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Algumas notas sobre a Democracia – por Giorgio Forgiarini

“A democracia não se resume aos processos eleitorais”, ensina o articulista

Em ano que antecede um pleito eleitoral, alguns esclarecimentos devem ser feitos em relação ao tão falado, mas pouco sentido e vivido, fenômeno da democracia, enquanto modelo de organização política. Obviamente, não se pretende aqui exaurir o tema neste parco espaço que disponho, mas assumo a pretensão de ser abrangente o suficiente para dar ao leitor uma pequena noção da complexidade do assunto.

Primeiro, a democracia não se resume aos processos eleitorais. A liturgia de eleições periódicas, muito embora indicativa da maturidade de um regime democrático, diz respeito exclusivamente à democracia em seu viés representativo, ou seja, diz respeito tão somente à possibilidade de o povo eleger representantes para o exercício de atividades de governo. Nada mais.

Uma democracia plena, no entanto, pressupõe mais do que isso. Significa o poder de o povo tomar parte efetiva na organização da sociedade, seja pelo acesso a informações fidedignas quanto a atos e gastos de governo, seja pela participação ativa em instâncias não governamentais da sociedade, tais como associações, sindicatos e, inclusive, partidos políticos.

Segundo, uma democracia saudável exige de seus cidadãos um espírito ao mesmo tempo, ativo e leniente. Ativa porque não cabe ao povo encarar a democracia como um presente generosamente dado por uma elite bondosa, mas como uma luta árdua e permanente por participação no processo de tomada de decisões públicas.

Leniente, por outro lado, porque ela implica em confrontos entre grupos diversos que convivem num mesmo espaço. Numa democracia, tais confrontos devem ser resolvidos com acomodação dialogada, com validação das pretensões de cada um deles, de forma que, muitas vezes, as vontades de um grupo majoritário devem ser preteridas em favor de necessidades mais urgentes de outro, mesmo que minoritário. Aí mora a necessidade de leniência voluntária. Ela é essencial, então, para a preservação de uma harmonia social.

Terceiro, a democracia custa tempo. Num regime democrático, decisões não são tomadas por uma pessoa, mas por uma pluralidade delas. Os processos gerenciais são padronizados e impessoais. Os mecanismos de fiscalização são rígidos e as prestações de contas trabalhosas. A democracia, então, é inerente a uma burocracia lenta e aparentemente ineficiente, mas essencial para evitar abusos, privilégios e perseguições.

Quarto, a democracia não é um processo irreversível. Pode ser corrompida e asfixiada, em especial durante momentos de crise, aproveitadas por líderes populistas. A França nos serve de exemplo: saiu embriagada de uma revolução libertária no fim do século XVIII e, já no início do século seguinte, caiu no colo do tirano Napoleão, inicialmente levado ao poder como salvador da nação. Roma também. Deixou de ser república para recair num império sob Julio Cesar.

Por fim, a democracia é cara, merece carinho, atenção, talvez mais do que lhe temos dado no momento. Ela não nos oferece flores, mas um chão firme para percorrermos em direção a um futuro melhor. É só o que precisamos. Nada mais. Lembrem-se disso!

(*) Giorgio Forgiarini é advogado militante, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.

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14 Comentários

  1. Resumo da opera iV. Ex-presidente da OAB Felipe Santa Cruz querendo meter bala na nuca é sintoma de coisas graves. Inclusive de achar que não deve explicações a ninguem.

  2. Resumo da opera III. Os partidos servem de filtro para determinar quem pode concorrer ou não, limitam escolhas da população. Freios e contrapesos é coisa da Globo. Classe politica só pensa nos seus proprios interesses, não esta disposta a sacrificios e não se importa de sacrificar o pôvú. Tudo ‘democraticamente’.

  3. Resumo da opera II. Cacoete dos causidicos. Sempre que algo não está funcionando a olhos vistos apelam para a teoria. Só evidencia que a teoria está furada.

  4. Resumo da opera. Trem Bala Rio-SP. Construção de Brasilia. Transposição do Rio São Francisco. Distrito Empulhativo. Eram prioridades decididas ‘democraticamente’ ou foram decisões de gabinete?

  5. ‘Por fim, a democracia é cara, merece carinho, atenção, talvez mais do que lhe temos dado no momento. Ela não nos oferece flores, mas um chão firme para percorrermos em direção a um futuro melhor.’ Que coisa mais meiga! Kuakuakuakuakuakuakua!

  6. Napoleão só surgiu porque o ‘processo revolucionario’ não tinha fim. Alas, França foi Imperio duas vezes e está na Quinta Republica. Que foi fundada por De Gaulle, tiraram o velho da aposentadoria para arrumar a bagunça. Roma era uma Republica, só que era ‘tocada’ por uma aritocracia. Alas, a democracia ateniense e a Confederação de Delos foram causas da Guerra do Peloponeso.

  7. ‘ A democracia, então, é inerente a uma burocracia lenta e aparentemente ineficiente, mas essencial para evitar abusos, privilégios e perseguições.’ O Japão não é uma democracia? Suiça também não?

  8. ‘Numa democracia, tais confrontos devem ser resolvidos com acomodação dialogada,[…]’. Ideologia, ‘tudo se resolve conversando’. Asneira que se instalou no meio juridico tupiniquim e na classe media alta bunda mole. Harvard tem um programa de negociação. BATNA. ‘Best alternative to a negotiated agreement’. Acordo não foi possivel, qual a melhor alternativa?

  9. ‘Ativa porque não cabe ao povo encarar a democracia como um presente generosamente dado […]’. É o ponto de vista da classe média bunda mole que está com a vida ganha. Maioria tem que trabalhar 44 horas por semana para pagar as contas. No minimo. Teoricamente dormir 56 horas. Sobram 68 horas para todo o resto. Diversão, lazer, convivencia e pepinos da familia, bicos, etc. Vai abrir mão do que para cuidar da ‘politica’? Alas, referencia ao ‘corre’, maioria não passa a vida num escritorio com ar condicionado produzindo textos.

  10. Minorias tocam democracias. Desde o estamento burocratico de Faoro até ‘o mais intolerante governa’ de Taleb.

  11. ‘[…] seja pela participação ativa em instâncias não governamentais da sociedade, tais como associações, sindicatos e, inclusive, partidos políticos.’ Onde minorias podem facilmente assumir o controle. Associações de bairros, sindicatos, diretorios de estudantes estão majoritariamente na mão da esquerda. Exceções nas associações de bairros que são trampolins para uma candidatura a vereador e estão na mãos do crime organizado em muitos lugares pais afora. O termo é ‘aparelhamento’.

  12. ‘ignifica o poder de o povo tomar parte efetiva na organização da sociedade, […]’. Historicamente nunca aconteceu no Brasil.

  13. ‘Primeiro, a democracia não se resume aos processos eleitorais.’ Rato Rouco. Entrevista a Radio Gaucha. 2023. Venezuela é o assunto. “A Venezuela, ela tem mais eleições que o Brasil. O conceito de democracia é relativo para você e para mim. Eu gosto da democracia porque ela me fez chegar à Presidência da República pela terceira vez, e é por isso que eu gosto da democracia e a exerço em sua plenitude”.

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