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Em seis meses, Trump dinamitou a ordem mundial – por José Renato Ferraz da Silveira

Ele ainda “minou a credibilidade americana, arruinou alianças tradicionais...”

No dia 4 de julho de 2026, os EUA celebrarão seu 250º ano de independência. A própria declaração de independência afirmava que: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.”

“Essas ideias foram realizadas de forma imperfeita. Uma guerra civil e o movimento pelos direitos civis ainda estavam por vir. No entanto, o nascimento dos Estados Unidos da América seria um momento extremamente significativo” (Martin Wolf).

A república dos Estados Unidos tornou-se um modelo a ser copiado pelo mundo. Nas duas Guerras Mundiais, os Estados Unidos foram vitoriosos e impediram a propagação de Estados antiliberais. Sem o exemplo dos Estados Unidos, o capitalismo democrático não teria se espalhado pelo globo.

Atualmente, o retorno de Donald Trump ao poder está transformando o mundo.

Na ordem doméstica, Trump promove um ataque ao estado de direito. “Abbe Lowell, antigo defensor de Jared Kushner e Hunter Biden, adverte que Donald Trump está levando a democracia dos EUA ao ponto de ruptura. As ações incluem ordens executivas contra escritórios de advocacia e a nomeação de aliados não qualificados para posições-chave”.

Como observa Edward Luce, é a expansão do poder e dos recursos do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), que opera muito como uma polícia secreta (opera como uma “verdadeira Gestapo”).

Outro ponto é o extenso uso de poderes de emergência e decretos por Trump. Ele emitiu 168 destes últimos apenas nos primeiros meses deste mandato, elevando seu total a um número muito acima de seus predecessores recentes. Trump governa por decreto. “Esse é um dos sinais de uma ditadura” (Martin Wolf).

Na ordem internacional, os valores fundamentais identificados com os Estados Unidos (de liberdade de opinião, política democrática, estado de direito e abertura para o mundo), Trump não está apenas atacando esses valores em casa, ele os está enfraquecendo no exterior, notadamente destruindo a credibilidade dos EUA como aliado.

Ações impulsivas e imprudentes na guerra comercial. “Esta guerra economicamente destrutiva contra os credores dos EUA e, sobretudo, a incerteza que ela cria, continuará”.

A guerra comercial representa um ataque às instituições criadas pelos EUA após a Segunda Guerra Mundial. Também está danificando as alianças dos EUA. O Brasil é o novo alvo do “jogo geopolítico narcisista” de Donald Trump”.

De acordo com a socióloga Giselle Agnelli: “O impacto da medida pode chegar a 2,5% do PIB brasileiro, afetando exportações-chave, pressionando o câmbio e encarecendo insumos industriais. Mas o mais grave não é o prejuízo financeiro. É o recado político de uma liderança binária: ou você está a meu favor ou contra”.

Como aponta Agnelli: “o Governo Trump II é “A revanche”. É a política interna do revanchismo, que nos leva à diplomacia do ressentimento”. O trumpismo se (retro) alimenta de velhos e novos inimigos. Para existir é necessário o inimigo. Se “o inimigo não existe, é preciso construí-lo”.

Por fim, em apenas seis meses, Trump dinamitou a ordem mundial, minou a credibilidade americana, arruinou alianças tradicionais, colapsou o mundo liberal-democrático construído pelos Estados Unidos e faz da chantagem tarifária (a “arma ideal”) o seu bullying diplomático.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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