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Breves notas sobre o populismo – por Giorgio Forgiarini

“Não se importa com o povo. Apenas o usa, como arma e instrumento político”

Alguém disse certa feita que o populismo, mais do que uma estratégia política, é uma “síndrome”. Essa afirmação foi reprisada por Ludovico Incisa, diplomata italiano, para referir que o populismo é, não apenas um modo de se fazer política e ganhar eleições, mas um conjunto de sintomas de uma sociedade politicamente doente.

Tentando trazer alguma clareza ao tema, ser populista não é ser popular. Não é a busca pelo atendimento das demandas da população. O populista, em verdade, não se importa com o povo. Apenas o usa, como arma e instrumento político. Populismo, então, é uma degeneração da democracia e, via de regra, se baseia em dois pressupostos: A de que, se for da vontade do povo, tudo é possível, e de que só uma pessoa, mítica, messiânica e iluminada é capaz de identificar essa vontade e atende-la em sua plenitude.

Assim, o populismo desconsidera complexidades sociais. Para o populista, o povo não é composto de diferentes indivíduos, etnias, grupos ou classes com vontades, características e necessidades peculiares. É tão somente uma massa mais ou menos homogênea e uniforme, cujas vontades imediatas, nem sempre racionais, são as mesmas que as suas e, por isso, devem ser satisfeitas imediatamente e a qualquer custo.

Reside aí o maior risco do populismo: ele não conhece dissidências ou minorias e separa de maneira objetiva o “povo” do “não-povo”. O “povo”, na mentirosa visão populista, é um grupo majoritário, formado apenas por pessoas pretensamente iluminadas, depositárias de todas as virtudes humanas. Os “cidadãos de bem”.

O “não-povo”, por outro lado, é formado por todos aqueles que, por questões étnicas, sociais, econômicas, ideológicas ou raciais, não ostentam, supostamente, as mesmas qualidades do “povo” e, por isso, acabam na periferia da sociedade. Acabarão por corresponder àquilo que meu xará, Giorgio Agamben, chama de “homo sacer”: Pessoas jogadas à própria sorte, desprovidas de proteção jurídica, política ou social. Aliás, vale muito a pena ler Giorgio Agamben.

No pensamento de um populista, só a voz do que ele concebe por “povo” deve ser ouvida. A voz dos demais não lhes é útil. Apenas os desejos dos “de bem” são dignos de contemplação. Liberdade para uns, para outros, doutrina e disciplina. As reivindicações daqueles que compõem o “não-povo” são solenemente desconsideradas, quando não frontalmente combatidas.

Pior do que isso, o líder populista se empenha ativamente em convencer o grupo majoritário de que é especial, merecedor de benesses que os outros não fazem jus. Ele adula o grupo que lhe dá suporte político, convencendo-o de que foram abençoados por Deus, ao mesmo tempo em que detrata os que a ele se opõem, muitas vezes atribuindo-lhes defeitos, como a indolência, a malandragem e a subversão. Por isso, em regra, o populismo acaba por acentuar sentimentos discriminatórios, como racismo, machismo, xenofobia e homofobia.

O mundo já viu dezenas de regimes populistas. Na Alemanha, na Itália, na Espanha, em Portugal e também aqui no Brasil. Os resultados, todos sabemos, foram sempre catastróficos. Parece, no entanto, que não nos vacinamos contra esse mal. Ele ainda paira por aí.

Quem é o locutor da voz populista nos dias de hoje? Tenho minha própria convicção, mas eis uma conclusão que deixo a cargo do leitor. Mas, de antemão pergunto: quem sugeriu fuzilar os correligionários do partido contrário? Quem usou medidas de peso aplicáveis a bois para fazer referência a negros e quilombolas? Quem se acha no direito de decidir qual mulher merece ou não ser estuprada? Quem evoca Deus a todo momento para respaldar suas próprias providências? Hein? Hein? Quem?

(*) Giorgio Forgiarini é advogado militante, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.

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19 Comentários

  1. Resumo da opera. Nivel do debate como sempre abaixo da canela da formiga. Mas como diz o comentarista esportivo ‘não adianta dizer para uma ovelha: vai e voa!’, ela não vai conseguir.

  2. ‘Quem evoca Deus a todo momento para respaldar suas próprias providências?’. Ateus não conseguem absorver isto. De qualquer maneira este pessoal que esta toda hora na igreja é muito estranha. Devem estar maquinando alguma coisa.

  3. ‘Quem se acha no direito de decidir qual mulher merece ou não ser estuprada?’ Não sei, Marta Suplicy quando ministra do turismo, no meio de uma crise aerea, aconselhou a relaxar e gozar. Citando Maluf.

  4. ‘Quem usou medidas de peso aplicáveis a bois para fazer referência a negros e quilombolas?’ Atualmente só se usa para pesar gado. Mas ele que responda, é bem grandinho.

  5. ‘Mas, de antemão pergunto: quem sugeriu fuzilar os correligionários do partido contrário?’ Mauro Lasi, professor universitario filiado ao PCB. ‘Nós sabemos que você é nosso inimigo, mas considerando que você, como afirma, é uma boa pessoa, nós estamos dispostos a oferecer a você o seguinte: um bom paredão, onde vamos colocá-lo na frente de uma boa espingarda, com uma boa bala e vamos oferecer, depois de uma boa pá, uma boa cova. Com a direita e o conservadorismo: nenhum diálogo: luta.’

