O peso das palavras – por José Renato Ferraz da Silveira
‘Constroem reputações, encerram guerras, iniciam amores, rompem amizades...’

Há quem trate as palavras como quem distribui moedas sem valor. Falam muito, prometem demais, exageram sempre. E, pouco a pouco, descobrem que suas palavras já não compram confiança, não inspiram respeito e nem convencem ninguém.
Carlos Drummond de Andrade escreveu que “quanto mais consciência você tem do valor das palavras, mais fica exigente no emprego delas”. A frase parece simples, mas revela uma sofisticada lição sobre a linguagem e, sobretudo, sobre o caráter.
As palavras não servem apenas para comunicar. Elas constroem reputações, encerram guerras, iniciam amores, rompem amizades, elegem governantes, absolvem culpados e condenam inocentes. São matéria-prima da civilização.
Talvez por isso os grandes escritores escrevessem tão devagar. Não por falta de ideias, mas por excesso de responsabilidade. Sabiam que um adjetivo pode ferir mais do que uma espada, que uma metáfora pode sobreviver aos séculos e que uma frase mal construída pode destruir uma boa ideia.
Vivemos, entretanto, um tempo curioso. Nunca se escreveu tanto e talvez nunca se tenha pensado tão pouco sobre o que se escreve. As redes sociais transformaram a velocidade em virtude e a reflexão em obstáculo. Publica-se primeiro. Pensa-se depois – quando se pensa.
Drummond pertencia a outra escola. A escola da lapidação. Da palavra exata. Da economia elegante. Não escrevia para impressionar, mas para permanecer. Sabia que entre dizer muito e dizer bem existe um abismo.
Essa consciência deveria ultrapassar a literatura. Ela deveria chegar à política, às universidades, ao jornalismo, às salas de aula e às conversas cotidianas. Um país que banaliza as palavras acaba banalizando também os compromissos. Quando tudo é “histórico”, nada é histórico. Quando qualquer discordância vira “ódio”, perde-se a capacidade de distinguir o desacordo da violência. Quando toda crise é “sem precedentes”, os precedentes desaparecem da memória.
O empobrecimento da linguagem produz, inevitavelmente, o empobrecimento do pensamento. Quem dispõe de poucas palavras passa a enxergar um mundo menor, menos complexo e mais intolerante.
Escrever bem, portanto, não é um exercício de vaidade intelectual. É um exercício de respeito. Respeito pelo leitor, pela verdade e pela própria língua.
Talvez seja essa a grande lição escondida na frase de Drummond. Quanto mais compreendemos a força das palavras, menos vontade temos de desperdiçá-las. Descobrimos que elas não foram feitas para preencher silêncio, mas para iluminar ideias.
E essa talvez seja a mais elegante forma de sabedoria: falar apenas quando as palavras conseguem melhorar o silêncio.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria-UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Especialista em Humanidades pela PUC-RS. Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduado em História pela Ulbra-RS.





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