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Os corpos e o regramento na Época Moderna (Uma breve e resumida história do Corpo. Parte 1) – por Elen Biguelini

Escolhemos para a coluna desta semana uma discussão histórica acerca do corpo e os regramentos impostos a ele ao longo da história. Iniciando no início do período renascentista, culminaremos na semana seguinte naquilo que durante o século XIX tornou-se um regramento de corpo e mente, uma obrigatoriedade de seguir padrões estipulados.

Norbert Elias (1994) escreveu sobre esta transformação dos comportamentos que acontecem dentro de um processo civilizados do homem medieval. Em sua obra, ao citar Erasmo de Rotterdan, o autor descreve alguns dos comportamentos que não eram aceitos e incentivados pelas primeiras cortes modernas, e que atualmente seria olhados com desgosto. As regras da etiqueta e da cortesia não são inerentes ao ser humano, mas sim criadas e aprendidas de acordo com as necessidades e a moral de uma época. Ou seja, as normas de comportamento são mutáveis.

A cortesia denota domínio sobre si, logo, grande quantidade de tratados de conduta que surgem no final da idade média e início da moderna pregam o autodomínio, que permitiria que ele se comportasse como a sociedade espera que ele se comporte. O controle de si e o controle do outro (através do olhar) se tornam, durante o Iluminismo, práticas cotidianas, sendo que “a fim de ser realmente ‘cortês’ segundo os padrões da civilité, o indivíduo é até certo ponto obrigado a observar, a olhar em volta e prestar atenção às pessoas e aos seus motivos”  (ELIAS, 1994, 90).

Esta necessidade de autodomínio não surge com o início das cortes; é sim uma releitura de um conceito da antiguidade. Foucault, em História da Sexualidade, volume 2, cita a importância do autocontrole para os Gregos.  A enkrateia (temperança) ateniense é o que fazia um homem um bom cidadão, pois a paixão tirava a possibilidade de raciocinar. A paixão é o excesso, que embora não fosse proibido era mal visto pelos gregos. É esta idéia de moderação que é ‘re-editada’ pelo pensamento iluminista.

Mas o autocontrole não é apenas uma forma de conseguir o êxito nos comportamentos perante a corte, é também uma forma de conseguir poder sobre o outro. Desta forma, as ações pessoais das figuras de poder acabam relacionadas as suas ações políticas e sociais, visto que uma pessoa não pode exercer poder sobre outrem caso não tenha domínio sobre seu próprio corpo e seus próprios sentimentos.

A opinião pública, ainda hoje, continua ligando as figuras de poder, como reis, príncipes e presidentes, a ideia de que apenas um ser que exerce domínio sobre o próprio corpo pode exercer poder sobre os outros. É este pensamento que leva a grandes escândalos quando uma destas figuras de poder demonstra qualquer espécie de descontrole, como aconteceu com Príncipe Charles ao ter um caso com sua atual esposa, ou ainda como o caso do Presidente Americano Bill Clinton e sua estagiária.

O corpo do monarca, então, deveria ser ainda mais contido, sendo que é nele que recai a imagem (ideal) da realeza. A majestade, no imaginário dos súditos, sempre tem um corpo, uma corporização ideal que representa toda a perfeição social e política desejada na figura real.

A partir do século XVI se percebe uma aproximação cada vez maior entre o corpo do rei e o tipo de poder que ele exerce. Com o absolutismo o poder monárquico torna-se cada vez mais forte, fechado e relacionado à figura do rei. Desta forma, a suposta corrupção sexual de Maria Antonieta era vista como símbolo de corrupção política.

É a hereditariedade que dá continuidade à soberania monárquica, mas as transições do poder não eram simples. Como resolver o problema desta transição quando o herdeiro não estava próximo ao local de coração, ou era ainda uma criança e não poderia assumir o trono? A teoria dos dois corpos do rei vem tentar resolver este problema de continuidade do poder, pois através do deslizamento do corpo de Cristo para a figura real, aquilo que é perene e mutável (o corpo do rei) torna-se durável e imutável (o poder real). Existia, então, um corpo monárquico invisível e místico, que dura mais do que apenas o corpo físico e carnal do rei.

O poder monárquico está acima de qualquer outro poder terrestre. Acima dele só Deus, o poder divino. Desta forma, a figura do rei recebe uma misticidade. O corpo político dá uma virtude física ao invisível e o corpo físico se mistura ao corpo mítico. Um se sobrepõe ao outro. Sendo o físico palpável, é através dele que o poder místico pode ser exercido. O corpo do rei passa a ser a referência de seu poder, o que explica a grande quantidade de pinturas e outras representações do rei e da família real.

Com a centralização  absolutista, então, o corpo do rei passa a ser cuidado e acompanhado. Através desta aproximação entre Rei e Deus, o corpo da majestade é também “divindade”. O corpo real passa a ser conectado à eventos milagrosos e à uma iconografia mística e religiosa. O rei era escolhido por Deus, ou recebia dádivas divinas, era o mais próximo do Divino que um ser humano poderia alcançar.

A figura do monarca é a que mais marca a união entre o corpo e a política, mas as normas sociais que são exercidas sobre os corpos não são voltadas apenas para figuras de poder.

Ainda que os tratados de conduta e espelhos de príncipe da era moderna não tivessem como proposito final a normatização de comportamentos, , acabaram se tornando manuais de como seria a melhor forma de agir em uma corte, ao mesmo tempo em que regras comportamentais, com  normas cada vez mais restritas. Gradualmente, estes manuais se tornaram a única forma aceitável de comportamento, pois com a modernidade e a restrição da norma tudo que não se encaixava naquilo que era visto como natural era visto como estranho, não natural, anormal. Surgiram, então, práticas de normatização dos corpos e dos comportamentos que visavam transformar os corpos de forma a deixá-los de acordo com as regras impostas pela sociedade.

Referências

• ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador. Volume1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar: 1994.

• FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1986. “Os corpos dóceis”.

• FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade. O uso dos prazeres. Volume 2. Rio de Janeiro: Edições Graal Ltda: 2001.

• VIGARELLO, Georges. O corpo do Rei. In. CORBIN, Alain; COURTINE, Jean Jacques, VIGARELLO, Georges. História do Corpo: da renascença as luzes. Petrópolis: Vozes: 2008.

*Elen Biguelini é doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos, no Site.

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