Jogos do poder – por José Renato Ferraz da Silveira
“Trump, tarifas e a hora de o Brasil decidir se quer jogar ou ser jogado”

O tarifaço de Donald Trump não é só uma decisão econômica: é um ato político calculado e uma prova de força. O Brasil acordou em agosto com a sensação de que está sendo usado como peça em um tabuleiro global de xadrez geopolítico. E, como qualquer jogo em que Trump esteja envolvido, a regra é clara: ele dita os movimentos. Se o Brasil não compreender a lógica dessa coerção tarifária e não reagir com estratégia, será empurrado para uma posição de fraqueza, abrindo mão de autonomia econômica e diplomática.
A política externa do segundo mandato de Trump não deixa margem para dúvidas. Ele se utiliza de tarifas elevadas como instrumento de pressão, impondo custos imediatos aos países-alvo e, em seguida, oferecendo “alívio” em troca de concessões profundas. Foi assim com Japão, União Europeia, Indonésia e Tailândia. Em todos os casos, os governos aceitaram abrir mercados e assinar acordos desvantajosos apenas para evitar o peso da máquina tarifária americana. O tarifaço de 50% contra o Brasil segue exatamente esse roteiro.
O que estamos vendo não é uma disputa técnica sobre balança comercial ou competitividade. Trata-se de um método de negociação baseado na intimidação. O governo brasileiro sabe disso. Desde maio, cartas diplomáticas foram enviadas à Casa Branca, oferecendo canais de diálogo e propondo soluções mutuamente aceitáveis. Nenhuma resposta. Em julho, uma nova correspondência reforçou a disposição do Brasil em negociar. Silêncio novamente. O recado de Washington é claro: ou aceitamos as condições impostas, ou continuaremos pagando caro para exportar.
Trump joga pesado – e sem disfarces
Trump não esconde a estratégia. Ele já fez isso com seus maiores parceiros comerciais. O caso do Japão é exemplar: após ameaças tarifárias, o país asiático abriu ainda mais seu mercado para automóveis e produtos agrícolas dos EUA e se comprometeu a investir US$ 500 bilhões no território americano. O acordo com a União Europeia foi igualmente assimétrico. Em troca de evitar tarifas de 15% sobre a maioria de seus produtos, o bloco aceitou comprar “centenas de bilhões de dólares” em energia e equipamentos militares americanos.
Esse é o modus operandi de Trump: criar o caos para depois vendê-lo como oportunidade de estabilidade – desde que as concessões venham do outro lado da mesa. Para ele, o comércio internacional não é um jogo de soma positiva. É guerra. É pressão máxima. É imposição de vontade.
O Brasil não pode ignorar que já entra nessa disputa em posição vulnerável. Nosso histórico de déficits comerciais com os EUA é gigantesco: quase US$ 410 bilhões acumulados em 15 anos. As tarifas de 50% atingem setores estratégicos e geram efeitos em cadeia na economia, desde a produção até a distribuição. O governo federal anunciou medidas emergenciais – linhas de crédito para setores afetados, compras governamentais e até um fundo privado temporário – mas isso é apenas contenção de danos.
O custo de não reagir
A tentação de retaliar de imediato é grande. Há quem defenda a quebra de patentes americanas como resposta, uma ideia que circula nos bastidores de Brasília. Mas essa seria uma medida juridicamente frágil e politicamente perigosa. O Brasil se tornaria um pária no sistema internacional de propriedade intelectual, arriscando sanções adicionais e a fuga de investimentos. Não podemos agir de maneira improvisada.
Mas a passividade também cobra um preço. Aceitar calado a imposição de tarifas abusivas transmite ao mundo a mensagem de que o Brasil é um alvo fácil. Se os EUA percebem que podem usar coerção tarifária sem resistência, outros países seguirão a mesma lógica. É assim que se consolida um ciclo de dependência.
O governo Lula precisa encontrar um ponto de equilíbrio entre a firmeza e a racionalidade. As cartas enviadas à Casa Branca foram um gesto correto, mas insuficiente. É hora de mobilizar alianças multilaterais, acionar organismos como a OMC e construir uma frente ampla de resistência. Países que também enfrentam a “diplomacia tarifária” de Trump têm interesse em se unir ao Brasil. Essa é uma batalha que não podemos travar sozinhos.
Trump quer mais do que tarifas
Não nos enganemos: as tarifas são apenas a ponta do iceberg. O objetivo final de Trump é arrancar concessões regulatórias e comerciais que consolidem a hegemonia americana. Ele quer abrir mercados, impor padrões e garantir compras bilionárias de produtos americanos. E quer fazer isso rápido, usando a ameaça de desestabilização econômica como catalisador.
O Brasil precisa enxergar que está diante de um dilema de longo prazo. Se ceder agora para aliviar o impacto imediato, corre o risco de comprometer sua autonomia regulatória e sua capacidade de definir políticas públicas. Se resistir de forma desorganizada, pode mergulhar em uma crise econômica profunda.
O que está em jogo
A guerra tarifária não é apenas uma disputa comercial. É uma questão de soberania. É sobre a capacidade do Brasil de decidir seus próprios rumos sem se curvar à chantagem. E isso exige mais do que medidas paliativas. Exige visão estratégica. Exige planejamento.
Trump age com método e com um senso absoluto de que o poder americano pode – e deve – ser exercido de forma unilateral. Ele não tem pudor em pressionar aliados ou usar tarifas como armas. O Brasil não pode se iludir achando que a diplomacia tradicional resolverá o problema. É preciso se preparar para o pior cenário e, ao mesmo tempo, criar condições para negociar em posição de força.
A hora da escolha
O tarifaço de agosto é um teste. Mostra se o Brasil continuará aceitando ser empurrado para acordos desvantajosos ou se terá coragem de redesenhar sua estratégia comercial. Isso não significa adotar medidas irresponsáveis, mas sim colocar sobre a mesa o que realmente podemos oferecer – e o que não estamos dispostos a abrir mão.
Trump joga duro porque sabe que funciona. Cabe ao Brasil mostrar que aprendeu a jogar. Se não fizermos isso agora, estaremos condenados a repetir o roteiro que ele escreveu para outros países: ameaças, tarifas, concessões assimétricas e dependência crescente.
A história julgará se aproveitamos este momento para assumir o controle ou se nos contentamos em ser figurantes no tabuleiro geopolítico. Trump entende que o poder se exerce com coragem e convicção. O Brasil precisa aprender a mesma lição – e rápido.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





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