apenas o ensino-aprendizagem dos alunos em decorrência da falta de recursos tecnológicos: a alimentação de qualidade é um fator importante para o desenvolvimento intelectual. Com as escolas fechadas e a crise econômica do país, a insegurança alimentar tem se destacado entre os fatores de disparidade social.

Durante as conversas, Elenise ressalta que as professoras perceberam quando alguns familiares iam até a escola para retirar o material dos filhos com o intuito de saber se não havia distribuição de cestas básicas. “Quando falamos da profissão docente, estamos nos referindo a uma profissão com componente afetivo e relacional muito forte – entre professor e aluno. Então, quando falamos no contexto pandêmico – com as desigualdades socioeconômicas -, isso também gera um desgaste muito grande para o professor”.

Já na instituição privada, foi ressaltada a alta exigência das famílias dos estudantes em relação às atividades escolares, junto com a falta de compreensão da realidade de cada profissional. Todavia, é apontado também que o contexto permitiu aos docentes conhecer o dia-a-dia das famílias, proporcionando um entendimento maior sobre cada aluno…”

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