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O corpo de Fellini – por Bianca Zasso

Um filme cujo título refere-se a um dos comentários mais conhecidos do mundo do futebol atrai quem nutre uma paixão pelo que acontece dentro das quatro linhas. Porém, A Mão de Deus, novo trabalho do cineasta italiano Paolo Sorrentino, pode decepcionar quem esperava uma presença mais, digamos, criativa, da persona de Diego Maradona no longa. Em cartaz na plataforma Netflix e também em algumas salas de exibição no país (Santa Maria, para variar, ficou de fora), a produção é claramente inspirada na juventude de seu diretor, vivida na cidade de Nápoles ao lado de uma família insólita, mas repleta de afeto. Cineastas que viajam até seus passados para escreverem um roteiro não são novidade, mas Sorrentino buscou uma inspiração extra, mais uma vez, em um de seus mestres, o também italiano (e genial!) Federico Fellini. E foi este o seu erro, que nem a mão divina conseguiu consertar.

Não é de hoje que o criador da obra-prima 8 e1/2 está presente nas criações de Sorrentino. Em A Grande Beleza, ele já prestava uma homenagem e tanto ao maravilhoso A Doce Vida sem esquecer de impor sua assinatura como diretor. Mas, na necessidade de realizar o seu Amarcord, filme no qual Fellini transforma em cenas incríveis as memórias de sua infância, o italiano perde a mão no drama e na construção dos personagens, em especial do protagonista, Fabietto, interpretado pelo jovem Filippo Scotti. Um garoto que vive seus dias adolescentes entre a escola, as festas de família e os jogos do seu time, o Nápoles, surge na tela com brilho. Suas espinhas, suas roupas largas e seu fone de ouvido eternamente pendurado no pescoço conquistam o espectador. A simpatia pelo garoto que vive fantasias com uma tia problemática e fala da chegada de Dieguito aos campos da Itália é imediata. Mas, com o passar do tempo, vamos perdendo a emoção de acompanhar sua jornada de amadurecimento. Isso porque ela não leva a maturidade, mas ao lugar comum do homem que se permite ser um eterno menino.

A fotografia e a trilha sonora são precisas e, em muitos momentos, são o que fazem nossos olhos se manterem atentos à A Mão de Deus. Mas se Sorrentino mirava em Fellini, devia ter dado mais atenção ao valor humano de seus personagens. Quando uma reviravolta na vida de Fabietto acontece (não vamos dar spoilers!), ao invés de tentar crescer com a própria dor, nos deparamos com um garoto que segue as normas do seu tempo e insiste em amizades que em nada parecem engrandece-lo como pessoa e também como artista, já que ele comenta mais de uma vez que deseja tornar-se diretor de cinema. O clima napolitano é encantador, as cenas no litoral são belíssimas e com um humor interessante. No entanto, Fabietto leva adiante o velho conto da musa, da mulher que habita seus sonhos e lhe inspira, mas que ele não quer conhecer por completo. Afinal, todo mundo tem problemas e eles atrapalham a beleza inebriante. Ok, estamos no ambiente da Itália dos anos 80, mas a maneira como Sorrentino trata as personagens femininas, exceto a mãe (Freud mandou lembranças!) é antiquada ao extremo. Esta que vos escreve pode ser taxada como politicamente correta, mas para uma obra de arte como um filme, nem sempre é preciso seguir à risca o mundo lá fora. Fellini criou seus próprios universos e, mesmo que também se amparasse na figura da musa, tratava suas inspirações femininas com mais inteligência.

A Mão de Deus está longe de ser um filme ruim. Há uma poesia em alguns instantes que há tempos não víamos em produções que visam o grande público. Mas falta certo encanto, aquela transformação que as pedras no caminho nos trazem e que, para o bem ou para o mal, nos modificam. Ficar parado no mesmo lugar é que não tem graça nenhuma. Se Maradona jogou para o Todo-Poderoso o seu golaço, Sorrentino poderia ter buscado algo mais divino ou, no mínimo, mais intenso para impulsionar seu protagonista alter-ego. O futebol que permeia o título pouco aparece e, quando surge em cena, parece apenas uma burocracia para justificar a escolha. Há momentos em que as referências ao estilo de Fellini chegam a irritar, pois não há o clima de homenagem, mas de vender a ideia de que é uma criação original. Aos que nunca estiveram diante de uma criação do mestre italiano, pode até impressionar. Porém, Sorrentino não é nem nunca será Fellini. A mão de Deus não salvou o cineasta. Felinni era um homem que acreditava que fazer cinema era brincar de Deus. Com o corpo todo.

A mão de Deus (È stata la mano di Dio)
Ano: 2021
Direção: Paolo Sorrentino
Disponível na plataforma Netflix

*Bianca Zasso, nascida em 1987, em Santa Maria, é jornalista e especialista em cinema pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Cinéfila desde a infância, começou a atuar na pesquisa em 2009. Habitualmente, seus textos podem ser encontrados aqui às quintas-feiras.

Observação do Editor: as fotos que ilustram este texto são de Divulgação.

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