Arquivo

Sem novidades. Júlio Lancelotti é a vítima da hora. Mídia já o julgou. E ele está condenado

Reconheço: é muito difícil acreditar na inocência do padre Júlio Lancellotti. Há fatos contados e recontados que o tornam suspeito de uma grande falcatrua, com tonalidades fortes e que indicam uma razoável possibilidade de construção de uma falsa imagem. Isso é verdade. Não há como fugir disso. E nem os melhores amigos do pároco paulista conseguem desmentir.

 

Isso significa que ele é culpado de todas as acusações de que é alvo? Talvez sim, talvez não. Mas quem decide isso? Hein? No Brasil de hoje, é a mídia (grandona e a que se acha). Para ela, o homem tem que parar no fundo de uma cela de cadeia. Mas, e se ele for inocente? Ou, se é apenas culpado de uma ou outra coisa, e não daquela outra?

 

É. Pois é. Na verdade, ele já foi processado, julgado e condenado. Mesmo que seja minimamente inocente. O tema é digno de muito debate, penso, entre os profissionais – até daqueles que assinam embaixo tudo o que as empresas, que tem seus interesses, mandam dizer. A propósito, mais uma vez, me valho do equilíbrio de Carlos Brickmann, que assina uma muito agradável coluna chamada “Circo da Mídia”, no insuspeito (nem sempre concordo com ele, mas respeito sua importância) Observatório da Imprensa. Ele lembra até uma vítima histórica da mídia, e bem conhecida dos gaúchos, Ibsen Pinheiro. A seguir:

“…Anonimato

A história contada pelo padre Júlio Lancellotti é difícil de aceitar. Não é impossível que ele tenha dado sabe-se lá quantas dezenas ou centenas de milhares de reais a alguns indivíduos, apenas pela esperança de que enxergassem a Verdade. Mas algumas das histórias que levantaram contra ele também são pouco palatáveis: por exemplo, uma mulher, anônima, que disse ter trabalhado com o padre e que o acusa de pedofilia. O depoimento foi imediatamente divulgado – mas, logo depois, a polícia informou que não sabia ainda se a referida senhora tinha efetivamente trabalhado na ONG do padre.

Assim não dá: uma acusação dessa gravidade, num caso já de si explosivo, só pode ser espalhada se alguns pressupostos de que poderia ser verídica tivessem sido verificados. Mas não se sabe sequer se trabalhou onde disse ter trabalhado.

Salvadores do Universo

O caso do padre Júlio Lancellotti já é complicado se um dos lados for absolutamente inocente e seus acusadores totalmente mentirosos. Mas essa situação definidíssima normalmente não acontece – e aí pioram muito os dilemas dos veículos de comunicação. Os repórteres tendem a acreditar nas autoridades; e nem sempre as autoridades merecem esse crédito (aliás, os velhos e bons manuais de Jornalismo recomendavam não confiar em ninguém, especialmente nas autoridades).

Num caso recente, repórteres de grandes veículos declararam candidamente que não precisavam “ouvir o outro lado” porque as informações de que dispunham vinham de fontes oficiais, em que confiavam cegamente. Bom, poucas vezes houve tantas fontes oficiais coincidindo nas informações quanto no caso do assassinato de Vladimir Herzog pela ditadura militar: todas garantiam que ele havia se suicidado. E daí? Confiar em “fonte oficiais” dá menos trabalho. E os acusados devem mesmo ter feito alguma, ou não estariam nesta situação.

Citando o deputado Ibsen Pinheiro – ele, vítima de situação semelhante, em que foi linchado pela imprensa – difícil não é lidar com jornalistas mal-intencionados (se bem que o problema também exista). Difícil é lidar com jornalistas bem-intencionados, que acham que estão salvando o mundo.

A hora do foca

E há, ainda, o problema econômico: para gastar menos, alguns portais de internet colocam estagiários no comando do noticiário. Eles, que nem chegaram ainda a ser focas, põem a informação no ar, sem checagem, sem chefia. A questão não é apenas a informação falsa: a garotada está fazendo estágio exatamente para aprender. Se não há quem os ensine, como aprenderão alguma coisa?…”

 

SUGESTÃO DE LEITURA – confira aqui a íntegra da coluna “Circo da Notícia”, de Carlos Brickmann, no Observatório da Imprensa.

 

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo