Nematelminto – por Marcelo Arigony
“Família não é ordem nem silêncio: é tropeço, é piada fora de hora, é...”

Era terça, meio-dia. Só terça. Mas Marcelo já tinha o corpo de sexta e a cabeça de quinta.
Isabela entrou chutando os tênis, largou a mochila de qualquer jeito. Um baque seco no chão. Eduarda já subiu no banco, ajeitando a colher como quem ensaia concerto.
Sentaram todos. Ingrid queria a tradição – era tudo o alemão na aldeia de onde vinha. Marcelo queria o moderno, linhas retas em azul. O milagre da arquitetura conciliou os dois: um arremedo de canto alemão moderno, até que bonito, com estofado firme, televisão de plasta – opa, LCD – no alto e, na parede, dois quadros gigantes de hambúrguer e Coca-Cola. Pop art germânica à brasileira. O cantinho preferido.
Ingrid servia o carreteiro fumegante. Marcelo achava que as crianças gostavam mais do dele, molhadinho. Mas, neste momento, ninguém falava nada. Só se entreolhavam em silêncio cúmplice, trocando jogos de sobrancelha que Ingrid fingia não perceber.
Isabela, dez anos, trouxe o tema da escola:
– A gente tá estudando os seres vivos, pai. Vertebrados e invertebrados…
Marcelo, de boca cheia, não resistiu:
– Nematelminto!
O silêncio caiu como panela no chão.
– O quê?! – Isabela arregalou os olhos.
Ingrid fechou a boca cheia, fez um “guUul” dramático e quase engasgou. Engoliu às pressas e resmungou:
– Na mesa, Marcelo? Logo na mesa?
Ele riu, limpou a boca e emendou em tom de gabolice estudantil:
– Eu era bom em biologia… muito ruim em física, mas biologia não precisava nem estudar. Sabia tudo: das metamorfoses, dos crossing over… Uma vez caiu numa prova sobre metagênese e ovulogênese. Teve colega que respondeu “trinta e doze”. Foi um dia antes do Saulo botar fogo na cortina, mas isso já é outra história… Tempo de Cilon Rosa, que não volta mais.
Isabela suspirou:
– Pai, eu não tô entendendo nada.
Eduarda, cinco anos, ergueu a colher e decretou:
– Eu não sou verme, eu sou princesa!
A mesa explodiu em gargalhadas. Até Ingrid, ainda meio engasgada, se rendeu ao riso.
E foi ali, entre carreteiro, palavras atravessadas e lembranças de escola, que a vida mostrou sua graça. Família não é ordem nem silêncio: é tropeço, é piada fora de hora, é princesa de colher erguida.
No fim, ninguém lembrará da pressa da terça nem do cansaço da manhã. Lembrarão do gosto do almoço de Ingrid – e do nematelminto, intruso inesperado, que deixou de ser verme e virou memória. Porque é isso que a família faz: transforma até o que parece estranho em história que fica.
(*) Marcelo Arigony é Advogado e professor, ex-Delegado da Polícia Civil e atual Diretor da ULBRA Santa Maria. Ele escreve no site às quartas-feiras.
Observação: a imagem que ilustra esta crônica foi criada pelo autor, com recursos de Inteligência Artificial.





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