O segredo da Alemanha ou a arte de construir com as duas mãos – por Amarildo Luiz Trevisan
Lição: “a força de uma nação não se constrói a partir de uma única ideologia”

Em dezembro de 2023, a Alemanha ultrapassou o Japão e tornou-se a terceira maior economia do mundo. A notícia, veiculada amplamente pelos meios de comunicação, repercutia não apenas como um dado econômico, mas como um sinal inequívoco da solidez de um país que, ao longo do século XX, experimentou duas guerras devastadoras, a divisão territorial e ideológica, e a difícil tarefa de reconstrução nacional.
Ao chegar à Alemanha nesse mesmo mês, para uma breve temporada de intercâmbio acadêmico e cultural, uma pergunta me acompanhava desde o aeroporto: o que permitiu que um país em ruínas se reorganizasse a ponto de figurar entre os mais influentes do mundo em tão curto espaço de tempo histórico? Ao longo dos dias que estive em território alemão, busquei respostas em livros, museus, documentários, jornais e exposições.
Foi em Potsdam que encontrei um elemento central para essa reflexão. Em uma exposição sobre a reunificação alemã, deparei-me com documentos pouco conhecidos, que apontavam não apenas o protagonismo americano no pós-guerra, como costumam registrar os manuais escolares, mas também a surpreendente participação da União Soviética no processo. Uma das peças mais impactantes era uma carta aprovada por instâncias soviéticas, sinalizando apoio à unificação.
Mais surpreendente ainda foi compreender que, em 1990, no auge das tensões da Guerra Fria, dois projetos antagônicos – o capitalismo neoliberal e o socialismo de Estado – encontraram, não sem conflitos, uma fresta comum: um Estado que não pendesse nem para um extremo nem para o outro. Um ponto de equilíbrio que não se proclamava neutro por omissão, mas por convicção madura.
A reunião entre a Alemanha Ocidental e Oriental foi construída lentamente, marcada por debates intensos, sobretudo por se dar em pleno contexto da Guerra Fria. A conciliação entre dois modelos antagônicos – o liberalismo e o comunismo – exigiu uma decisão incomum: formar um Estado que não pendesse inteiramente nem para um lado nem para o outro. Um Estado que buscasse estabilidade a partir da neutralidade institucional, da racionalidade administrativa e da preservação do interesse público. Pela reconstrução com as duas mãos, ainda que cada uma venha de um corpo político diferente.
Esse espírito de pacto me remeteu a uma palestra proferida pelo professor Antonio Nóvoa na Universidade Federal de Santa Maria, quando foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa. Nóvoa falava sobre a experiência recente de Portugal, que vinha se destacando positivamente nas avaliações internacionais da educação. Segundo ele, tal avanço não era fruto de um governo específico, mas do compromisso contínuo de sucessivos governos – de diferentes espectros políticos – com uma política de Estado voltada à educação. Mudavam os partidos, mas o rumo era mantido.
A Alemanha e Portugal, em contextos distintos, oferecem uma lição comum: a força de uma nação não se constrói a partir de uma única ideologia, mas da capacidade de seus agentes públicos e privados de cooperar em torno de objetivos duradouros. O crescimento econômico e a qualidade educacional são efeitos de estratégias pactuadas, acima das disputas momentâneas.
Que o progresso duradouro não nasce de trincheiras ideológicas, mas de pontes silenciosas. Que a verdadeira política – a que transforma – não é a que brada mais alto, mas a que consegue reunir adversários em torno de um propósito que os transcende.
E que talvez o verdadeiro desenvolvimento comece quando abrimos mão de vencer o outro para, enfim, vencer juntos. E que a tal “neutralidade” do Estado, tão mal compreendida, não é ausência de convicção, mas escolha consciente de pôr o bem comum à frente do brilho dos próprios sapatos.
No Brasil, assim como em outros países profundamente polarizados, há dificuldade de construir esse tipo de consenso. A cada novo governo, políticas públicas são descontinuadas, reformas são revertidas, e a ideia de bem comum é frequentemente substituída por interesses próprios ou privados e de curto prazo.
E assim, seguimos escorregando nas calçadas esburacadas de nossos próprios preconceitos. Discutimos o lixo como se fosse metáfora moral, culpamos a esquerda pelo que não é de direita e vice-versa, e tratamos a crise da educação como herança de um inimigo imaginário – o comunismo. Sem contar que a fome e a violência não são discutidas a fundo, e sim se o Bolsa Família e outras políticas sociais acomodam ou não a população carente e faminta.
O resultado é uma cultura política fragmentada, incapaz de formular projetos consistentes para áreas essenciais como educação, saúde, mobilidade urbana e infraestrutura básica.
A crise educacional, por exemplo, não pode mais ser atribuída exclusivamente a ideologias específicas. Trata-se de uma crise de visão nacional, de compromisso e de continuidade. Falta ao país uma cultura de pactos duradouros, capaz de sustentar avanços independentemente de quem ocupa temporariamente o poder.
O caso alemão revela que a reconstrução é possível mesmo nos contextos mais adversos. Mas ela exige algo que está em falta em muitas democracias atuais: responsabilidade histórica, maturidade política e compromisso coletivo. A neutralidade institucional, nesse sentido, não significa falta de compromisso, mas capacidade de dialogar com os diferentes em nome de um bem maior.
