O riso como sabedoria, remédio e filosofia – Amarildo Luiz Trevisan
Veríssimo “mostrou que a vida é séria demais para ser levada tão a sério”

Nos últimos dias tenho acompanhado nas redes sociais uma chuva de homenagens ao nosso grande escritor Luiz Fernando Veríssimo, que nos deixou em 30 de agosto, em Porto Alegre. São relatos carregados de afeto, quase sempre lembrando encontros casuais com o autor: uma poltrona de avião dividida ao acaso, um autógrafo pedido na rua, uma palestra tímida em alguma solenidade literária.
Em todos esses testemunhos se repete uma imagem: a do intelectual famoso que nunca perdeu a ternura. Um homem que, apesar da notoriedade, manteve o gesto cordial, o trato afetuoso, o humor delicado.
Ainda assim, sinto que as memórias pessoais, embora belas, não esgotam a grandeza da obra.
Poucos se arriscaram a situá-la no campo literário e filosófico. É por isso que me aventuro aqui, não para competir com memórias pessoais que não tenho, mas para celebrar sua verve única a partir de uma leitura crítica. Veríssimo foi mais que o cronista engraçado, ele soube transformar o humor em gesto filosófico.
Veríssimo não era um escritor do diálogo íntimo, como Manoel de Barros em seu sótão, mas um atento cartógrafo do cotidiano. Dele extraía cenas mínimas, gestos banais, frases soltas de esquina, e transformava tudo em matéria literária. Não buscava resolver as contradições da vida, mas expô-las com ironia, mostrando seus limites e, ao mesmo tempo, sua graça. O cronista captava as pequenas cenas da vida urbana, transformando-as em laboratório literário.
Sua obra é pós-moderna, mas de um pós-modernismo peculiar: crítico dos costumes, mordaz nas ironias sociais, atento às contradições do privado, como em A Comédia da Vida Privada, e carregado de sabor regionalista, como em O Analista de Bagé. Havia ali também ecos existencialistas, sempre puxando os dilemas da humanidade para a esfera íntima, onde realmente doem.
Mas Veríssimo foi além. Seu humor carregava algo da desconstrução derridiana, dissolvendo certezas em trocadilhos e tiradas. Aproximava-se de Wittgenstein, para quem os problemas não se resolvem, mas se diluem. O riso, nesse sentido, não era apenas entretenimento, mas gesto filosófico.

Disponível em: https://www.instagram.com/p/DN-k7zEkWYx/
Numa tirinha de As Cobras, diante da pergunta sobre o sentido da vida, uma resposta seca basta para encerrar a metafísica: “Estragou meu dia”. A tirinha ironiza justamente a pretensão metafísica de dar um sentido último à vida, sem que seja, em si, um exercício de niilismo. Ali está a essência de sua filosofia: o riso como antídoto contra o peso das narrativas totalizantes que Baudrillard, Lyotard, Rorty e Vattimo já criticavam. Não se trata de negar os problemas, mas de rir deles, deslocando sua gravidade para que caibam no cotidiano.
Esse é o riso que desmonta sistemas. Não busca conciliar as contradições da vida, mas rir delas, ironizar sua pretensa gravidade, expor seus limites. Mostrou que a vida é séria demais para ser levada tão a sério. Não se trata de sustentar verdades fortes, mas de enfraquecer certezas, acolher a contingência, rir das pretensões dogmáticas. O que Aristóteles já intuía na Poética e que Umberto Eco encenou em O Nome da Rosa: o riso desarma, desmonta, liberta.
Veríssimo foi, nesse sentido, um filósofo do cotidiano. Sua obra é a tradução literária da máxima de Caetano Veloso na música Vaca Profana:
“Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada.”
Eis aí a herança que fica. O riso como sabedoria, remédio e filosofia. O riso como chave para suportar, compreender e, sobretudo, bem viver.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





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