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Madame Dupin – por Elen Biguelini

Bem mais que “Deusa da Beleza e da Música”, como a chamava Voltaire

Louise-Marie-Madeleine Guillaume de Fontaine, a Madame Dupin, chamada por Voltaire de “Deusa da Beleza e da Música”, nasceu em Paris em 28 de outubro de 1706. Embora tenha sido batizada como filha de Jean-Louis-Guillaume, Senhor de Fontaine, e sua esposa Marie-Anne-Armande Carton Dancourt, era na verdade era filha desta com seu amante, o rico banqueiro Samuel Bernard (1651-1739). Embora isto fosse conhecido, o marido de Marie-Anne assumiu tanto Louise, quanto duas outras filhas que foram resultado do relacionamento extraconjugal de sua esposa.

No primeiro dia de dezembro de 1722 se casou com Claude Dupin. Deste casamento ela recebeu o nome com o qual marcou a história, Madame Dupin. Seu marido era um viúvo de mais de quarenta anos, enquanto ela tinha apenas 16 anos. Seu pai biológico escolheu o marido da filha após este ter auxiliado a irmã mais velha da salonnière.

Com ajuda do sogro, o marido consegue ascender na sociedade parisiense e, eventualmente, ser aceito como parte da aristocracia, embora não tivesse nascido nela. Seu marido conseguiu, também, uma grande fortuna que permitiu uma vida social glamorosa, incluindo através da compra do Castelo de Chenonceau.

A ascensão social do marido não teria tido tanto sucesso se sua esposa não tivesse tanto charme e talentos. Recebia a elite cultural em todas as localidades que morou, mantendo a seu lado os mais ilustres nomes do século XVIII: Voltaire (1694-1778), Jean-François Marmontel (1723-1799), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), Montesquieu (1689-1755), o filósofo e astrônomo Bernard Le Bovier de Fontenelle (1657-1757), entre outros. 

Rousseau foi, inclusive, tutor do filho do casal.

Tinha, como muitas donas de salões, um interesse especial pelo teatro e, em seu caso, pela Comédie-Française. E para além das reuniões filosóficas em sua casa, auxiliou a escrita do marido, tendo contribuído nas “Reflexões sobre o Espirito das Leis”, uma resposta a obra de Montesquieu. Ela escreveu também um texto pedindo a igualdade entre os sexos: “Ouvrage sur les femmes”. A chamada “querelle de Femme” já era debatida no período em que viveu, mas sua obra antecede textos feministas posteriores que tratam do mesmo assunto. Ela faz, inclusive, uma crítica aos autores do passado por sua exclusão das mulheres na narrativa da história, bem como uma apresentação de mulheres importantes do passado. Embora contemporânea de Olympe de Gouges (precursora do feminismo francês), sua obra ficou menos conhecida do que a obra de Gouges.

Seu marido morreu em Paris em 1769, lhe deixando uma herança milionária, mas a herança foi dividida após ter sido contestada pelo filho do casal, que antes da morte de seu pai já havia causado estresse ao casal devido a dívidas e gastos excessivos. Como parte da herança, Madame Dupin recebeu entre outros o Castelo de Chenonceau, para onde Madame Lupin se mudou após a prisão da família real durante a Revolução Francesa. Neste local veio a falecer em 20 de novembro de 1799, tendo passado os últimos anos de sua vida em solidão.

Obra: “Ouvrage sur les femmes”. 

Seleção de textos: Hunter, Angela Hunter; Wilkin, Rebecca. “Louise Dupin’s Work on Women, Selections”, Oxford:  Oxford Universtiy Press, 2023. Acesso via: https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&opi=89978449&url=https://api.pageplace.de/preview/DT0400.9780190090111_A47134235/preview-9780190090111_A47134235.pdf&ved=2ahUKEwj41uv5iOaPAxVEqpUCHSHEDvsQFnoECBYQAQ&usg=AOvVaw1WA8azvB3udQc4WrE_Gphd

Referências:

Uma carta endereçada a Madame Dupin. Acesso via Gallica: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b53150206g.r=madame%20dupin?rk=21459;2

Cartas. “Le Portefeuille de Mme Dupin, dame de Chenonceaux. Lettres et oeuvres inédites de Mme Dupin, …”, s.l. Cte Gaston de Villeneuve Guibert, 1884. Acesso via Gallica: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k62280155.r=%22madame%20dupin%22?rk=85837;2

Imagem da autora: “Rousseau chez Madame Dupin” (1889). Acesso via: https://www.researchgate.net/figure/Rousseau-chez-Madame-Dupin-1889-by-Maurice-Leloir-courtesy-of-the-public-digital_fig1_316115361

“Louise Dupin”. Library of Congress. Acesso via: https://guides.loc.gov/feminism-french-women-history/famous/louise-dupin

“Louise Dupin. A defender of gender equality in the age of Enlightment”. In. “Le Monde, 2022. Acesso via : https://www.lemonde.fr/en/summer-reads/article/2022/08/22/louise-dupin-a-defender-of-gender-equality-in-the-age-of-enlightenment_5994380_183.html

“Louise Dupin, un lumière féministe”. Acesso via: https://www.berenicetarcher.com/post/louise-dupin-une-lumi%C3%A8re-f%C3%A9ministe

Hunter, Angela Hunter; Wilkin, Rebecca. “Louise Dupin’s Work on Women, Selections”, Oxford:  Oxford Universtiy Press, 2023. Acesso via: https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&opi=89978449&url=https://api.pageplace.de/preview/DT0400.9780190090111_A47134235/preview-9780190090111_A47134235.pdf&ved=2ahUKEwj41uv5iOaPAxVEqpUCHSHEDvsQFnoECBYQAQ&usg=AOvVaw1WA8azvB3udQc4WrE_Gphd

Lasticová, Adriana. “L’oubli injuste de Louise Dupin et de son Ouvrage sur les femmes”. In. Çedille. Revista de Estudios Franceses. (23), 2023. Acesso via https://share.google/q2QmxUsPyW35qMZ7Z  

Leitão Bandeira, Lourdes. “Salões culturais abertos por figuras femininas: O salão ‘Universitas Gratie’”. Lisboa: Carvalho e Simões Lda, 2006. p. 98-100

(*) Elen Biguelini é doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos, no Site.

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