Talvez essa seja a principal lição a tirar. O segredo da Alemanha (e também de Portugal, pelo menos na educação) não está apenas em suas fábricas, universidades ou eficiência burocrática, mas no pacto silencioso que tornou possível construir uma nação com os dois pés no presente e os olhos voltados para o futuro.
Quem sabe, um dia, em alguma exposição do futuro, possamos também nós apresentar documentos que digam: “aqui, neste ano, neste lugar, decidimos parar de puxar a brasa para o nosso assado e acendemos, juntos, a fogueira do bem comum”.
Nesse dia, talvez sejamos, enfim, um país reunificado. Não geograficamente, mas eticamente. Não ideologicamente, mas humanamente.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera. Os velhos morrem para que a humanidade possa ir adiante. Idéias furadas demoram um pouco mais para desaparecer.
‘Nesse dia, talvez sejamos, enfim, um país reunificado.’ Não existem atalhos no processo historico. ‘Revoluções’ geralmente acabam mal. Vide URSS. Vide Cuba e a falta de comida.
‘[…] “aqui, neste ano, neste lugar, decidimos parar de puxar a brasa para o nosso assado e acendemos, juntos, a fogueira do bem comum”.’ Não vai acontecer. Decisões são tomadas no topo e empurradas de cima para baixo. Até mesmo na esquerda, soviets, comissões, etc. só servem para ‘esquentar’ e dar uma aparecencia ‘democratica’ a algo que já foi decidido via ideologia ou ordem superior.
‘O segredo da Alemanha […]’. Alemanha que utilizam como ‘exemplo’ aqui não é o conto de fadas que pintam. Migração ilegal, impostos altos, Guerra da Ucrania, preço da energia. Quem faz mudança, troca de endereço, tem que avisar o poder publico em duas semanas sob pena de multa. Existem horarios onde não é permitido fazer barulho sob pena de multa. Incluindo usar o aspirador de pó. Diferenças culturais contam.
‘A neutralidade institucional, nesse sentido, não significa falta de compromisso, mas capacidade de dialogar com os diferentes em nome de um bem maior.’ Não existe neutralidade institucional. Este é um dos problemas. Universidades publicas são majoritariamente de esquerda. Justiça do Trabalho. Ministros do STF se comportando como senadores sem voto. ‘Poder moderador’.
Outro aspecto. Todo problema social, real ou imaginario, tem que ser resolvido pela educação. Que só da resultado a longo prazo. Pessoal não precisa sair da escola sabendo portugues e matematica, importante é que saiam ‘bons cidadãos’. Meio ambiente? Violencia contra mulher? Transito? Finanças pessoais? Politica? Crime? Solução fácil, simples, tendo em vista a complexidade errada, é a educação. Virou chavão. Coisas de burocratas. Exime muita gente de responsabilidades.
‘[…] culpamos a esquerda pelo que não é de direita e vice-versa, e tratamos a crise da educação como herança de um inimigo imaginário – o comunismo.’ Não é imaginário. Venezuela, Nicaragua, China, quem são os ‘amigos’ do governo atual? O anti-americanismo vem de onde? O papo de ‘igualdade’, a prioridade maxima para minorias, o discurso de ‘coletivo’ a toda hora, os empresários ‘malvadões’, a lista é enorme. Crise na educação tem causas bem definidas, ‘coitadismo’, aumento do acesso sem preocupação com qualidade (distribuição de diplomas), setor colocado na mão de burocratas que tem mentalidade de 60 anos atras. Problema nenhum, padrão brasileiro, ‘deixa cair de podre e depois a gente vê’.
‘No Brasil, assim como em outros países profundamente polarizados, há dificuldade de construir esse tipo de consenso.’ Polarização não é só ferramente politica, é sintoma de outras coisas.
‘[…] sobre a experiência recente de Portugal, que vinha se destacando positivamente nas avaliações internacionais da educação.’ Portugal esta na media dos paises da OCDE na prova do pisa. No TIMSS de 2023 19% dos alunos do 8º ano ficaram abaixo do nivel minimo e 10% ficaram abaixo do minimo em ciencias. Onde está o destaque?
‘A reunião entre a Alemanha Ocidental e Oriental foi construída lentamente, marcada por debates intensos, sobretudo por se dar em pleno contexto da Guerra Fria.’ Numero depende da fonte, mas o que era a Alemanha Oriental ainda hoje é de 20 a 25% mais pobre do que era a Alemanha Ocidental. Desemprego no que era Alemanha comunista é perto de 7% e na Alemanha capitalista 5%. Estatisticas não faltam.
‘[…] o que permitiu que um país em ruínas se reorganizasse a ponto de figurar entre os mais influentes do mundo em tão curto espaço de tempo histórico?’ Plano Marshall. Mais de 19 bilhões de dolares injetados entre 1948 e 1952. Alem de outros planos de cooperação.
‘Em dezembro de 2023, a Alemanha ultrapassou o Japão e tornou-se a terceira maior economia do mundo.’ Problema é que a economia do Japão encolheu. Por isto que ‘lugar na fila’ muitas vezes diz nada.