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Terceira via foi uma ideia cunhada nas redações que não caiu no gosto popular – por Carlos Wagner

A história não decolou e ninguém sabe como acabará, escreve o articulista

Qual é o destino da Terceira via eleitoral? Que, e isso parece (mais ou menos?) consensual, não decolou (Foto Reprodução)

A história da terceira via não decolou e ninguém sabe ao certo como vai terminar. O que já aconteceu até agora, metade do mês de maio, é um bom e imenso material que oferece uma oportunidade para nós repórteres refletirmos sobre algumas práticas que existem nas redações há tanto tempo que ninguém sabe mais como começaram e que continuam passando de geração para geração de repórteres.

Uma dessas práticas é sintetizar todo um episódio em uma ou duas palavras. Ela não resulta de nenhuma conspiração, simplesmente facilita o nosso trabalho na hora de fazer um título ou de resumir uma situação no meio do texto sem precisar se estender por muitas linhas. As conspirações costumam nascer longe das redações e os conspiradores usam a ignorância dos jornalistas para espalhar o seu veneno.

A terceira via foi uma dessas expressões cunhadas nas redações dos jornais. Mais especificamente entre os comentaristas políticos, que a lançaram para defender a necessidade de surgir um candidato que quebrasse a polarização da disputa para a Presidência da República entre o atual presidente, Jair Bolsonaro (PL), que concorre à reeleição, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP).

Partidos políticos adoraram a ideia da terceira via e foram à luta, tentando encontrar o tal candidato. Esqueceram de consultar a história das eleições presidenciais. Ela lhes teria mostrado que se os partidos tivessem apostado em seus próprios candidatos teriam mais chances de consolidar uma chapa competitiva. Em vez de perderem tempo, dinheiro e esforço físico tentando costurar a tal terceira via.

Antes de seguir a conversa uma explicação que julgo necessária. O que estou escrevendo não é opinião. São fatos que relatamos nos noticiários. Vamos à história. Terminada a ditadura militar (1964 a 1985) houve um processo de redemocratização no Brasil.

A primeira eleição direta para presidente da República ocorreu em 1989, e teve 22 candidatos. Em 1994 foram oito candidatos, em 1998, 12, em 2002, seis, em 2006, sete, em 2010, nove, em 2014, 11, e na última, em 2018, 13. Com exceção da primeira e da última, nas demais a disputa foi polarizada entre PSDB e PT.

Até 2022 as eleições presidenciais funcionavam assim. Todos concorriam no primeiro turno, e no segundo os perdedores se dividiam e apoiavam os dois ganhadores ou ficavam em cima do muro. Nas eleições de 2018 aconteceram dois fatos inéditos na história das campanhas presidenciais.

Lula, o principal opositor do atual presidente, foi preso pelo então juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba (PR), que comandava a Operação Lava Jato – há abundância de matérias na internet. E Bolsonaro sofreu um atentado.

A soma desses dois fatores turbinou a chapa do atual presidente, que disparou na campanha como um foguete e somou mais de 56 milhões de votos no segundo turno, superando Fernando Haddad (PT). Uma boa parte dos que estão tentando construir a terceira via são ex-aliados de Bolsonaro ou disputam espaço político com Lula.

Do lado do presidente, o mais conhecido é o ex-governador de São Paulo João Doria (PSDB-SP), que se elegeu de carona na popularidade de Bolsonaro e rompeu com o presidente por vários motivos, sendo que um deles ganhou muito destaque. Bolsonaro pregava contra a eficiência das vacinas contra a Covid-19. Doria fez um acordo com o laboratório chinês Sinovac para produção do imunizante e forçou o governo federal a se mexer para a compra das vacinas.

Outro personagem é Moro. Na época da campanha de 2018, ele era juiz federal e estava no auge da fama com a Operação Lava Jato e por ter sido o autor da prisão de Lula, o principal adversário de Bolsonaro na corrida presidencial. Semanas depois da vitória do presidente, Moro recebeu o convite para ser ministro da Justiça e Segurança Pública.

