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ESPORTE. Representatividades negra, feminina e LGBTQI+ levam pautas políticas para competições

Eurocopa e Olimpíada são exemplos. Inclusive da exposição dos preconceitos

Por Bernaro Salcedo (com Arte de Noam Wurzel) / Da Revista Arco/UFSM

O ano de 2021 entrará para a história do esporte não só pela realização da Eurocopa e das Olimpíadas, adiadas em 2020 devido à pandemia, mas também por questões e bandeiras levadas por atletas que vão muito além das fronteiras de suas modalidades e de seus países. As edições de ambas competições refletem o aumento da diversidade.

A Eurocopa, disputa entre seleções europeias que ocorre a cada quatro anos, já havia atingido um marco histórico na sua penúltima edição, em 2016. A final entre Portugal e França contou com mais jogadores de origem africana do que europeia. Dos 22 jogadores que iniciaram a partida, 12 eram negros. Ao somar os reservas, o número sobe para 15 dos 28 atletas que participaram da partida. Éder, nascido em Guiné-Bissau, saiu do banco de reservas para entrar para a história com seu gol, marcado durante a prorrogação, que rendeu à seleção portuguesa o primeiro título.

Nesta edição do campeonato europeu, 15% eram imigrantes ou filhos de imigrantes, o que tornou este torneio o mais diverso até então. Outro fator que marcou a 16ª edição da Eurocopa foi o aumento do protagonismo de jogadores negros nas principais seleções. Dos cinco times campeões do Velho Continente da Copa do Mundo, três tinham atletas negros com a camisa 10. Kylian Mbappé (França), Raheem Sterling (Inglaterra) e Leroy Sané (Alemanha) usaram o número reservado ao principal jogador do time.

A final de 2021 do Mundial não bateu o recorde da edição anterior, mesmo assim foi multicultural. Pela seleção inglesa, cinco jogadores negros, entre titulares e reserva, participaram da partida. A campeã Itália, por sua vez, tinha em seu elenco três jogadores nascidos no Brasil. Rafael Tolói, Emerson Palmieri e, principalmente, Jorginho foram peças importantes da campanha que rendeu o bicampeonato para a Squadra Azzurra.

Os Jogos Olímpicos de Tóquio trouxeram mais do que aquilo que o público espera do evento mais importante do esporte, como os melhores atletas e histórias que serão lembradas por gerações. O maior legado não foram as estreias bem sucedidas do surf e do skate, mas sim a maior diversidade já vista em uma Olimpíadas. Segundo levantamento do site Out Sports, 183 atletas LGBTQIA+ participaram da última edição das olimpíadas. O número é três vezes maior que o recorde anterior, dos jogos de 2016 no Rio de Janeiro, que contou com 56 atletas.

Se fossem uma delegação, os atletas LGBTQIA+, com 11 medalhas de ouro, 12 de prata e 9 de bronze, ficariam em sétimo lugar no quadro de medalhas. Estariam à frente de países como Holanda, Alemanha, França, Itália e Brasil – que fez sua melhor campanha em uma olimpíada, com 7 medalhas de ouro, 6 de prata e 8 de bronze. A edição também foi a que contou com maior participação feminina, que correspondeu a 48,9% do total de atletas. A marca deve ser superada em breve, já que a previsão é que a edição de Paris, em 2024, seja a primeira com representação igualitária entre mulheres e homens.

Política e esporte: juntos e misturados

As manifestações políticas no esporte começaram a se intensificar no ano de 2020, muito por influência do movimento Black Lives Matter (BLM) – que surgiu em 2013, nos Estados Unidos, com o objetivo de combater a supremacia branca, e ganhou destaque com as mobilizações após George Floyd ser assassinado por um policial de Minneapolis, Minnesota.

Há quem não goste desses atos por acreditar que “política e esporte não se misturam”. Neste sentido, pode-se citar a regra 50 da Carta Olímpica, que proíbe “qualquer tipo de manifestação ou propaganda política, religiosa ou racial em instalações olímpicas”.

Entretanto, por influência do aumento das manifestações políticas nas mais diversas modalidades esportivas, o Comitê Olímpico Internacional (COI) flexibilizou a norma e passou a permitir atos políticos nos ambientes desportivos e antes do início das competições. Por outro lado, as manifestações no pódio – como os punhos erguidos de Tommie Smith e John Carlos em referência aos Panteras Negras nas Olimpíadas de 1968 – seguem proibidas.

