Artigos

Individualismo nosso de cada dia – por Guilherme Bicca

“Justamente por isso eu defendo que a escola precisa, sim, ensinar valores”

Esta semana, um episódio em Santa Maria chamou minha atenção. E, sinceramente, penso que ele diz muito sobre o estado de espírito das pessoas, hoje em dia: imbuídos do mais puro individualismo e egocentrismo.

Imagens de câmeras de segurança do Bairro Tancredo Neves mostraram um grupo de jovens apedrejando carros estacionados na rua, de madrugada. Simples assim: gente depredando o patrimônio alheio só porque deu vontade.

Imagina o trabalhador, que já vive com o orçamento no limite, sobrando sempre mês no fim do salário, e tendo que gastar o dinheirinho suado porque uma gurizada entediada decidiu brincar de tiro ao alvo com seu carro.

E tudo isso por quê? Porque não estão nem aí pro próximo. Não dão a mínima pro estrago que vai causar.

E foi aí que eu lembrei de uma filosofia da qual eu discordo profundamente: a velha máxima de que “educação se dá em casa, e não na escola”.

Eu entendo o romantismo dessa ideia. É bonito dizer que os valores devem vir do lar, que os pais devem ensinar respeito, empatia e responsabilidade. Mas vamos encarar a realidade: como é que vai se cobrar isso de uma família que mal sabe se vai ter comida na mesa amanhã?

Quem tem estabilidade, tempo e estrutura, até pode se dar ao luxo de transformar o jantar em uma aula de cidadania. Mas e quem está tentando apenas sobreviver? Quem está exausto, preocupado, sufocado pelas contas?

Pois é. Justamente por isso eu defendo que a escola precisa, sim, ensinar valores. Empatia, coletividade, respeito, pertencimento. Não é um luxo. É uma necessidade social.

Não a toa, vejo muitos contemporâneos, ou pessoas de mais idade que eu, reclamando que hoje em dia não se tem aula de “moral e cívica”. Se ensinava muita baboseira, sim. Mas ao mesmo tempo se ensinavam valores que hoje são raros.

Semana passada, aqui mesmo, eu falei sobre a perturbação do sossego público. Gente que acha normal ligar o som no último volume de madrugada, como se o resto do mundo não existisse. Pois isso faz parte do mesmo problema: o individualismo.

“Eu quero ouvir música alta, então azar de quem tem que acordar cedo.”
“Eu tô entediado, então azar de quem vai ter o carro destruído.”

Tudo gira em torno do eu. Do meu prazer, do meu tempo, da minha vontade.

E é justamente por isso que as escolas precisam (re)ligar o alerta. Não dá mais pra deixar o ensino de empatia, coletividade e pertencimento “pro lar”. Se a gente continuar fingindo que cada um deve cuidar apenas do seu, a conta vai chegar. Na verdade, já está chegando.

Talvez o verdadeiro vandalismo de hoje não esteja só nas pedras jogadas contra os carros, mas na desvalorização daquilo que mais nos humaniza: a capacidade de pensar no próximo.

(*) Guilherme Bicca é jornalista graduado na Universidade Franciscana (UFN) desde 2008. Nesses anos, especializou-se em assessoria de comunicação integrada, quando realizou trabalhos junto a instituições como Sociedade de Medicina; Apusm; Sindilojas; e, mais recentemente, CDL Santa Maria. Está à frente da comunicação de entidades como Adesm e Secovi Centro Gaúcho; presta assessoria especializada ao Fidem Bank; é redator sênior na Jusfy, legaltech eleita a startup mais escalável do último South Summit. Também é um dos âncoras do Semanário, programa veiculado aqui mesmo em claudemirpereira.com.br; e criador do podcast Bocas do Monte, da TV Santa Maria. Guilherme Bicca escreve às sextas-feiras no site.

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

11 Comentários

  1. Resumo da opera II. Se o Estado através dos seus agentes ‘coletasse’ os apedrejadores muito possivelmente não iria dar nada por causa do Eca.

  2. ‘desvalorização daquilo que mais nos humaniza: a capacidade de pensar no próximo. ‘Mimimi utopico ideologico. Solução simples: a escola vai mudar a natureza humana. De meia duzia apedrejando carros uma solução para toda a sociedade tupiniquim.

  3. ‘Pois isso faz parte do mesmo problema: o individualismo.’ Livre arbitrio sem consequencias. Na Ianquelandia também existe indivualismo. Como na Europa. So que lá os ‘freios’ funcionam.

  4. ‘não se tem aula de “moral e cívica”. Que basicamente era aula de historia. OSPB direito constitucional. EPB perda de tempo.

  5. ‘Pois é. Justamente por isso eu defendo que a escola precisa, sim, ensinar valores. Empatia, coletividade, respeito, pertencimento.’ Engenharia social. Pessoal já sai sem saber portugues e as quatro operações direito. Mas com ‘valores’ vai funcionar.

  6. ‘Quem está exausto, preocupado, sufocado pelas contas? ‘Vitimização de praxe. Nunca fazem nada errado porque são ‘vitimas’. Desculpa serve até para crime organizado, trafico de drogas, etc;

  7. ‘ Mas vamos encarar a realidade: como é que vai se cobrar isso de uma família que mal sabe se vai ter comida na mesa amanhã?’ Vamos combinar que antigamente também existiam pobres, muito mais, e o respeito era maior.

  8. ‘uma gurizada entediada decidiu brincar de tiro ao alvo com seu carro.’ Com certeza eram filhos de medicos e advogados.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo