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É forçar a barra afirmar que bolsonaristas e petistas se unem para criticar Moro – por Carlos Wagner

Se dois lados são contra um terceiro, isso não quer dizer que estejam unidos

As broncas do Jair Bolsonaro e do Lula com o ex-juiz Sérgio Moro são por motivos bem diferentes (Foto Reprodução)

Não precisou muito tempo para os noticiários destacarem nas manchetes que parlamentares bolsonaristas e petistas, e seus aliados, se uniram nas críticas ao ex-juiz federal Sergio Moro, da Operação Lava Jato, que se filiou ao Podemos na quarta-feira (10/11) e deverá decidir nas próximas semanas se vai disputar a Presidência da República ou uma vaga no Senado.

As manchetes não estão erradas. Realmente, os parlamentares dispararam contra Moro. Mas também não estão certas. Por quê? Devido à palavra “unem”, que foi usada pelos editores para atrair a atenção do leitor, já que até as pedras das ruas do Brasil sabem que bolsonaristas e petistas são adversários políticos que não andam na mesma calçada.

Na leitura do que os parlamentares dos dois lados falaram salta aos olhos que estão criticando Moro por motivos diferentes. É sobre isso que quero fazer uma reflexão com os colegas, em especial com os jovens repórteres que estão na correria das redações fazendo um monte de pautas na cobertura do dia a dia.

Vamos aos fatos. Mas antes uma explicação que julgo necessária para quem não é jornalista. Fazer o título de uma notícia não é uma tarefa fácil. O espaço para escrever é pequeno e a mensagem precisa despertar a atenção do leitor e convencê-lo de que ele precisa ler a notícia.

Não é por outro motivo que nas redações os jornalistas que sabem fazer títulos são tratados com respeito e admiração pelos colegas. E geralmente sempre tem um que paga a cerveja dele no boteco. Voltando aos fatos. A reflexão que estou fazendo com os colegas é sobre os tempos que vivemos.

Diferentemente de tudo que o bom jornalismo já enfrentou, hoje ele é atacado por uma máquina bem montada e lubrificada de fake news manejada por grupos políticos que lutam para dar a sua versão sobre os acontecimentos como se fosse a única verdade.

No caso das notícias sobre Moro, eles pegam a palavra “unem” e fazem um carnaval. Lembrem-se que há poucos anos o nosso problema nas disputas eleitorais eram os marqueteiros dos candidatos que distorciam as notícias. Isso hoje parece brincadeira de criança frente ao fogo pesado das máquinas de distribuir fake news.

As fake news estrearam na eleição de 2016 com o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano). A novidade foi importada e aperfeiçoada pelo então candidato a presidente Jair Bolsonaro, na campanha eleitoral de 2018. Eleito, Bolsonaro (sem partido) assumiu o mandato em 2019 e não desligou a máquina de fake news. Pelo contrário, a tornou um braço do seu governo.

Dentro desse contexto, o bom senso recomenda ao repórter que todo o cuidado é pouco. O ataque ao bom jornalismo estará na pauta dos candidatos porque virou moda atirar pedra na imprensa. Aliás, lembro aos colegas que no seu discurso no evento de assinatura da ficha ao Podemos, o ex-juiz Moro fez questão de defender a imprensa.

Não se iludam, colegas. Moro e o ex-procurador da República Deltan Dallagnol, durante a Lava Jato, usaram a mentira para manipular a imprensa. Tiveram sucesso porque usaram a concorrência entre nós pela manchete para publicar as suas mentiras e torná-las verdades perante a opinião pública.

Aprendi um negócio durante a minha carreira de repórter, que foi focada na cobertura de conflitos agrários, crime organizado na fronteira e migrações. Sempre que o jornalista trabalha em um ambiente de disputa ferrenha, como serão as eleições de 2022, cada palavra que ele escrever precisa ter o exato sentido do que queremos dizer.