Abandonou a carreira de magistrado e aceitou o convite com a promessa de que seria indicado para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Brigou com o presidente e saiu do governo. 

Pelo lado de Lula, o representante da terceira via é ex-aliado político Ciro Gomes (PDT-CE), que foi governador do Ceará (1991 a 1994). Creio que foi em 1992 que fiz uma longa entrevista com Ciro no seu gabinete.

Ele sempre foi uma pessoa de esquerda. Além desses três personagens há outros seis ou sete pretendentes à Presidência que a essa altura estariam com suas candidaturas na rua. Mas que hoje estão batendo boca para saber quem será o candidato da terceira via. Por quê?

Duvido que alguém saiba por que os candidatos estão perdendo tempo apostando na terceira via. O que existem são pistas do motivo pelo qual isso está acontecendo. Vejamos: qualquer um deles que diz uma bobagem sobre a terceira via ganha espaços generosos na imprensa.

Os jornalistas, em especial os comentaristas políticos, gastam mais tempo especulando sobre o destino da tal terceira via do que sobre qualquer outro assunto relativo à disputa presidencial. Vamos admitir que em algum momento os candidatos da terceira via cheguem a um acordo e escolham um deles para disputar com Lula e Bolsonaro. Qual será a plataforma política, econômica e social que ele apresentará aos brasileiros?

Essa discussão eles não fizeram. O fato é o seguinte: a história da terceira via não caiu no gosto popular. A realidade brasileira dos dias atuais é muito cruel para a maioria da população. As pessoas não têm dinheiro para comprar um botijão de gás, que custa R$ 120,00. A gasolina e o óleo diesel nunca estiveram tão caros. A inflação está alta e o desemprego já soma mais de 20 milhões de pessoas.

Dentro dessa realidade, o maior interesse do nosso leitor é saber como ele sairá dessa fria. Portanto, nós jornalistas temos que pautar esses assuntos com os candidatos à Presidência da República. O resto é o resto.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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2 Comentários

  1. Doria é um marketeiro, não tem substancia nenhuma. Quiseram marketar as vacinas para ajudá-lo, so que ele fez um monte de c@g@d@s em SP (escondidas pela midia) e a rejeição foi para a casa do chapeu. Ciro gomes é filho de politico. Pai dele foi da UDN, Arena, PDS, PMDB e PSDB. Primeiro mandato de Ciro foi pelo PDS. Qualquer semelhança com o pai. não é coincidencia. Da esquerda talvez tenha duas caracteristicas: o autoritarismo/truculencia e o iPhone no bolso. Jornalistas tem que aprender que o trabalho será checado para verificar a credibilidade. Não era possivel no antanho, mas hoje é possivel checar até as virgulas. Perdendo a credibilidade ficam nichados. Ou seja, somente os ‘fãs’ prestarão atenção no que dizem.

  2. Óbvio que não. ‘Terceira via’ é antigo, Alemanha depois da Segunda Guerra, Primavera de Praga, alternativas entre capitalismo-comunismo, esquerda-direita. Trabalhismo do Gege entra nesta conta. Das redações, onde comumente somando os QI’s não se chega a 80, sai muito pouca coisa que preste. Molusco com L., o honesto, na primeira vez que foi eleito acenou para o centro (Carta ao Povo Brasileiro). Continuou com a economia que herdou, pelo menos por um tempo. Teve o boom das commodities para ajudar. Aconteceu o Mensalão. Molusco com L., o honesto, foi para rede nacional pedir desculpas. Depois, macunaimamente, voltou atras e disse que era conspiração, perseguição politica. Depois veio o Petrolão, processo, devolução do dinheiro e pizza, cortesia do STF. Veia a eleição de Dilma, a humilde e capaz, que a esquerda faz questão de ignorar porque deu no que deu.

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