Rubens Guilherme Santos, estudante de Jornalismo e integrante do Ponta de Lança, portal de notícias focado no esporte, cultura e política no continente africano, destaca a importância de desconstruir a ideia de incompatibilidade entre esporte e política. “O esporte é mais um espaço de interação/disputa social e política da sociedade”, argumenta.

A própria história brasileira reforça que a separação entre esporte e política não passa de um mito. Muito antes de os atletas usarem o esporte como espaço de atos políticas em prol da igualdade, políticos já o usavam em manifestações a favor de seus próprios interesses. “As pessoas querem que os esportistas sejam apolíticos, falam que futebol, política e religião não se misturam, mas essa aproximação é histórica. A Era Vargas e a ditadura civil militar, por exemplo, se aproveitaram do esporte para conseguir alavancar os seus objetivos políticos”, explica Taiane Lima, mestranda do Programa de Pós-Graduação em História da UFSM.

Mesmo assim, atletas que ousam cruzar a fronteira ou reagir a uma injustiça podem sofrer por isso. Um exemplo trazido por Taiane é o de Taison, jogador do Internacional com passagem de 11 anos pelo Shakhtar Donetsk da Ucrânia. No clássico ucraniano entre Shakhtar e Dínamo de Kiev, parte da torcida adversária proferiu insultos racistas ao atleta, que reagiu e foi expulso. Além da suspensão automática gerada pelo cartão vermelho, a Associação Ucraniana de Futebol puniu Taison com um jogo de suspensão. “Ele foi punido, não as pessoas que praticaram o ato racista”, destaca.

Para Taiane, o atleta não deve deixar de se posicionar por medo de críticas ou punições, já que sua influência pode ajudar a chamar a atenção do público para causas importantes. “Esporte e política se misturam sim e essas pessoas têm relevância, elas não são alienadas, elas precisam se posicionar. Sempre terá alguém para criticar, dizer que não pode. Mas outras pessoas irão perceber e olhar com mais atenção para essas pautas”, defende.

Unidos até que as derrotas os separem

O estudante Rubens explica que a maior parte dos atletas que representam as seleções europeias são da segunda ou terceira geração de imigrantes africanos no continente. As dificuldades enfrentadas pelas suas famílias, como ausência de políticas públicas que lhes assegurassem direitos básicos, além da resistência em reconhecer os filhos de imigrantes como cidadãos europeus, tornaram o esporte a única ferramenta possível para ascender socialmente. “O futebol passa a ser um ambiente de inclusão de jovens em busca de superar as adversidades da vida”, observa.

O talento desses jogadores que viam no futebol a sua única chance de conseguir uma vida melhor passou a auxiliar os clubes europeus. Não demorou muito para que esses atletas fossem incorporados às seleções. “A diversidade étnica propiciou o ápice de muitas seleções de futebol. O caso mais conhecido é o da França”, afirma Rubens. 

No final da década de 1990, surgiu a geração mais vitoriosa da história da seleção francesa até o momento. Pela diversidade étnica de seus jogadores, a equipe ficou conhecida como “black-blanc-beur” (negra, branca e árabe). Em 1998, o time conquistou o título inédito da Copa do Mundo. Dois anos depois, os bleus conquistaram o bicampeonato da Eurocopa. Essa geração foi tão bem sucedida que se tornou propaganda de uma França multicultural. Em 2018, a seleção francesa voltaria a conquistar o mundial, com um time que conseguiu ser mais multiétnico. Dos 23 jogadores convocados, 14 tinham ascendência africana. 

A história no esporte também é feita de derrotas. E quando uma seleção multirracial é derrotada, logo surgem aqueles que apontam a diversidade como problema. “A atribuição de fracassos e reveses a atletas negros e negras infelizmente é comum no futebol, espaço que, muitas vezes, serve de descarrego de preconceitos”, afirma Rubens.

Nem mesmo a geração francesa de 1998 escapou disso. As campanhas sem título da seleção, somadas à forte polarização presente nos debates sobre migração na Europa, fizeram com que as tensões raciais ressurgissem rapidamente e com força na França. 

