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Christine de Pizan, precursora do feminismo – por Elen Biguelini

Chega ao fim um passeio pela obra dessa autora feminista do anos 1.400

A escolha de Christine de Pizan como objeto dos textos que aqui escrevemos surge da sua grande importância para a história do movimento feminista devido a seus textos que discutiam questões filosóficas referentes as mulheres, bem como sua participação na chamada querrelle des femmes, a questão das mulheres. Este era um debate entre algumas mulheres e homens sobre as capacidades femininas.

Durante o século XVIII, a querrelle des femmes tornou-se uma importante discussão filosófica, em especial devido à participação das mulheres nos salões franceses.

Christine as antecedeu por mais de um século, tendo levantado questões relevantes para este debate em diversos de seus textos.

Os textos de autoria de Pizan que são mais relevantes para este debate são:

Le Cité des dames (1404-405). A cidade das damas

Le livre des trois vertus à l’enseignement des dames (1405). O livro das três virtudes. Ou o Espelho de Cristina, tradução portuguesa de 1518

L’Advision Christine (1404). Os concelhos de Christine

Todos estes livros levam as discussões que iremos tratar agora. No entanto, para a análise, utilizaremos primeiramente a tradução portuguesa “A cidade das mulheres”, redigida por Ana Nereu, e publicada em 2007. Outra tradução desta obra é a versão brasileira  “A cidade das damas”, de Luciana Eleonora de Freitas Calado Deplagne, publicada em 2012 pela Editora Mulheres.

O livro da Cidade das Damas foi escrito como resposta direta as opiniões misóginas encontradas por sua autora. “Interrogava-me acerca das causas e das razoes que levavam tantos homens, tanto letrados como outros, a dizerem e a escreverem coisas tão horríveis sobre as mulheres e a sua conduta.” (NEREU, 2007,  6) ou “Perguntava-me quais poderiam ser as causas e motivos que levavam tantos homens, clérigos e outros, a maldizer as mulheres e a condenar suas condutas em palavras, tratados e escritos.” (DEPLAGNE, 2012, 58)

Cristina (o texto é escrito em primeira pessoa) é então recebida por três damas que lhe demonstram um mundo utópico regido por mulheres, e lhe apresentam nomes e acontecimentos que evidenciam o poder e a força feminina. Segundo Luciana Deplagne, especialista na autora e tradutora da obra que aqui analisamos, o utópico surge na obra da autora devido ao fato de que “a linguagem alegórica, que tem um caráter fundamentalmente didático busca, ao mesmo tempo, dar uma certa ilusão do real, travestindo-o, assim como pôr à vista o mundo real, através da valorização simbólica dos elementos alegóricos” (DEPLAGNE, 2012. 19).

Assim, por meio de uma utopia, a autora evidencia a forma como as mulheres eram desvalorizadas e diminuídas pela sociedade.

Ela rebate contra as ideias colocadas pelos filósofos homens através das três virtudes que a visitam. O texto relata algumas opiniões que lhe foram ditas por estas senhoras. Assim, utiliza a voz da razão, por exemplo, para dizer: “Os homens que, devido aos seus defeitos físicos e imperfeições, tais como impotência ou deformação de um membro, atacaram as mulheres, transformaram-se em pessoas azedas e possuem uma mente retorcida. (…) Os homens que difamaram o sexo oposto por despeito, geralmente conheceram mulheres mais espertas e virtuosas do que eles” (NEREU, 2007, 19).

Ela aproveita o debate, para exemplificar seus pontos por meio de um grande número de nomes femininos que comprovam a sua veracidade. Ela conversa diretamente com alguns autores homens, exemplificando porque eles estariam errados em suas opiniões acerca da feminilidade.

