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O futebol e suas mazelas – por Luiz Carlos Nascimento da Rosa

Muito cuidado com “metáforas indesejadas e de muito mau gosto”

Uma palavra que não representa uma ideia é uma coisa morta, da mesma forma que uma ideia que não incorporada em palavras não passa de uma sombra (Lev Vygotsky)

Vivemos de forma cotidiana o encantamento que nos propicia o universo do futebol em tempos de Copa do Mundo.

Em função que seleções reúnem os grandes atletas que flanam nos campos em todos os cantos de nosso telúrico mundo, ver Mbappe, Messi e Yamal é desfrutar do prazer que nos reservam a plasticidade e beleza harmônica desse tipo de atleta.

Merecidamente a Espanha conquistou o desejado e buscado título.

Eu sou um apaixonado pelas coisas e o mundo cotidiano do futebol. Ouço, leio, escuto e vejo tudo sobre esse universo paradoxal do mundo da bola. Tirando as previsíveis decisões de Infantino e Trump, a Copa do Mundo foi muito prazerosa.

Há muitos anos tenho acompanhado, muito preocupado, o vocabulário expresso por jogadores e infelizmente reproduzido e reforçado pelos jornalistas especializados no universo da bola. Emanações preconceituosas reverberam nessas singulares falas.

Como é um espetáculo que envolve milhões de pessoas é necessário nos preocuparmos com o caráter educacional dessas práticas e seu singular universo de falas. Nessa copa do mundo surgiu o verbo “machucar”. Para os especialistas significa uma jogada profícua e contundente numa jogada que pode levar ao êxtase que é o gol, tanto para jogadores como para a torcida. Vejam que paradoxo, no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, resumidamente, machucar significa deformar (um corpo) com golpes violentos ou por meio de compressão de outro corpo, esmagar, esmigalhar, triturar. Causar para si ou à outros sofrimento de ordem psíquica, magoar, torturar. Veja se cabe o uso desse vocábulo em se tratando de um esporte coletivo que envolve muitos seres humanos. Como Educador vejo que a prática do futebol é mediadora das relações entre milhões de pessoas. Penso que a palavra machucar não é nada generosa e é um instrumento ideológico que deseduca. Ouvimos, também, o uso da palavra raça e pegada. São metáforas indesejadas e de muito mau gosto.

A Senadora Celeste Amarilia, do Paraguai, de forma intempestiva e desastrosa, teve atitudes racistas com querido e elegante craque Mbappe. Merecidamente ele disse que a tal senadora é “desprezível” e “não merecedora do cargo”.

No jogo entre Argentina e Egito, muitos torcedores argentinos propiciaram um bárbaro espetáculo de racismo para um negro influencer americano. Coisa corriqueira nos estádios de futebol em muitas partes do mundo. Como deboche, alguns fanáticos e despóticos torcedores argentinos mostravam a bandeira de Israel para o Elegante e Excelente Técnico do Egito. Qual a Educação desses torcedores e qual a necessidade disso num espetáculo esportivo.

Infelizmente, isso demonstra uma herança psíquica incorporada por tradições escravagistas.

O vocabulário e as atitudes de seres (des) humanizados em estádio de futebol demonstra que temos um infinito caminho a seguir em busca generosidade, solidariedade e amor. Isso tudo não é nada por acaso. É a materialização de uma sociedade doente onde transparece que o ser diferente dos outros não são bem vindas, ao contrário, manifestam a natureza doentia do psiquismo desses seres desprezíveis que estão soltas por aí e, que infelizmente, queiramos ou não, estão presentes em nosso mundo cotidiano.

Desalmados e embrutecidos seres defensores da barbárie deixem-nos em paz para saborear, prazerosamente, o espetáculo que o universo do futebol pode nos propiciar.

Como não podemos propiciar um Divã Coletivo, por muitos anos a fio teremos que conviver com a anti-estética dessas doentes e perigosas mentes.

Utilizando o sentido mitológico do termo, essas pessoas que dão repugnantes shows em estádios de futebol são verdadeiras quimeras ou repulsivos monstros que demonstram seus nocivos prazeres antissociais, cujo projeto é negar, neutralizar e machucar a alma leve e generosa de quem ama o prazer por um deslumbrante espetáculo futebolístico.

Por isso é muito necessário ter cuidado no uso de palavras que possam alimentar essas atitudes deselegantes e desumanizadas num estádio de futebol.

Para o estudioso, pesquisador e pensador Vygotsky, o Trabalho, a Sociabilidade e a Palavra é que produziram o “desenvolvimento de nossas Funções Psicológicas Superiores”, isto é, produziram o nosso salto ontológico para o Homo Sapiens. Acariciemos, partilhemos e cuidemos, com muito amor e carinho, o bom uso e as escolhas de nossas palavras.

(*) Luiz Carlos Nascimento da Rosa é professor aposentado do departamento de Centro de Educação da UFSM.

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