Pisador de geada: um pai de amor sem palavras – por Marcelo Arigony
“...Escrito na renúncia, como quem sabe que cuidar vale mais do que declarar”

Um aluno me disse, com um misto de mágoa e resignação, que achava que o pai não o amava. Trinta anos de vida, e nunca ouvira dele um “eu te amo”. A frase ficou ressoando – até que me veio à memória a figura do pisador de geada, aquele homem que aprendeu a falar amor sem voz, escrevendo-o apenas nos gestos.
Acordava antes do sol para acender o fogo, preparava o terreno para os que ainda dormiam, chegava em casa quando todos já tinham adormecido, estendendo o dia até o limite do corpo para que nada faltasse à mulher e aos filhos. E, depois de tudo, ainda percorria a casa em silêncio, garantindo que o primeiro raio de sol descortinasse um lar em harmonia.
Os filhos talvez nunca tenham compreendido por inteiro. Mesmo gritando nas rugas que o tempo duro apressou, o sacrifício seguia invisível: casaco novo a eles, comida farta à mesa, sonhos seus guardados para que os deles florescessem. Amor escrito na renúncia, como quem sabe que cuidar vale mais do que declarar.
Gary Chapman deu nome a esse idioma: atos de serviço. Uma das cinco linguagens do amor – ao lado das palavras de afirmação, do tempo de qualidade, dos presentes e do toque físico. O problema é que, quando cada um fala em língua diferente, instala-se o ruído. O pai que mede amor pelo sacrifício encontra o filho que mede amor pela palavra – e ambos saem feridos nesse desencontro.
Amar, no fim, é aprender traduções. Há quem fale pela boca, há quem fale pelas mãos. Reconhecer o casaco novo tanto quanto o “eu te amo” é o desafio. Porque amor, seja dito ou feito, só cumpre seu papel quando chega inteiro.
(*) Marcelo Arigony é Advogado e professor, ex-Delegado da Polícia Civil e atual Diretor da ULBRA Santa Maria. Ele escreve no site às quartas-feiras.





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