Pizan se adianta a Mary Wollstonecraft em vários séculos, afirmando na voz da Razão que: “Repito – e não duvides da minha palavra – que se fosse costume enviar meninas para a escola e ensinar-lhes todas as diferentes matérias que ensinam os rapazes, elas compreenderiam e apreenderiam as artes e as ciências com a mesma facilidade que os rapazes” (NEREU, 2017, 35). Assim, levanta uma questão que se tornou importantíssima para a primeira onda do movimento feminista, o direito feminino ao conhecimento, ao estudo. Uma temática que surpreendentemente é ainda relevante nos dias atuais, o que se comprova no rosto desfigurado de Malala, logo após ter sido atingida no rosto por um grupo de talibãs que se opunham a educação das meninas.

A questão da violência sexual contra as mulheres também surge na obra da autora italiana. Ela discorre sobre as mulheres fortes, que conseguem desvencilhar-se das armadilhas dos homens sedutores, que pretendem destruir aquela que é para a autora, e também neste período, a maior das virtudes femininas: a castidade. E também sobre os homens que as violam: “Logo, enraivece-me e aborrece-me que os homens afirmem que as mulheres querem ser violadas e que apesar de uma mulher rejeitar verbalmente um homem, ela de facto não se importa que ele se insinue pela força. Custa-me a acreditar que possa dar algum prazer às mulheres serem tratadas de forma tão vil.”  (NEREU, 2017, 99).

Esta fala poderia ser retirada de um poster durante uma passeata de atuais movimentos de mulheres, de uma Marcha das Vadias ou uma Marcha das Mulheres. Ainda hoje bravejamos que uma saia ou um vestido decotado não são convite para utilizar nosso corpo contra nosso desejo.

Outro pensamento da autora que se reflete por toda a história das mulheres se apresenta quanto dela defende seu sexo contra aqueles que as chamam de avarentas. Sendo que “estas se queixam dos maridos caprichosos e esbanjadores e lhes imploram que tenham mais cuidado com o dinheiro.” (NEREU, 2017, 119). Durante o século XIX, com o aumento das fábricas, muitos empresários burgueses logo descobriam que o salário de seus funcionários homens deveriam ser entregues em mãos femininas, para que não fossem gastos por estes com bebida, enquanto as esposas e filhos ficavam sem suprimento – ainda que durante o início da revolução industrial tanto mulheres quanto crianças ainda pequenas, também trabalhavam nas fábricas.

Ao longo de toda a discussão, a autora coloca a formação de um reino feminino, uma “Cidade das Damas”. É deste reino que surge a utopia no texto, visto que, segundo Deplagne é justamente este local exclusivamente feminino, povoado por mulheres guerreiras, sábias, virtuosas de diversos locais e períodos, “funciona como uma crítica social, transgressão do status quo, negação dos valores misóginos da época”. (DEPLAGNE, 2012, 35).

Assim, este texto que foi escrito há tantos séculos passados, apresenta uma contemporaneidade surpreendente, mas ao mesmo tempo frustrante. Ao se deparar com questões que eram dignas de nota durante a idade média e que se repetem em pleno século XXI, somos tomadas por um desespero muito grande.

Mas ao mesmo tempo, o livro nos demonstra o quanto já foi alcançado e o quanto já caminhamos. O simples fato de podermos ler uma obra de autoria feminina já demonstra um grande avanço. Poucas mulheres tiveram acesso a obra de Pizan quanto esta escreveu. Poucas mulheres tiveram acesso a escrita quando ela escreveu.

Ainda que as discussões permaneçam cíclicas em pontos distintos, podemos afirmar que o caminho anda, talvez como que percorrendo uma elipse, que por vezes se encontra em uma curva ou outra, mas que ao todo anda vagarosamente em direção a uma sociedade mais como aquela em que sonhou Cristina.

Terminamos aqui nosso passeio na obra de Pizan. Recomendo a leitura de sua obra. Mas, para além disso, espero ter levantado um desejo de conhecer outras mulheres como ela, que conseguiram mudar o mundo.

PIZAN, Christine; DEPLAGNE, Luciana. Cidade das Damas. Florianópolis: Editora Mulheres, 2012.

PISAN, Christine de; NEREU, Ana. A cidade das Mulheres. S.l.: Coisas de Ler Edições, 2007

(*) Elen Biguelini é doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos, no Site.

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