Universidade e mudança: a democracia foi a vencedora – por Amarildo Luiz Trevisan
“O testemunho não se exibe, ele se encarna. E é por isso que transforma”

Durante as últimas semanas, a Universidade Federal de Santa Maria viveu um daqueles momentos que marcam a história institucional e, sobretudo, a vida acadêmica de quem nela habita: uma consulta à comunidade para escolha da nova Reitoria. Algumas pessoas me pediram que escrevesse uma crônica durante o processo. Preferi esperar. Em tempos de calor, a palavra corre o risco de queimar, quando o que se espera dela é que ilumine. Agora, com a poeira assentada e os ânimos mais calmos, arrisco algumas linhas – não para julgar, mas para refletir.
Duas chapas se apresentaram ao desafio: a Chapa 1, formada pelos professores Felipe Müller e Alessandro Dal’Col, e a Chapa 2, pelos professores Martha Adaime e Tiago Marchesan. Após semanas de debates, encontros, desencontros, esperanças e tensões, a consulta realizada no dia 25 de junho revelou a escolha da comunidade acadêmica para a gestão da Reitoria no período de 2026 a 2029: a Chapa 2 foi a mais votada entre docentes e técnico-administrativos em educação.
Mas a verdadeira vencedora foi a democracia.
Porque é disso que se trata, em última instância: do exercício coletivo de pensar o futuro. De colocar ideias em confronto sem que os sujeitos se destruam. De saber que, mais importante do que ganhar ou perder, é garantir que o jogo seja limpo, plural e respeitoso.
E aqui começam as lições que a democracia na universidade – essa mestra silenciosa – nos oferece.
É preciso lembrar que o processo em questão foi uma consulta, e não uma eleição formal. Ainda assim, como comunidade educativa que somos, espera-se de nós mais do que civilidade: espera-se compromisso ético. Em momentos como esse, palavras ofendem mais do que ações, e atitudes falam mais alto do que discursos. Por isso, vale retomar uma distinção importante – e talvez urgente – entre exemplo e testemunho.
O exemplo é uma espécie de modelo: é visível, imitável, didático. Um professor pontual, dedicado e respeitoso é um bom exemplo. Mas o exemplo, por si, pode ser apenas aparência. Um gesto bem encenado. Algo que se oferece para ser copiado, ainda que não venha de dentro.
Já o testemunho é outra coisa. Ele nasce do vivido, e não do ensaiado. É coerência entre o que se diz e o que se faz. É aquele silêncio carregado de sentido, aquela firmeza diante da dúvida, aquele ato de coragem que ninguém aplaude, mas todos sentem. O testemunho não se exibe, ele se encarna. E é por isso que transforma.
Pessoalmente, percebi na Chapa 2 algo desse testemunho. Não apenas ideias ou propostas bem formuladas, mas uma maneira de estar no processo que inspirava confiança. Talvez tenha sido isso, mais do que qualquer estratégia, que os levou ao êxito.
Vivemos tempos difíceis. O avanço do neoliberalismo sobre o que ainda nos resta de comum ameaça até mesmo o que parecia intocável: a água, o sol, a vida pública. Nessa conjuntura, o testemunho torna-se um ato de resistência. Mais do que modelos de comportamento, precisamos de presenças verdadeiras, coerentes, capazes de lembrar por que estamos aqui – e para quem.
Rubem Alves, em sua linda crônica “Sobre jequitibás e eucaliptos”, nos provoca com uma metáfora preciosa. Eucaliptos crescem rápido, são úteis, mas não fazem sombra nem memória. Jequitibás, por outro lado, levam tempo, mas permanecem. Ele escreve:
“Eucaliptos não se transformarão em jequitibás, a menos que em cada eucalipto haja um jequitibá adormecido.”
E conclui:
“Nas histórias de fadas é um ato de amor, um beijo, que acorda a Bela Adormecida do seu sono letárgico.”
Talvez a diferença entre exemplo e testemunho seja a mesma entre eucalipto e jequitibá. Não é sobre parecer, é sobre ser. Não é sobre ganhar aplausos, mas sustentar raízes.
Na universidade e na vida, ser jequitibá dá mais trabalho. Mas é ele que resiste ao tempo. E nos momentos em que a história nos chama a escolher – como agora -, são nossas escolhas que dirão que tipo de floresta queremos cultivar.
E, pelo visto, a democracia, ao menos desta vez, escolheu sombra, memória e futuro.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é Licenciado em Filosofia no Seminário Maior de Viamão, tem o curso de Teologia, é Mestre em Filosofia pela UFSM, Doutor em Educação pela UFRGS e Pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Desde 1998 é docente da UFSM. É professor de Ciências da Religião e vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFSM).





Resumo da opera. Elegeram uma FG. Vai tocar a burocracia do mesmo jeito que os que vieram antes. Vai querer construir predios para ‘eternizar’ o nome numa placa de bronze. Vai viajar para visitar alguma universidade da biboca para fechar convenio e fazer turismo. Quando sair vai tentar emplacar o vice como sucessor. Unica coisa que muda são as gratificações da cupinchada.
‘Na universidade e na vida, ser jequitibá dá mais trabalho.’ Ficar produzindo textos numa sala com ar condicionado e com o salario garantido no fim do mes sem se preocupar com demissão é deveras trabalhoso.
‘Eucaliptos crescem rápido, são úteis, mas não fazem sombra […]’. Sozinho não. Metafora furada. Alas, eucalipto é da Australia. Ainda assim prospera. Jequitiba esta ameaçado de extinção, é vulneravel.
‘O avanço do neoliberalismo sobre o que ainda nos resta de comum ameaça até mesmo o que parecia intocável: a água, o sol, a vida pública.’ Reagan e Thatcher alugaram um triplex na cabeça, não no Guarujá, deste povo na decada de 80. Como não esquecem nada e não aprendem nada fica o mesmo discurso.