Talvez o caso mais conhecido pelos brasileiros seja o de Moacyr Barbosa na Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil. Dias antes da final contra o Uruguai, o país todo comemorava o título antecipadamente. Na final, a seleção saiu na frente, parecia confirmar o que todos achavam saber. A seleção uruguaia fez o gol de empate, mas o clima ainda era de festa, o resultado dava o título para o Brasil. Porém, aos 34 minutos do segundo tempo,  a seleção uruguaia conseguiu virar o jogo e calar os 200 mil espectadores presentes no estádio do Maracanã, construído especialmente para a competição. O fatídico episódio ficou conhecido como Maracanaço.

Barbosa, homem negro, era goleiro da seleção brasileiro e foi eleito como o culpado pela derrota. Ao falar sobre o ostracismo ao qual foi condenado pela derrota, o ex-goleiro disse: “No Brasil, a pena máxima (de prisão) é de 30 anos, mas pago há 40 por um crime que não cometi”. Barbosa carregou esse fardo por quase 50 anos, até sua morte em 2000.

No entanto, Barbosa não foi o único a sofrer as consequências do racismo. Após a derrota, criou-se a crença de que pessoas negras não servem para jogarem em posições defensivas. “Há poucos goleiros negros, poucos zagueiros negros, porque, quando se precisa de confiança, parece que o jogador negro ou a jogadora negra não é adequado. Então a gente percebe que esse acontecimento da copa de 1950 impacta até hoje”, pondera Taiane.

Até hoje, as derrotas são catalisadoras do racismo. A final da Eurocopa de 2021, que foi decidida nos pênaltis, é um exemplo. Após o final do jogo, torcedores ingleses lotaram as redes sociais de Jadon Sancho, Marcus Rashford e Bukayo Saka com ofensas racistas pelos pênaltis desperdiçados na final. Algumas ofensas diziam para que os jogadores, que ajudaram a levar a seleção inglesa para sua primeira final em 55 anos, fossem embora da Inglaterra e voltassem para a África.

A questão da representatividade

Daiane dos Santos, que, em 2003, tornou-se a primeira atleta brasileira a ser campeã mundial de ginástica e a primeira mulher negra a ganhar uma medalha de ouro na modalidade, viveu um dos momentos mais marcantes das Olimpíadas de Tóquio. Como comentarista de ginástica, ela contou como sofreu com o racismo e a segregação enquanto competia. Outros atletas da seleção se recusaram a usar o mesmo banheiro que ela, por isso havia um banheiro para os atletas brancos e outro para ela.

O momento de maior emoção para a ginasta foi quando Rebeca Andrade conquistou a primeira medalha olímpica feminina para o Brasil. A atleta sempre foi fã de Daiane e tinha ela como referência. Ao presenciar a vitória de Rebeca, aos prantos, Daiane lembrou que a primeira medalha de ouro em mundiais do Brasil na ginástica, entre homens e mulheres, foi conquistada por ela, uma mulher negra. Agora, mais uma vez, uma mulher negra levou a primeira medalha brasileira na ginástica olímpica. “Diziam que a gente não podia estar nesses lugares”, recordou.

Uma das principais formas de se perceber o racismo é por meio das ausências, entre elas a falta de referência de pessoas negras tanto na mídia quanto no esporte. “A grande questão da representatividade é se olhar nas diversas modalidades do esporte e não se enxergar. Parece que é um esporte apenas para pessoas brancas. Ainda mais quando se é criança e está desenvolvendo esta consciência”, explica Taiane.

No entanto, a historiadora adverte que é preciso mais do que referências para que uma pessoa negra possa se tornar medalhista olímpica. É preciso investimento, não apenas nos clubes que formam atletas, mas principalmente em comunidades mais pobres, que concentram a maior parte da população negra. Sem investimento, modalidades elitizadas continuarão praticamente inacessíveis para jovens negros e periféricos. Por mais que alguns consigam contornar as dificuldades, a diversidade nessas modalidades se torna a exceção, não a regra.

Rubens acredita que o esporte auxilia no combate de qualquer tipo de preconceito. Mas, para isso, é preciso que a diversidade vá além dos atletas, que, não raro, são vistos apenas como mão de obra para as conquistas desportivas. A diversidade deve se estender aos cargos políticos de entidades esportivas, espaços que pouco mudaram sua demografia ao longo dos anos. “Não é falta de interesse. É falta de oportunidade e discriminação”, conclui Taiane.

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