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Pensar Cronenberg – por Bianca Zasso

“Crimes of the Future”, de David Cronenbert, na avaliação da colunista do site

As primeiras experiências com o cinema de diretores talentosos costumam ser inesquecíveis e marcar nossa ansiedade para estar diante de uma nova obra destes criadores. David Cronenberg é dos mais potentes desta lista. Scanners, A Mosca e a obra-prima Crash – Estranhos Prazeres impactam até em suas revisões, quem dirá para quem está descobrindo o universo cronenberguiano. Sim, pois ele é imenso, com cortes, sangue, cicatrizes, fluidos e corpos em transformação e movimentos nada comuns. Prestes a completar 80 anos, Cronenberg confirmou sua sabedoria e criou um filme sobre o seu próprio universo.

Crimes of the Future estreou em algumas salas de cinema e na plataforma Mubi. Óbvio que o ambiente influencia na absorção deste ensaio do cineasta sobre o corpo, a arte e o desejo, mas não é motivo para fugir de uma sessão. Mesmo na sala de nossas casas, o filme é poderoso e retumba em nossas mentes dias após ser assistido.

Acompanhar as dores e criações de Saul Tenser (um inspirado Viggo Mortensen), um artista que, num futuro de cenários enferrujados e em tons sépia, transforma a retirada de órgãos que crescem dentro de si em espetáculos. No mundo criado por Cronenberg, cirurgia é evento. O público quer fotografar, filmar, registrar o bisturi perfurando a carne e vislumbrar novas carnes, que crescem sem explicação e surgem com tatuagens.

A atmosfera de Crimes of the Future é sombria visualmente, mas cabe momentos de humor com a acidez que já era uma marca registrada de Cronenberg e que, aqui, ganha um atrativo à mais por tratar-se de uma espécie de texto do cineasta sobre toda a sua carreira. As cenas de “novo sexo” entre Saul e sua parceira Caprice (Léa Seydoux, segura no papel) fazem pensar na união de carros batidos e tesão de Crash e até nas ótimas cenas do casal central de Marcas da Violência.

O jeito inquieto e eterna tensão sexual emanada por TimLim (Kristen Stewart, em ótima atuação), a burocrata responsável por registrar os novos órgãos que surgem nos humanos do futuro e que precisa lidar com a atração pelas cirurgias de Saul Tenser, também nos faz pensar em como desejar nos filmes de Cronenberg é algo extremamente complexo e quase inexplicável pela lógica. Acontece e nem sempre se pode conter.

Ao colocar a extração de órgãos misteriosos como uma performance artística, fica a dúvida se estamos diante de uma provocação ou uma piada. Tudo é arte? O corpo humano modificado precisa estar no museu ou somos nós que não sabemos lidar com as transformações e precisamos encará-lo de outra forma? Nossos crimes ambientais vão ser fantasiados de novo modo de alimentação? O lixo que jogamos sem dó na natureza não é a prova de nossa selvageria? Cortar o próprio corpo traz algum significado para dias vazios?

Com pouco mais de uma hora e quarenta de duração, Crimes of the Future é um filme que nos infesta de dúvidas. Dúvidas boas, que nos fazem querer revê-lo e, quem sabe, escutar Cronenberg falando sobre o processo de criação. Um homem de quase 80 anos revendo suas criações cinematográficas incríveis com um olhar crítico, inteligente e bem-humorado.

Dentro da filmografia do cineasta, não é uma grande obra, mas ajuda a engrandecer seus trabalhos mais interessantes, inclusive seus curtas-metragens. Os melhores filmes de Cronenberg crescem depois que assistimos Crimes of the Future. O que não o faz menos cinema, mas propõe que uma obra fílmica pode filosofar sobre si mesma e contribuir para nossas interpretações e questionamentos não apenas sobre o que vemos na tela, mas sobre o que nos cerca e nos leva até esta tela.

Parece confuso? Assista e veja que é fácil. Está longe de ser confortável, mas faz crescer dentro da gente novas vontades. Quase um novo coração, um novo olhar. Córneas e átrios renovados sem precisar de bisturi.

Crimes of the Future

Direção: David Cronenberg

Ano: 2022

Em cartaz nos cinemas e disponível na plataforma Mubi

(*) Bianca Zasso, nascida em 1987, em Santa Maria, é jornalista e especialista em cinema pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Cinéfila desde a infância, começou a atuar na pesquisa em 2009. Habitualmente, seus textos podem ser encontrados aqui às quintas-feiras.

Observação do Editor: as imagens que ilustram este texto são de Divulgação.

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