Mujica e a política como poesia – por Leonardo da Rocha Botega
Reverência a quem pensa que “não há vida plena sem sonhos, utopia e paixão”

“Ninguém gosta da morte, mas chega um certo ponto, você sabe que mais cedo ou mais tarde ela vai chegar. E: por favor! Não viva tremendo diante da morte. Aceite-a como os animais da floresta. O mundo continuará girando, e nada acontecerá; nada restará de todo esse medo. Temos que ser mais primitivos. Não há nada para comemorar. Não estou pedindo desculpas pela morte, mas ela está lá; temos que conviver com ela.”
As palavras acima foram proferidas por José Alberto Mujica Cordano, em depoimento para o livro “Una oveja negra al poder”, escrito por André Danza e Ernesto Tulbovitz. Tais palavras demonstram coerência com o pedido de “me deixem tranquilo (…), estou morrendo e o guerreiro tem o direito ao seu descanso”, feito em seu último áudio de despedida.
Coerência! Eis uma palavra muito bonita! Simbólica! Forte! Significativa! Uma palavra que representa muito bem a trajetória do ex-presidente uruguaio. Pepe Mujica chamou atenção do mundo ao falar, na verborrágica Assembleia Geral da ONU de 2013, que o amor, a amizade, a aventura, a solidariedade e a família são as únicas relações humanas que transcendem e que a “civilização” tem sido contra o tempo de vivenciá-las.
Após aquela manifestação, passou a ser classificado como o presidente “mais pobre do mundo”, ao que respondeu dizendo não ser “pobre”, mas sim “sóbrio”, vivendo com aquilo que não lhe tira a liberdade. Liberdade! Outra palavra que marcou sua trajetória. Outra palavra cheia de simbolismo, força e significado, que tem sido deturpada por aqueles que lucram com a exploração do nosso tempo.
Foi a luta pela liberdade que levou o jovem militante Tupamaro a passar longos doze anos na prisão, como refém da Ditadura Civil-Militar que sufocou o país entre 1973 e 1985. Eram tempos de Guerra Fria, de um mundo profundamente divido em dois blocos quase monolíticos. Mas eram tempos de vivenciar os sonhos e as utopias da luta pelo fim das desigualdades sociais e das mazelas do capitalismo.
Sonho! Utopia! Duas outras palavras que, assim como coerência e liberdade, também podem ser identificadas em Pepe Mujica. E a estas palavras ainda podemos incluir outra: paixão! Para Mujica não há vida plena sem sonhos, utopia e paixão. Também não há política sem paixão, afinal o que leva alguém a colocar uma vida inteira a serviço de algo senão a paixão?
Obviamente, Mujica reconhecia que na política também existem os interesses. Porém, como falou em uma significativa “conversa sem ruído” com o também ex-presidente uruguaio Julio Maria Sanguinetti, publicada em um livro intitulado “O horizonte”, “teríamos que afastar da política aqueles que têm paixão pelo dinheiro, pela acumulação de dinheiro”.
A política como meio de transformação social, assim como sua companheira de vida e militância Lucía Topolansky Saavedra e a sua falecida cachorrinha Manoela, foram as grandes paixões de Pepe Mujica. O campesino que virou presidente amava o diálogo político, tanto quanto amava cozinhar pedaços de carne para Manoela ou falar de literatura com Lucía.
Coerência, liberdade, sonho, utopia, paixão, são palavras que fizeram parte do paradigma Pepe Mujica. Um paradigma que conduz a política para o cotidiano. Para a simplicidade e a humildade. Para fora da hegemonia do poder. Para o mundo real de quem luta para ter pelo menos uma parte do seu dia dedicado ao que lhe faz feliz. Mujica fazia política como uma poesia cotidiana em tempos onde a política tem negado o cotidiano.
(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).





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