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As Malas de Pandora abertas – por Amarildo Luiz Trevisan

“Houve tempo em que criminosos tentavam esconder vestígios dos seus atos”

Outro dia assisti a uma reportagem dessas que costumam passar rápido pela televisão, mas que insistem em permanecer na memória. A notícia mostrava mais uma operação policial. Nada de novo, pensei. Já nos acostumamos a ver imagens de agentes entrando em apartamentos luxuosos, abrindo cofres, recolhendo documentos. O que me chamou a atenção, porém, não foi a operação em si. Foram as malas.

Malas abertas, abarrotadas de dinheiro. Bolsas cheias de notas empilhadas. Rios de dinheiro espalhados pelos cômodos como se fossem objetos banais da decoração. O mais impressionante não era a quantia. Era a despreocupação.

Houve um tempo em que os criminosos tentavam esconder os vestígios dos seus atos. Queimavam papéis, apagavam rastros, criavam empresas fantasmas, inventavam histórias. Hoje parece diferente. As malas permanecem abertas. O dinheiro permanece à vista. Como se ninguém mais temesse ser descoberto.

Fiquei pensando no que isso revela sobre o país em que vivemos. Talvez o problema já não seja apenas jurídico. Talvez seja mais profundo. Talvez estejamos diante de uma crise moral.

Quando alguém acredita que não precisa mais esconder seus excessos, é porque passou a se sentir acima das regras que valem para os demais. E quando muitos passam a agir assim, surgem pequenos feudos espalhados pela sociedade. Cada grupo protege os seus interesses, fortalece seus privilégios e constrói muros invisíveis ao redor do próprio poder.

Lembrei então de Jürgen Habermas e de sua reflexão sobre a refeudalização da esfera pública. O filósofo utilizava essa expressão para descrever um processo em que os espaços públicos deixam de funcionar como lugares de debate entre cidadãos iguais e passam a ser ocupados por grupos que exibem poder, influência e privilégios. Como nos antigos feudos, alguns passam a agir como senhores, enquanto os demais observam de longe.

Talvez seja exatamente essa sensação que tantas pessoas experimentam hoje. Não apenas a de que existem injustiças, mas a de que alguns se consideram inatingíveis. Como se a lei fosse destinada apenas aos outros.

A pergunta inevitável é: para onde correr?

Não há resposta simples. As malas abertas talvez sejam a nossa versão contemporânea da Caixa de Pandora, aquela que, segundo a mitologia grega, libertou todos os males sobre o mundo. Conta a lenda que essa foi a forma encontrada pelos deuses para punir os humanos. Em nosso caso, porém, talvez não se trate de uma punição externa, mas de uma espécie de autossabotagem moral. Quando alguém já não sente necessidade de esconder o próprio malfeito, algo mais profundo parece ter sido rompido.

Ainda assim, a narrativa mitológica nos lembra que, no fundo da caixa, permaneceu a esperança. Talvez ela também esteja presente entre nós. Cada vez mais pessoas parecem perceber esse retrocesso. Percebem que a degradação institucional não começa nos tribunais nem termina nos códigos jurídicos. Ela começa quando a sociedade deixa de se indignar.

Porque uma democracia não se sustenta apenas por leis. Sustenta-se por valores compartilhados, por limites reconhecidos coletivamente e pela convicção de que ninguém está acima do bem comum.

No dia em que as malas cheias de dinheiro deixarem de nos causar espanto, não será apenas o direito que terá fracassado. Será a própria ideia de comunidade. E talvez essa seja a crise mais perigosa de todas.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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10 Comentários

  1. Resumo da opera. ‘Será a própria ideia de comunidade.’ Vermelhice. Brasil é muito grande para ter mentalidade de taba. Não existe ‘nação’ e nem ‘republica’. Coisa que até a Roma Antiga tinha.

  2. Resumo da opera. Pesquisa. Pew Research Center. Fevereiro de 2026. O que faz as pessoas orgulhosas de seu proprio pais? Quantos por cento citaram ‘historia’? 37% dos gregos. 22% dos franceses. 18% dos italianos. 0% dos brasileiros. O que traz orgulho para os tupuniquins? 25% o fato do povo ser acolhedor. 17% citaram as paisagens e belezas naturais. Orgulhosos do sistema politico? 53% dos suecos e 36% dos alemães. Economia e serviços publicos? Orgulha 8% dos tupiniquins. E 21% dos holandeses. E 18% dos alemaes.

  3. Prefeitura de SM fez um REFIS como muitos outros. Governo Rato Rouco arrumou um segundo ‘Desenrola’ eleitoreiro. Quem paga em dia é trouxa?

  4. Eike Batista. Preso e solto algumas vezes. Cabeça raspada. Patrimonio negativo. HC de Gilmar Mendes. Anda solto e pelo que consta não passa necessidades.

  5. Em 2017 a PF encontrou um apartamento em Salvador cheio de dinheiro. Ligações com Geddel Vieira Lima. Preso em 2017. Solto. Em 2019 foi condenado pelo STF a quase 15 anos de prisão. Em 2022 ganhou liberdade condicional. Ministro Fraquin. Foi ministro do Rato Rouco e do Vampiro. Cargo na CEF no governo Dilma, a humilde e capaz.

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