  6. Getulio Vargas tinha Gregorio Fortunato, passava o rodo nas vedetes e instaurou campos de concentração, os mais famosos para japoneses.

  7. ‘O mundo já viu dezenas de regimes populistas. Na Alemanha, na Itália, na Espanha, em Portugal e também aqui no Brasil.’ Sim, depois da ditadura fascista Getulio Vargas para conseguir se eleger ele aderiu ao populismo.

  8. ‘Por isso, em regra, o populismo acaba por acentuar sentimentos discriminatórios, como racismo, machismo, xenofobia e homofobia.’ Kuakuakuakuakuakuakua! E os taxistas, manobristas, enxadristas e diaristas. Kuakuakuakuakuakua!

  9. ‘[…] ao mesmo tempo em que detrata os que a ele se opõem, muitas vezes atribuindo-lhes defeitos, como a indolência, a malandragem e a subversão.’ Risivel tentativa de colocar a pecha de populista só no Cavalão. Rato Rouco começou no sindicalismo explorando o ‘nós contra eles’. Patrão contra empregado. O agronegocio já foi ‘fascista’. O IOF é na base dos ‘pobres contra ricos’. Agora é ‘nós contra o Trump’.

  10. ‘Pior do que isso, o líder populista se empenha ativamente em convencer o grupo majoritário de que é especial, merecedor de benesses que os outros não fazem jus.’ Obvio que não. Utiliza a mobilização popular. Existe o vacuo das necessidades não atendidas, o descontentamento, provoca a mobilização. É o famigerado ‘voce esta na m. porque tem alguem te sacaneando’.

  11. O ‘não-povo’ são os politicos, os servidores publicos, a classe media juridica bunda mole, os burocratas do ‘passei num concurso e me salvei, ao inves de reclamar passem num concurso ou continuem a trabalhar para pagar meu salario’.

  12. ‘[…] não ostentam, supostamente, as mesmas qualidades do “povo” e, por isso, acabam na periferia da sociedade.’ Vide problemas e sociedade imaginada no ar condicionado. Pesquisa nas periferias de SP mostra que os jovens querem empreender e ser autonomos. Muita gente rejeita a CLT porque a sensação de liberdade é maior. Um dos motivos do afundamento das pautas de esquerda.

  13. ‘Para o populista, o povo não é composto de diferentes indivíduos, etnias, grupos ou classes com vontades, características e necessidades peculiares. É tão somente uma massa mais ou menos homogênea e uniforme […]’. Vermelhos tentam dividir a população entre o pessoal do Alfabeto (minoria), afrodescendentes, mulheres, etc. Porém o transporte publico é ruim para todos, o SUS funciona meia boca para todos, a educação é ruim para todos. Todos, porque quem consegue paga plano de saude, escola particular, anda de carro particular, etc. Vide junho de 2013, as vezes a valvula da panela de pressão opera. Alas, os problemas de 2013 ainda estão ai.

  14. Critica as ‘elites’. No Brasil a classe politica, a burocracia e o pessoal do juridico, que é atividade paraestatal, acham que sabem o que ‘é melhor’ para a massa ignara, adivinham os problemas no ar condicionado e debatem soluções impossiveis. Pais é uma esculhambação, não de hoje. Brasil é o mais antigo ‘pais do futuro’.

  15. Critica as ‘elites’. Problema ianque é que o projeto descolou da manufatura. Um iPhone é ‘desenhado’ na Ianquelandia, mas a fabricação é feita na Asia. Problema é que não foi só a Apple que fez isto. Os empregos sairam do pais, a classe media se ferrou. Geração atual é a primeira que vai ter poder aquisitivo menor do que a anterior, mesmo com curso universitario. Na média, obvio. China transformou a globalização em arma. Fabricas de veiculos eletricos são chamadas de ‘dark factories’, fabricas escuras. São tão automatizadas que teoricamente poderiam funcionar 24 horas por dia, 7 dias por semana com as luzes apagadas.

  16. ‘O Populismo não conta efetivamente com uma elaboração teórica orgânica e sistemática. Muitas vezes ele está mais latente do que teoricamente explícito. Como denominação se amolda facilmente, de resto, a doutrinas e a fórmulas diversamente articuladas e aparentemente divergentes, ]…]’. Bobbio.

  17. ‘ Não é a busca pelo atendimento das demandas da população. O populista, em verdade, não se importa com o povo. Apenas o usa, como arma e instrumento político. Populismo, então, é uma degeneração da democracia e, via de regra, se baseia em dois pressupostos: A de que, se for da vontade do povo, tudo é possível, e de que só uma pessoa, mítica, messiânica e iluminada é capaz de identificar essa vontade e atende-la em sua plenitude.’ Definição clara de Molusco com L., abstemio, honesto e famigerado dirigente petista.

  18. ‘[…] não apenas um modo de se fazer política e ganhar eleições, mas um conjunto de sintomas de uma sociedade politicamente doente.’ Não tem como falar em populismo sem mencionar a Revolução Francesa, a Russa, o fascismo italiano e o nazismo. Sem falar em mobilização popular, descontentamento generalizado e até critica a ‘elites’. No sentido de grupo que mantem o controle, tem privilegios, tem dominio, ‘escolhido’. Não no sentido de ‘melhor qualidade’, ‘mais preparado’ ou ‘mais capaz’.

  19. ‘mais do que uma estratégia política, é uma “síndrome”.’ Eu apostaria que chupinhou Bobbio. Que desconhece o autor da afirmação.

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