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A ida dos que não vieram – por Orlando Fonseca

Nesta semana, mais propriamente na quinta-feira, comemora-se o dia do Servidor Público. Chamo a atenção para a data, uma vez que a semana passada, em nossa cidade, foi de lamentação pela não vinda da ESA (Escola de Sargentos de Armas). Afora os 2 bi que seriam investidos na construção das instalações, para a economia de Santa Maria seriam os salários mensais de militares, professores, pessoal técnico e administrativo o que faria a diferença para uma nova etapa da vida financeira local. Houve um grande esforço do Poder Público para apresentar uma proposta qualificada e trazer a Escola de Sargentos, além de apresentar a capacidade já instalada, tanto em termos militares quanto em termos educacionais. No entanto, a ESA foi para Recife. E isso é algo para se pensar, não apenas nesses dias de ressaca, e com a perspectiva necessária para se vislumbrar a cidade que queremos. Não apenas em termos de empreendimentos, mas acima de tudo, de cidadãos – empreendedores ou não.

Está na história de formação da nossa cidade, tivemos até o momento dois influxos econômicos que deram suporte ao desenvolvimento e constituíram a feição que apresentamos hoje. Primeiro, ainda ao final do século 19, com a chegada da ferrovia, das oficinas, dos engenheiros, técnicos e pessoal administrativo. O parque ferroviário nos legou escolas, uma grande cooperativa, a Vila Belga e a possibilidade de crescimento cultural que houve por aqui na primeira metade do século 20. Pela Gare chegaram espetáculos, produtos para o comércio local e a necessidade de um novo desenho urbanístico. Caso a linha férrea não passasse por aqui, com toda certeza a cidade estaria condenada a ficar estacionada no tempo, como uma pequena localidade no coração do Estado.

Com a decadência do transporte ferroviário, ainda na década dos 1950, pela opção do governo federal por incrementar o uso das vias rodoviárias, a cidade estaria na iminência de ver o progresso à distância. Graças ao esforço de Mariano da Rocha, implantou-se aqui a primeira Universidade Federal fora das capitais. Com isso, a cidade ganhou um novo impulso para crescer, e o resultado vemos hoje com o número de instituições de Ensino Superior, com uma circulação de estudantes que movimentam a economia, não apenas no setor educacional – ensino fundamental e médio e cursos preparatórios – mas também nos setores imobiliário, comercial e de lazer e cultura.

No caso da UFSM, durante décadas o setor financeiro vê chegar, todo mês, um aporte considerável de recurso, que tem sustentado o setor do varejo, de supermercado, e enfim, 25% do PIB local é composto com salários de servidores federais, apenas da Universidade Federal, que se somam a tantos outros de organismos federais. Se colocarmos os servidores do Estado, entre professores e agentes públicos dos vários órgãos instalados aqui; os militares das 22 unidades do exército e da Base Aérea, vamos perceber o quanto é significativo para a economia santa-mariense a remuneração dos servidores públicos.

A mim chamou a atenção o movimento para a vinda da ESA, pela surpresa de ver entre os que levantaram esta bandeira, muitos que reclamam do “tamanho do Estado”, da necessidade de “enxugar a máquina”, e que criticam as mobilizações de seus servidores, quando reivindicam melhores salários. A verdade é que se trata de uma falácia que o Estado tem excesso de servidores, na comparação com outros países mais desenvolvidos (da mesma forma que não é verdade que temos a maior carga tributária do mundo). Não desconheço que há falhas estruturais, no entanto, é graças aos servidores públicos que a máquina pública ainda não foi à bancarrota. Estão aí, na história, os exemplos de aventuras e tragédias na gestão de políticos que levaram o país á beira do abismo. Temos esta semana para aqueles que se lamentaram da ida para Recife dos que não vieram para Santa Maria, lembrarem da importância vital que os servidores públicos – e suas remunerações – têm para com a nossa cidade.

*Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

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5 Comentários

  1. Servidores públicos fazem greve ‘duela a quem duela’. Justificativa são problemas dos servidores, o que é normal. Porem falta o ‘acha que seu trabalho não esta sendo valorizado no setor público? demita-se e va para a iniciativa privada’. E raro mas acontece. Alás, arrisco dizer que podem quintuplicar os salarios no setor publico, qualidade dos serviços não se alterariam. Há um problema ideologico e cultural. ESA. Formam-se perto de 1100 sargentos por ano. AMAN perto de 440 novos oficiais. Efetivo superior a 200 mil. Temporarios ocupam a maior parte das vagas. Alás, pessoal de carreira anda abandonando o barco. Alguns para empreender, outros para outro emprego público e até para emprego de carteira assinada (engenheiros, pessoal de tecnologia da informação, etc). Ao contrario do que pensam os Cabeça de Abobora Brasil precisa de forças armadas e neste setor não tem como ser mais enxuto. Costa Rica tem menos da metade da população do RS e 18% da área.

  2. Na iniciativa privada greves não são comuns. Passaralhos são. Se um funcionário pede aumento geralmente vem a questao ‘o que voce acha que esta fazendo mais ou melhor para merecer a majoração?’. Ou seja, produtividade. Não é maldade, o(a) empresario(a) sabe que não cai do ceu. Nesta hora a solução magica dos imbecis aparece ‘é so pagar mais, trabalho é pouco valorizado no pais’. Por isto que em muitas familias pais afora os dois conjuges trabalham durante a semana e fazem bico informal nos fds e/ou têm empresa por fora. CLT é coisa da Globo.

  3. Comparação com paises desenvolvidos ja é falacia. Comparação correta é com a iniciativa privada. Antes que alguem fique ‘alegrinho’, dados do IPEA não são confiáveis desde os governos petistas, instituição foi aparelhada. Porem é possivel tirar conclusões com dados indiretos. Jornada de trabalho dos servidores são 40 horas semanais no geral. Aqui fora são 44. Ferias aqui fora são 30 dias. E nas IFES? Durante a pandemia qual setor aderiu mais ao teletrabalho? Dizem que o setor publico vence na proporção quase de tres para um. Salarios para a mesma função são maiores na media no setor publico. Lista é longa. População esta insatisfeita com a qualidade do serviço publico que enxerga. Tem ideia do resto. Olha o noticiario e ve rodovias inteiras reparadas do dia para a noite no Japão. E uma escola semanas sem energia por conta de um transformador/poste.

  4. Os 25% não correspondem a verdade. Circulam por ai faz tempo e a fonte é desconhecida. Não confundir com orçamento. Indiretamente é possivel constatar isto. Tal parcela do PIB municipal equivaleria a quase o dobro do orçamento da UFSM. Mais, Passo Fundo tem PIB superior ao da aldeia e o valor agregado bruto no setor de serviços daquele municipio é superior ao da aldeia em pouco mais de 16%. Obvio que algo esta errado.

  5. Nao adianta ficar repetindo à exaustão o que todos já sabem (ao menos os que se interessam). Ciclo da ferrovia ficou para trás. UFSM, instalação, idem. Alás, problema da indução, todos assumem na aldeia que a universidade sempre tera a relevancia economica e/ou a mesma so ira crescer. Otimismo exacerbado. Uma hora o ensino a distancia, a curva demografica e o’Uber educacional’ irao bater na porta.

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