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Vizinhança. Papo reto! – por Marcelo Arigony

Quando até o Gogo perde a paciência. Mas a palavra de ordem é tolerância

A tia chega na delegacia furiosa com o vizinho da casa azul. Não a da esquina; a outra… que fica à esquerda. E ela também não gosta do vizinho da direita, da casa rosa. Era vermelha, mas tá desbotada, num cor-de-rosa. Nessa tem um pé de goiaba em frente. As goiabas caem, junta bicho, os passarinhos vêm comer e cagam na calçada. É uma cagança só…

E o pior são os moleques que sobem na goiabeira, fazem algazarra, enxergam pra dentro do pátio dela… e ficam inticando. Um horror. O vizinho tem que ser responsabilizado. Os moleques à Febem. Ainda tem Febem? E morte à goiabeira. Já!

Nisso o Gogo já perdeu a paciência. (O Gogo é pai do Tuto. Minha filha de ano e meio chama eles assim. Gogo e Tuto. Adora eles)

Mas enfim, Gogo é quem dá o primeiro atendimento na delegacia. Registra as ocorrências e faz encaminhamentos. Ali no balcão Gogo é rei. Nem eu me meto. Ele concilia, faz casamento e separação. Melhor que isso só baile dos bonitão. O Gogo é demais. Deveria dar aula de mediação.

E a tia segue: o pior é o vizinho da casa azul. Esse gosta de funk, Pablo Vittar e Anitta. Ouve nos sábados, das dez da manhã às dez da noite. E no domingo é sertanejo. Também não cuida dos animais. Os cachorros latem e os gatos miam. Ou seria o contrário? É tanta coisa que já nem sei. Maus-tratos certo. Tem que ser preso. Urgente.

Aí, durante o registro, Gogo cadastra a tia no sistema e vem seu histórico. Turma de 72, vai fazer 50 anos dia 13 de agosto. Já residiu em 8 locais e teve problemas em todos eles. Coitada, realmente não tem sorte.

Ameaça, calúnia, falsa comunicação de crime, perturbação, difamação, ameaça de novo, injúria real, injúria preconceito, perturbação, vias de fato, denunciação caluniosa, lesão corporal, injúria preconceito, furto de mandioca(!), gato de luz, gato de net, ato obsceno, omissão de cautela na guarda de animais, maus tratos… faltou papel na impressora… autora ou vítima, tá tudo ali.

Dezenas de procedimentos policiais, a maioria deles termos circunstanciados que são remetidos ao Poder Judiciário e iniciam com uma tentativa de conciliação, transação penal, suspensão condicional do processo, cesta básica…

A narrativa acima poderia ser uma ficção retórica. Seria engraçado, não fosse verdade. Há muitos casos assim. As pessoas vêm até a delegacia de polícia, para resolver problemas cuja solução passa por elas mesmas. Dá até para plagiar Braun, o Jayme: ânsias da criatura, que anda a buscar por aí, quando tem perto de si as coisas que mais procura.

Vizinhança é que nem casamento. A palavra de ordem é tolerância. A gente tem que ir até onde não incomoda o outro. E quando incomodado tem que tolerar um pouco, senão vai viver brigando. Quando a cabrita tá escabelada, eu já chego lavando a louça… tá louco!

(*) Marcelo Mendes Arigony é titular da 2ª Delegacia de Polícia Civil em Santa Maria, professor de Direito Penal na Ulbra/SM e Doutor em Administração pela UFSM. Ele escreve no site às quartas-feiras.

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Um Comentário

  1. Famosas desinteligencias. Quem le até fica com a impressão que a PC não quer trabalhar, quer ‘escolher serviço’. Alás, tolerancia? Quem nunca entrou numa delegacia e a criatura do outro lado do balcão não olhou com uma cara ‘que tu quer malaco?’. Aqui e Brasil afora. Resumo da ópera: na duvida chame a Brigada. Com ela não tem sanga funda.

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