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Começos e fins – por Orlando Fonseca

Muito a ver com o Natal próximo. E também com a Kiss e a busca por Justiça

Nesta semana, entraremos no último mês do ano. Nossa relação com o tempo, e sua passagem inexorável, tem lá suas relatividades – não explicadas por Einstein, bem entendido. Até porque, com relatividade, ele queria dizer outra coisa, se é que entendi. Mas não tenho explicação, por exemplo, para a impressão de que foi há poucos dias que desmontei minha árvore de Natal, guardando os enfeites em suas devidas caixas.

Nesta quarta-feira, dia primeiro de dezembro, volto a elas como se tivesse feito a mesma coisa semana passada. É como se o tempo tivesse bugado, ali de agosto em diante, e demos um salto para agora – mesmo que eu possa arrolar muitos acontecimentos particulares, mês a mês, desde lá. Vai saber, com os dias e meses durante a pandemia, nossa cabeça deu nó, em termos de calendário.

Por outro lado, nesta semana também tem início o julgamento do Caso Kiss. Nesse particular, parece que o tempo andou vagarosamente, desde aquele fatídico 27 de janeiro de 2013. E isso carrega o peso de que a necessidade de justiça se sobrepõe a todas as impressões que se possa ter, devido ao tempo que demora em trazer alento para sobreviventes e familiares de vítimas. Então, começa o fim do ano e o fim da espera pela reparação.

É mais interessante que, no caso da Kiss, todos que estavam em Santa Maria, naquela madrugada, se lembram do que estavam fazendo e como viveram as primeiras horas daquele dia trágico. De como foram acordados, durante a madrugada, com a profusão de sirenes nas ruas, os rádios ligados em alto volume (e o sol ainda nem tinha saído), suficiente para todo mundo ouvir a narração daquelas notícias aterradoras.

O tempo do judiciário, no entanto, tem outros mecanismos, e se move à sua maneira, isenta do relógio emocional de cada um dos afetados diretamente com a tragédia. Ponteiros que giram impassíveis e soberanos, para dar uma hora que não chega. Isso certamente contribuiu para retardar a cicatrização de feridas abertas com uma violência desproporcional. O certo é que a nossa cidade ainda não se recuperou daquele susto e das consequências do incêndio que ceifou a vida de 242 jovens.

Diz-nos a máxima de Rui Barbosa, justamente em uma obra dirigida à juventude – Oração aos moços – que a “justiça atrasada não é justiça; senão injustiça qualificada e manifesta”. Entretanto, quanto de tempo se pode considerar de atraso, em um caso dessa magnitude? Em se tratando de tempo, como já afirmei acima, sem levar em consideração a teoria einsteiniana, mas tão somente o nosso relógio particular das emoções, é difícil falar de lógica.

No entanto, esta nos faz crer que a justiça se faz na celeridade. E isso não apenas se refere aos profissionais do Direito, mas também aos agentes públicos, aos legisladores, para que se dê, respeitado o devido processo legal, o favorecimento de seu rápido e bom desempenho.

Leis foram criadas a partir do episódio nefasto da boate e maior cuidado dos empreendedores culturais com a segurança, mas, diante da espera dos pais das 242 vítimas e dos 636 sobreviventes, já por mais de 8 anos, a falta de condenados por tanto tempo provoca a incômoda impressão de impunidade, por decurso de prazo. E ainda pesa a suspeita de que nem todos os responsáveis pelo evento trágico estão sentados nas cadeiras dos réus.

Enfim, é a vida, e precisamos nos apegar naquilo que traz paz e alegria para o nosso espírito. O fim do ano chegou, ao que tudo indica, mais rápido do que deveria, e o fim da agonia dos que esperam por justiça, no caso Kiss, também se aproxima de um desfecho. Muito do que está implícito, tanto na preparação para os momentos de leveza natalina, quanto do que se seguirá ao longo do tribunal do júri, em Porto Alegre, tem marcas do imponderável, do inexplicável.

A cada um compete lidar com o seu destino, e o que resta a nós, sobreviventes – da pandemia, da tragédia da Kiss, dos desgovernos, do aquecimento global, da economia claudicante – é celebrar os encontros, as lembranças, a condição de não sermos únicos, mas uma fração de humanidade que se esforça para se elevar em direção à dignidade.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

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