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Cortes – por Orlando Fonseca

Corte na carne é um termo usado, tanto por gestores – da esfera pública ou da iniciativa privada – quanto por comentaristas da área econômica. Na verdade, porém, com o fantasma da inflação mostrando sua cara cada vez mais ostensivamente – já estamos à beira de dois dígitos – quem sabe mesmo disso é o povo pobre. Aliás, segundo se pode conferir nos noticiários, ou nos mercadinhos da periferia das grandes cidades brasileiras, para esta camada da população, já tem só o osso para cortar. Mas o que chama mesmo a atenção do leitor, minimamente atento, neste Brasil decadente, são os cortes de verbas em setores cruciais para a retomada do desenvolvimento no país. Como é o caso do anúncio feito semana passada, tirando um naco da carne – já desmilinguida – do Ministério da Ciência e Tecnologia. Como vamos sair do buraco? Para ter luz no fim do túnel ou se acredita em um milagre – cada vez mais difícil – ou se providencia uma rede elétrica eficiente, o que significa suficiência em tecnologia. Sem verbas?

É irônico, para não dizer cômico, pois o ministro astronauta – melhor seria informar que o ministro tem se mantido no espaço, onde fazia mais sucesso – havia pedido aumento de verbas, em live com o presidente da República (eleito democraticamente por vocês), no dia anterior ao anúncio da tesourada fatal do pessoal do Guedes. Como já tínhamos observado, desde o início deste (des)governo, a área da pesquisa vem sofrendo duros golpes. E agora teve 87% da sua verba cortada, o que deixa na mão milhares de pesquisadores que contavam com os recursos para continuar estudos nas mais diversas áreas. Essa decisão do Ministério da Economia fez com que o orçamento da pasta científica caísse de R$ 690 milhões para apenas R$ 89 milhões.

Alguns adoradores de mito hão de argumentar que é prerrogativa do gestor público dispor as verbas da melhor maneira, segundo o seu projeto (no caso, se é que existe algum). No entanto, o que me parece é que a gestão econômica e financeira do país segue uma cartilha negacionista, que prefere dar atenção a ilações sem fundamento, pesquisas sem método, procedimentos baseados tão somente no empirismo do senso comum. Isso, meus amigos, retira a importância da ciência, o que afeta diretamente as universidades públicas, nas quais se efetivam mais de 95% das pesquisas científicas no país. Ao subtrair recursos destinados a bolsas e apoio à pesquisa do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações, esse governo impossibilita projetos já agendados pelo CNPq. É para acabar com o progresso da ciência e retirar do projeto nacional os objetivos da inovação.

Para aumentar as ironias, no dia 26 de março deste ano, foi promulgada a lei que impede o contingenciamento de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Lei Complementar n° 177/2021, cuja finalidade é modernizar a gestão do Fundo e garantir que não haja bloqueios de recursos por parte da administração pública. Inclusive, o Congresso teve de derrubar veto presidencial a esta legislação. No entanto, por estas injunções que nós, os reles mortais, não entendemos, em função dos prazos, a aprovação do Orçamento 2021 foi feita sem a Lei ter sido validada, então seu conteúdo não consta na proposta aprovada, o que permitiu a brecha para a tesourada.

Em entrevista registrada pela mídia no final de semana, o ministro astronauta, Paulo Pontes, se disse chateado com o anúncio do corte, e declarou que pensou em deixar o cargo. Mas eu acho – apenas acho – que ele deixou de pensar faz tempo. Segundo suas próprias palavras: “Quando você lidera uma esquadrilha, tem de ir até o final. Vai ter dia bom, vai ter dia ruim, vai ter dia que você vai voar em céu de brigadeiro com a esquadrilha, e dia com antiaéreo. Tem que aguentar pelo bem da ciência.” Apenas uma observação, o termo correto não seria “quadrilha”? De corte em corte, nosso país vai ficando mais miserável, e mais ignorante.

*Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

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4 Comentários

  1. Resumo da ópera é mais do mesmo, tentam exacerbar os problema do governo como se fossem ‘maldades’. Utilizam a pandemia com fins eleitorais. Falam dos problemas da economia como se fossem ‘incompetencia/maldade’. Se o gasto publico financiado por divida explodir o dolar sobe e a inflação acompanha. Bom, há o ‘eleito democraticamente por vocês), autor acredita que a humanidade lhe deve satisfação! Kuakuakuakuakua! Quanta humildade! Kuakuakuakua! ‘Astronauta’ falou em ‘esquadrilha’. Quadrilha é coisa de presidiário, ex-presidiario, corruptos e ladrões. Kuakuakuakua!

  2. Há um aspecto positivo. Problemas do ministro astronauta são do ministro astronauta. Alás, Brasil estava no grupo de paises que contribuiria para a Estação Espacial Internacional. Foi excluido por falta de pagamento. ‘Governo’ de quem? E neste sentido existe muita coisa a ser explorada.
    Fundos viraram uma panaceia no pais. Geralmente falta dinheiro, sobra dinheiro ou é mal gerido. É o coringa politico, ‘vamos criar um fundo’. O fundo citado tem outras fontes de receita além das orçamentarias. CIDE, parcela de receitas das empresas de energia eletrica e royalties de petroleo,

  3. Onde foi parar o dinheiro? R$ 120 milhões vão para o Ministério da Agricultura, para fomento ao setor agropecuário; R$ 50 milhões, para o Ministério da Educação, para apoio à infraestrutura de educação básica; R$ 50 milhões, para o Ministério da Saúde, para ações de saneamento básico; R$ 100 milhões, para o Ministério das Comunicações, para iniciativas de inclusão digital;
    R$ 252,2 milhões, para o Ministério do Desenvolvimento Regional, para projetos de irrigação e qualificação viária, entre outros; R$ 28 milhões, para o Ministério da Cidadania, para projetos e infraestrutura de esporte e lazer. Para verificar a urgencia teria que ser analisado todo o orçamento. Obvio que vem o cliche ‘o futuro da ciencia no pais está ameaçado’, o futuro que nunca chega. Tecnoparque vai ser o novo Vale do Silicio.

  4. Corte na carne na iniciativa privada é passaralho. No setor publico existe estabilidade.
    Não existe dinheiro para tudo, recursos são limitados. Economia é isto, recursos limitados para necessidades ilimitadas. Simples assim. Na briga do orçamento quem não tem força não tem dinheiro. Quem não apresenta algo que possa render uma foto de poltico para angariar votos não tem dinheiro. Alás, resultado da pandemia, um deles, pessoal defendendo que a ciencia não é subjetiva, que não pode ser debatida, etc. E causidicos falando em ‘ciencia do direito’, onde tudo é subjetivo, existem ‘sempre duas visões’ (para os que ignoram a intervenção de terceiros). Muito engraçado!

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