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Caminhar só faz bem? Depende da volta – por Amarildo Luiz Trevisan

“...Mas o mar, irônico e barulhento, abafava nossos pedidos de socorro"

Era fim de tarde na praia de Tabatinga, em Nísia Floresta, litoral sul de Natal, um verdadeiro paraíso. O céu limpo e azul contrastava com o verde dos coqueiros e o mar calmo, de um azul levemente esbranquiçado nas bordas, avançava suavemente sobre a areia clara e macia.

Minha esposa e eu estávamos hospedados numa pousada ali perto e resolvemos aproveitar a paisagem antes do anoitecer. O cenário, com sua beleza serena e acolhedora, nos encantava a ponto de tornar-se natural a vontade de seguir caminhando, sem pressa de voltar. O problema é que caminhamos demais, talvez tomados pela distração que só o descanso oferece. Não levamos celular, nem documentos, nem óculos, nem água, apenas as roupas do corpo. Estávamos desarmados diante da noite que chegou de repente, como costuma acontecer nessas bandas onde o sol se despede cedo.

Quando percebemos, a praia já estava deserta. O tempo havia passado com aquela pressa de quem tem outro compromisso. Quando nos demos conta, a tarde já havia virado noite, sem nos pedir licença ou assinar ponto. E então começou o dilema: como voltar? A praia estava deserta, as referências haviam evaporado, o céu escurecia como o roteiro de uma tragédia grega, e nós sem sequer um celular para postar nossa própria perda no Facebook ou Instagram.

Tentamos retornar, mas não havíamos marcado nenhum ponto claro de referência. Lembro de ter visto, nos fundos da pousada, quatro coqueiros. Mas ali, coqueiro é igual a poste em cidade grande. Praticamente todas as pousadas exibem os seus como emblema obrigatório.

Após muita caminhada, decidimos pedir ajuda. Vimos gente tirando fotos, já na área externa de uma pousada, mas o mar, irônico e barulhento, abafava nossos pedidos de socorro. Subimos por uma escadinha nos fundos da pousada, onde fomos recebidos por quatro jovens funcionários entre garçons e filósofos da dúvida. Tentamos explicar nossa condição de náufragos terrestres, mas a ajuda foi tão eficaz quanto um GPS desligado. Falamos que estávamos hospedados ali por perto, mas que havíamos nos perdido. O grupo, dividido entre anotar pedidos e tentar nos ajudar, demonstrava boa vontade, embora sem muito êxito.

Sugeri chamar um táxi, mas não obtiveram retorno algum. Propusemos então localizar a pousada pelo Google Maps, o que gerou ainda mais desencontro. Os garçons pareciam não entender bem a sugestão ou, talvez, não soubessem como usar o aplicativo. Nós, por nossa vez, estávamos sem os óculos e não conseguíamos enxergar a tela nem indicar o caminho com clareza. A tecnologia, ali, era como uma bússola nas mãos erradas: presente, mas inoperante. Foi então que decidi sair até a rua, em frente à pousada, na esperança de encontrar alguém que pudesse nos orientar de forma mais concreta.

Encontrei dois sujeitos, um deles com uma moto de entrega de gás, que gentilmente sugeriram: “Vão a pé, é seguro.” Faltou apenas completarem com um “Que a sorte esteja com vocês.” Pode ser, mas não conhecíamos as ruas e nem sabíamos por onde começar. Além disso, a iluminação era escassa e os labirintos, eram muitos. Cheguei a pedir que algum deles nos acompanhasse, mas o entregador estava com uma moto adaptada e não podia levar passageiro. E o vizinho voltou a sugerir a caminhada.

Foi aí que minha esposa – ela sim, dotada de uma sabedoria prática que escapa aos tratados filosóficos – conseguiu convencer um dos rapazes da pousada a nos acompanhar. Imaginamos que seguiríamos a pé, mas, para nossa surpresa, ele surgiu motorizado, dirigindo um veículo já bastante rodado, cuja confiança em cada curva parecia tão vacilante quanto a nossa familiaridade com o bairro.

Durante o trajeto, a conversa revelou que ele estava no emprego havia um mês, vindo da construção civil. O carro entrou por ruas estreitas e mal iluminadas. Em certo ponto, a rua simplesmente terminava e a escuridão tomava conta. Fomos obrigados a voltar e, com algum esforço, ele fez a manobra e retomamos a via principal.

Sugerimos ir até um ponto de táxi, mas parecia que naquela região os táxis tinham desistido de circular. Continuamos rodando até que avistamos uma rua familiar. Seguimos por ela, passando por poças d’água e buracos, até que, enfim, reencontramos a pousada.

Fui direto ao quarto, peguei o celular e fiz um Pix generoso ao rapaz que, com boa vontade e algum improviso, nos livrou do sufoco.

Depois, fiquei pensando no que deu errado. Como uma caminhada contemplativa se transformou num experimento de desorientação existencial? A resposta, como toda boa pergunta filosófica, não é simples. Talvez, como dizem os neurocientistas e as avós mais sábias, nossa mente resolve tirar férias quando o corpo está relaxado. E nessas horas, o mundo – esse labirinto sem manual de instruções – nos prega pequenos sustos, como quem avisa que viver exige mais do que leveza: pede atenção, e um pouco de desconfiança até nas certezas mais tranquilas.

De fato, entre a praia e o labirinto urbano, nos perdemos por excesso de confiança e falta de preparo. O episódio me fez pensar em Sartre e Camus. A liberdade de caminhar, o absurdo de se perder, a necessidade de escolher mesmo sem garantias. Mas, acima de tudo, percebi que não somos ilhas. Somos seres do encontro, dependentes da boa vontade alheia, das escadinhas escondidas, dos garçons distraídos, e até dos entregadores de gás.

Lembrei então daquela ideia existencialista de que somos definidos pelas nossas escolhas. Escolhemos caminhar sem rumo e, por pouco, não nos tornamos parte da paisagem. Mas também aprendemos que, por mais perdidos que estejamos, quase sempre há alguém disposto a ajudar – ainda que não saiba usar o mapa, mas tente, mesmo assim, com um gesto, com alguma hesitação ou com um carro velho e uma boa dose de gentileza.

E, num mundo em que tantos desprezam a tecnologia do alto de suas certezas, descobrimos que até o GPS teria sido, naquela hora, um verdadeiro amigo.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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2 Comentários

  1. Resumo da opera. Descolamento da realidade. Bussola sem uma carta topografica muitas vezes é inutil. Se não se sabe onde fica o destino não adianta saber onde fica o norte magnetico. Pontos de referencia num lugar que não se conhece sem carta também não resolve. De noite é pior. GPS não funciona em toda e qualquer situação. Chuva e neblina forte diminuem a precisão. No meio do mato com chuva utilizando celular pode acontecer problemas. Perto de morros. Na Amazonia devido aos socavões, triplice cobertura e falta de pontos de referencia a coisa encrespa (do latim crispus, retorcido). Sempre tem que ter nota de rodape para os/as imbecis.

  2. ‘[…] nos perdemos por excesso de confiança e falta de preparo.’ Excesso de Sartre e Camus. Vide ‘saraus culturais’ do ‘vanguardeiro do iluminismo’, ministro Barroso.

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