É preciso fugir de textos dúbios, evitando expressões como “se acontecer” ou “supostamente”. E é proibido citar declarações de pessoas que tenham sido publicadas em sites e blogs desconhecidos sem antes checar a informação com duas ou três outras fontes nas quais confia. Se possível, entrar em contato com a própria pessoa e perguntar se ela falou aquilo mesmo.

Seja lá qual for o cargo para o qual Moro vai concorrer, ele tentará cavar uma trincheira entre Bolsonaro e o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) porque são os preferidos dos eleitores nas pesquisas.

Bolsonaro e Lula têm broncas diferentes com o ex-juiz. Lula foi condenado por Moro por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do apartamento triplex, em Guarujá, litoral paulista. A condenação foi confirmada em segunda instância e Lula foi preso (ficou 500 dias na cadeia) e não pôde disputar as eleições de 2018. Moro e Dallagnol manipularam o processo contra Lula e o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou a sentença. Lula tem contas a ajustar com Moro.

Bolsonaro também tem contas a ajustar com Moro. Mas por outro motivo. Moro abandonou a toga de juiz e aceitou o convite para ser ministro da Justiça e Segurança Pública. Levou para o governo muitos profissionais que faziam parte da força-tarefa da Lava Jato e o seu papel era mostrar para a opinião pública o comprometimento na luta contra a corrupção.

Incentivado por pesquisas que afirmavaM que ele era mais popular que o presidente, o ministro Moro resolveu peitar Bolsonaro no caso da indicação do diretor-geral da Polícia Federal (PF). O presidente queria indicar um nome que fosse da sua confiança porque tinha problemas com corrupção na sua família. Moro queria que continuassem no poder da PF seus delegados na Lava Jato.

Essa bronca da PF foi apenas a ponta de um iceberg de uma longa história de luta pelo poder no Ministério da Justiça e Segurança Pública entre ex-juiz e o presidente da República. Essa história ainda não foi contada. Só soubemos sua conclusão. No ano passado, Moro demitiu-se do governo e deixou o presidente agarrado no pincel. Bolsonaro tem contas a ajustar com Moro por motivos que desconhecemos a sua totalidade.

Seja lá qual for o cenário da disputa eleitoral de 2022, nós jornalistas precisamos usar as palavras certas para descrever os fatos. E refletirmos sobre os títulos que colocamos para evitar mal-entendidos. Conversei com um cientista social, amigo de longa data e uma pessoa muito bem informada e que tem vivência internacional na área.

Ele me chamou a atenção para um fato. A próxima disputa eleitoral vai acontecer em um ambiente que jamais os brasileiros viveram. Um desemprego que já atinge 20 milhões de trabalhadores (somando os que desistiram de procurar trabalho), uma inflação quase fora de controle (gasolina, gás de cozinha, eletricidade e alimentos com preços proibitivos), um número de pessoas que já soma milhares passando fome, uma crise sanitária que provocou mais de 600 mil mortos e sabe-se mais lá o que mais vem por aí.

Em um ambiente desses, falou em tom grave o meu amigo, “uma fagulha pode desencadear um grande tumulto, ao estilo do que aconteceu em 2013”. Que não seja um título malfeito de uma notícia.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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Um Comentário

  1. ‘Se dois lados são contra um terceiro, isso não quer dizer que estejam unidos.’ Quem escreveu esta frase pensou nela sozinho(a) ou teve ajuda? É uma perola. No mundo dos vermelhinhos tentam passar a narrativa de que Molusco com L. é ‘inocente’, ocorreu perseguição do juiz e do promotor e da midia. Se as provas do processo não tivessem sido divulgadas (fotos, pedalinhos, emails, etc.) e não houvessem delações premiadas (Odebrecht está enrolada em outros paises, no Brasil existe corruptor mas não corrupto) até colaria. Sem falar nas decisões em segunda e terceira instancia. Trouxas, desmemoriados à parte, estes engolem a ‘narrativa’. No mais, eleição está muito longe. Muita coisa pode acontecer, inclusive algum avião cair. Muito chute antecipado.

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