A Ineficiência na Gestão Pública: Um Custo que Todos Pagamos – por Marionaldo Ferreira

Um recente estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) revelou um dado que deveria nos fazer parar para pensar: a ineficiência na gestão pública brasileira custa o equivalente a 3,9% do PIB, ou cerca de US$ 68 bilhões por ano.
Em outras palavras, desperdiçamos quase o valor de dois orçamentos anuais do Ministério da Educação apenas com falhas de gestão, burocracia e má utilização dos recursos.
Significa escolas que poderiam estar equipadas, hospitais que poderiam estar funcionando melhor, estradas que poderiam ser recuperadas, e cidades que poderiam ser mais humanas e inteligentes. Significa, sobretudo, que o cidadão comum — aquele que paga impostos, enfrenta filas e lida com a lentidão dos serviços públicos — é quem arca com o preço da desorganização administrativa.
O problema não é apenas financeiro — é de cultura de gestão
O estudo do BID não fala apenas de números. Ele aponta para algo mais profundo: o déficit de governança.
Temos servidores capacitados, leis bem elaboradas e até boas intenções. O que falta, na maioria dos casos, é gestão baseada em evidências, planejamento estratégico e continuidade administrativa.
Falta compreender que gestão pública eficiente não é apenas “gastar menos”, mas gastar melhor.
Muitos municípios, por exemplo, ainda não utilizam indicadores de desempenho para avaliar suas políticas. Outros não têm sistemas integrados de informação, o que gera retrabalho, desperdício e descontrole.
Além disso, a alta rotatividade de gestores e a politização de cargos técnicos impedem que os projetos tenham continuidade e resultados concretos.
Falar em eficiência no setor público não é um discurso tecnocrático. É falar de justiça social.
Cada real mal aplicado é um real a menos na saúde, na educação, na segurança ou no desenvolvimento de oportunidades.
Eficiência não é sinônimo de corte — é sinônimo de responsabilidade, transparência e compromisso com o resultado.
Quando o BID alerta para um prejuízo anual de US$ 68 bilhões, ele não está apenas mostrando um número. Está nos dizendo que há um Brasil invisível dentro do Brasil — o país que poderíamos ser, se a máquina pública funcionasse em plenitude.
Existem soluções — e elas já estão ao nosso alcance.
A adoção de modelos de governança pública, com foco em planejamento, indicadores, avaliação e transparência, é uma delas.
Outra é a capacitação contínua dos gestores e servidores, para que compreendam o papel estratégico que desempenham na transformação do serviço público.
Também é urgente a modernização administrativa dos municípios, especialmente os menores, que ainda enfrentam sérias limitações técnicas e tecnológicas.
Iniciativas como o Decreto 10.540/2020, que trata da padronização e integração dos sistemas de gestão, caminham nessa direção, mas precisam sair do papel.
O combate à ineficiência pública não é apenas um tema para economistas ou gestores. É uma pauta de cidadania.
Porque cada cidadão tem o direito — e o dever — de cobrar uma administração que funcione, que planeje, que preste contas e que entregue resultados.
Afinal, o verdadeiro desenvolvimento não se mede apenas pelo PIB, mas pela qualidade da gestão pública e pela confiança que ela inspira em quem mais importa: o cidadão.
(*) Marionaldo Ferreira é especialista em governança pública, mentor de líderes e consultor em gestão e captação de recursos para municípios. Atua na formação de servidores e agentes públicos e é autor do livro Governança Pública e Suas Possibilidades.





‘Além disso, a alta rotatividade de gestores e a politização de cargos técnicos impedem que os projetos tenham continuidade e resultados concretos.’ Como se todo projeto do setor publico fosse magnifico e não uma asneira marketeira. Ou ‘politicas publicas’ que não atingem resultados não continuassem apesar de serem desperdicio de recursos.